A declaração de pandemia de coronavírus pela Organização Mundial da Saúde (OMS) solidificou o cenário negativo para os ativos globais e domésticos nesta tarde. Até então, a OMS caracterizava a doença, que teve origem na China, como uma série de epidemias.

Com exceção do iene, nenhuma classe de ativos se salva: nem os de risco, expressos pela bolsa de Nova York e pelo Ibovespa; nem os de segurança, como títulos do Tesouro americano (Treasuries) e ouro. Por volta das 15h20, o mecanismo de “circuit breaker” foi acionado na B3, após o Ibovespa atingir 10,11% de queda.

Em meio ao crescimento acentuado do número de casos de coronavírus nos Estados Unidos, os principais índices do mercado americano recuam na casa dos 5% e o índice de volatilidade do S&P 500 opera nos níveis mais elevados desde a crise financeira de 2008.

Às 15h05, na Bolsa de Valores de Nova York (Nyse), o Dow Jones opera em queda de 5,2%, aos 23.713,26 pontos, enquanto o S&P 500 cede 4,68%, a 2.747,26 pontos. O índice eletrônico Nasdaq perde 4,45%, aos 7.971,34 pontos. Todos os três estão próximos de adentrarem em “bear market” – que é um mercado de baixa, que acontece quando há uma queda de 20% do índice após o pico recente.

O VIX, índice da volatilidade do S&P 500, que é conhecido como o “termômetro do medo de Wall Street”, opera em alta de 13,6%, para 53,71 pontos.

De acordo com números mais recentes, o número de casos de Covid-19 nos EUA superou o primeiro milhar, enquanto a China relatou um aumento de infecções importadas do exterior, o que indica novos desafios das autoridades para combater a propagação da epidemia. O total de infectados é de 121 mil ao redor do mundo, com 4.369 mortes registradas.

Em meio ao agravamento do problema e seus impactos no crescimento econômico, os investidores esperavam que a Casa Branca oficializasse o anúncio de um pacote de estímulos fiscais na noite de ontem. No entanto, o presidente Donald Trump sequer compareceu à entrevista coletiva que agendou, fato que foi considerado uma frustração por parte dos agentes do mercado. Ademais, há uma discussão com o Partido Democrata a respeito da natureza do que pode ser feito, como um corte sobre impostos que incidem sobre a folha de pagamentos.

As ações europeias fecharam em queda esta quarta-feira, também sob pressão da agora declarada pandemia de coronavírus. O índice Stoxx Europe 600 perdeu 1,1%, enquanto a nível nacional o índice alemão DAX cedeu 0,4%, o francês CAC caiu 0,5% e o britânico FTSE 100 recuou 1,5%.

Para investidores privados, entrar nos mercados neste momento é como fazer malabarismos com facas: “é demasiado arriscado”, disse Ian Shepherdson, economista-chefe da Pantheon Macroeconomics. “Para traders de curto prazo, essa volatilidade é muito entusiasmante, mas para investidores de longo prazo, é preocupante.”

A remuneração dos Treasuries, apesar do ambiente de aversão ao risco, permanecem em alta, com o rendimento de 10 anos a 0,766%, de 0,752% ontem, dia bastante poistivo para os mercados. O ouro, por sua vez, fechou em queda de 1,1%, a US$ 1.642,30 a onça-troy.

No mercado cambial, o iene é o ativo que centraliza as compras e sobe 0,7% ante o dólar, que é cotado a 104,745.

Em uma reunião extraordinária, o Banco da Inglaterra (BoE) cortou a taxa de juro para 0,25% face a 0,75%. Amanhã é dia de o banco Central Europeu (BCE) fazer a mesma coisa, possivelmente reduzindo a taxa de depósitos de -0,5% para -0,6% com possibilidade de mais ações de flexibilização quantitativa.

No mercado brasileiro, o dia também é de intensa aversão a risco, que se reflete na venda de ações e no salto do dólar e das taxas futuras de juros. Assim, há pouco, o mecanismo de “circuit breaker” foi acionado na B3, após o Ibovespa atingir 10,11% de queda.

O dólar comercial sobe 1,86%, para R$ 4,7310. Já entre os juros futuros, a taxa do DI para janeiro de 2021 subia de 3,90% no ajuste anterior para 4,10%; a do DI para janeiro de 2023 passava de 5,22% para 5,75%; e a do DI para janeiro de 2025 saltava de 6,19% para 6,72%.