#pracegover Na foto, Dr Boppré comemorando um aniversário com a esposa
Foto: Arquivo da família/Divulgação

Há 66 anos, nascia na Madre, região do interior e bastante carente do município do Laguna, a pessoa que viria a se tornar o meu pai. Num lar que no futuro teria onze filhos, criados no pouco e de maneira humilde pelos meus avós com muita determinação e trabalho na roça.

Muitos conheceram meu pai como Dr Boppré, porém para a família ele sempre foi o Zinho, apelido que veio desde criança, por conta de “doutorzinho”, já que desde que começou a falar ele tinha o sonho de ser médico. Naquela época eles andavam alguns quilômetros a pé para ir na escolinha local, os estudos iam só até o primário e a partir daí os filhos ou ficavam no sítio ajudando a família na subsistência, ou iriam tentar a sorte como garçom em São Paulo.

Por insistência do meu pai, que tinha o sonho de ser médico, quando ele terminou o primário foi morar em Laguna, na casa do avô, junto com seu irmão de idade mais próxima, para concluir os estudos. Engana-se quem pensa que na casa do avô a vida foi fácil: meu pai e seu irmão, Romualdo (tio Bado), trabalhavam como frentistas e lavadores de carro no posto de gasolina do avô nos períodos livres da escola. Um dia, após uma confusão, quando o tio Bado bateu por acidente o carro de um cliente, meu pai e ele foram expulsos da casa do avô, sem que tivessem concluído o ginásio. Foram embora de Laguna e seguiram os passos já calejados dos que tentavam uma vida melhor ao sair da Madre e desembarcaram na cidade que hoje chamo de minha, São Paulo, para trabalhar como garçons.

Nos anos que foi garçom a noite em São Paulo, durante o dia o pai estudava, sem nunca se desviar do sonho de ser médico. Devo acrescentar, para os que não tiveram o privilégio de conhecer meu pai, que ele foi a pessoa mais determinada que eu já conheci na vida. Concluiu o ensino médio aos 20 anos e fez sua primeira tentativa, fracassada, de ingresso na carreira médica através do vestibular da Fuvest.

Resiliente e com uma força de vontade invejáveis, matriculou-se no pré-vestibular do Objetivo, que pagava com o salário e gorjetas do trabalho no restaurante, e continuou os estudos. Com 21 anos, teve uma nova derrota no exame do Vestibular ao ser aprovado para a segunda opção, farmácia, porém sem chances no grande sonho, a medicina. Dessa vez havia tentado na UFPR – na época os vestibulares federais eram todos no mesmo dia.

Meu pai conta que, nessa época, começou a repensar a vida. Já estava com 21 anos e percebeu que não iria conseguir realizar o sonho de ser médico se continuasse com a rotina cansativa de trabalhar durante a noite e estudar de dia. Foi buscar conselhos com o próprio pai, meu avô, pessoa humilde, que viveu a vida na roça, mas muito sábio. Ao externar para o pai suas preocupações e anseios, e confessar o plano que tinha para o próximo ano, meu avô o respondeu da seguinte maneira: “meu filho, tenho muito pouco pra te dar, mas eu te dou a camisa que eu estou vestindo agora para te ajudar a um dia erguer as mãos para o céu e dizer que foi um vencedor”.

Nesse momento, meu pai pediu demissão da lanchonete, pegou todo dinheiro que havia juntado e foi viver um ano de vida de “filho de rico” em Florianópolis, apenas estudando. O dinheiro era suficiente apenas para pagar o ano do cursinho extensivo. Matriculou-se e foi atrás de moradia. Bateu numa pensão e perguntou se ela o aceitaria para morar lá caso ele a ajudasse a cuidar da pensão. Ela topou a proposta e assim, aos 22 anos, meu pai investiu todas as fichas dele no próprio sonho.

Ao final daquele ano, meu pai foi finalmente aprovado no vestibular de Medicina na UFSC, em 6º lugar, e deu início a carreira brilhante que nós conhecemos. Sempre batalhou para se manter, tendo sido monitor e professor particular. No último ano de faculdade, veio fazer internato no HNSC, em Tubarão, e quando faltava seis meses para a formatura, meu avô descobriu um cancêr de pele maligno e agressivo. Meu pai, que era interno no hospital, dormiu durante meses no leito ao lado do vô, que infelizmente faleceu quando faltava três meses para a formatura do único filho que tinha estudado.

Na formatura, mesmo entristecido pela perda do próprio pai, o menino da madre que sonhou ser médico colheu o primeiro reconhecimento da inabalável dedicação: obteve a maior média dos formandos do ano e a medalha de mérito.

Meu pai contava que esse foi outro momento de muita reflexão na vida. Chegou até a pensar a desistir da medicina. Ele sempre compartilhou desse sonho com o pai dele, e foi um golpe duro do destino privá-lo da companhia do pai no momento que ele, enfim, venceu. Meu avô deixou dois filhos caçulas, com 10 e 12 anos, sozinhos no sítio com a minha avó, já com quase 50 anos. Meu pai, mais uma vez um exemplo de resiliência e força, não tomou atalhos na formação médica: fez residência, se tornou um cirurgião vascular de renome, formado pela USP, assumiu a criação destes dois irmãos caçulas (que se tornaram, posteriormente, médico e dentista), formou os dois filhos e a afilhada médicos.

Ele nos inspirou a seguir na carreira que ele amava, tamanha paixão tinha pela profissão. Os olhos brilhavam toda vez que contava casos do consultório e das cirurgias. Ele foi a peça fundamental na vida da nossa família. Graças à luta e à determinação inabaláveis dele, nosso destino foi mudado para sempre.

Em todos esses anos, eu nunca o vi reclamar da vida e do trabalho – meu pai se levantava para trabalhar feliz, pois ele estava vivendo o sonho dele. Quantos de nós vivemos nossos sonhos? Quantos temos o privilégio de acordar todos os dias gratos por estarmos vivendo exatamente aquilo que a gente sempre quis para a nossa vida?

No primeiro aniversário com a ausência física dele, deixo um pouco da essência dele para quem também o amava. Meu pai amado, que a sua luz para sempre brilhe, e seu exemplo continue a inspirar as próximas gerações da nossa família e de todas aquelas que foram tocadas pela tua existência. Nós te amamos.

Com carinho,
Yasmin.