Mais do que números e gráficos, a pandemia do coronavírus se refere a vidas, histórias e sentimentos. Dentro desse cenário mundial, o cirurgião do aparelho digestivo e diretor do Complexo Médico Pró-Vida, em Tubarão, Dr. Jaime César Gelosa Souza, passou recentemente pela experiência de contrair o Covid-19.

“Possivelmente contraí de minha mãe, que já devia estar com o vírus, apresentava sintomas comuns de gripe, mas sem febre, e como ela não tinha viajado para o exterior e naquele período, não havia nenhum diagnóstico no estado, não tínhamos referências locais. Ocorreu numa quarta-feira, que como de costume, almoçamos sempre juntos. Acredito que fomos uns dos primeiros pacientes do município a ter a doença. Situação que me causou, quando descobri, um grande desconforto, não somente físico, mas também emocional, principalmente por ela, por ser uma senhora de idade frente a uma doença tão desconhecida”, recorda.

Os sintomas, o médico lembra que iniciaram três dias após o encontro familiar. Cansaço, tosse seca, febre e depois, falta de apetite, de paladar, de olfato e dores generalizadas, quadro que seguiu com evoluções, tanto na mãe quanto no filho.

“No quinto dia fiz a tomografia e apareceu o padrão de vidro fosco com o laudo de pneumonia aguda bilateral. No dia seguinte, veio o resultado do exame PCR coletado pela Vigilância Epidemiológica confirmando o diagnóstico de Covid-19. Ao comparar os diagnósticos das tomografias, o exame da minha mãe estava pior que o meu. Isso me deixou arrasado. Foi um dos momentos mais difíceis”, descreve emocionado.

O cirurgião não chegou a ser hospitalizado. Fez isolamento domiciliar junto com a esposa e filhos, recebendo do quarto os cuidados da esposa, e seguindo de casa as indicações de profissionais da Pró-Vida e também de colegas de outras unidades de saúde. Com o agravamento dos sintomas, febre persistente e pneumonia em estágio preocupante, recebeu a indicação para usar hidroxicloroquina.

“Como passei a me sentir muito mal, recebi do amigo, ex-professor e grande médico Lawrence, a orientação para usar a hidroxicloroquina. Medicamento que o médico infectologista Rogério Sobroza de Mello, também amigo e referência ímpar na sua especialidade, e que me atendia em casa nesse momento, me autorizou a usar em combinação com o antibiótico azitromicina. Mesmo com dificuldades de encontrar a hidroxicloroquina, consegui a medicação no dia seguinte em que fiz a tomografia. Ciente dos efeitos colaterais e também das poucas evidências científicas sobre sua comprovação no combate ao vírus, resolvemos apostar devido à piora do meu estado e acho que no meu caso deu certo. Por outro lado, minha mãe que apresentou quadro mais grave, não conseguiu tolerar o uso dessa medicação, mas também conseguiu ficar completamente recuperada”, relata.

Jaime recebeu a orientação do Dr. Rogério para permanecer em isolamento domiciliar por mais 14 dias após o último dia dos sintomas. Medida tomada para evitar a transmissão do vírus. Posteriormente, realizou o teste de sorologia que confirmou que já apresentava anticorpos contra o Covid-19.

“Um dos critérios para internação é a insuficiência respiratória, que eu não apresentei e isso facilitou bastante. Permaneci o tempo todo em casa recebendo, mesmo de longe, o carinho familiar que foi extremamente importante. Aproveito para agradecer imensamente a todas as pessoas e profissionais de saúde que me auxiliaram, em especial aos colegas de diversas especialidades do Complexo Médico Pró-Vida, do Hospital Socimed, do Hospital Nossa Senhora da Conceição, aos amigos, a família e a todos que rezaram e mandaram mensagens, e principalmente a Deus”, comemora.

 

A utilização da hidroxicloroquina

Para o especialista em medicina de família com atuação em geriatria e medicina do trabalho do Complexo Médico Pró-Vida, Dr. Lawrence de Luca Dias, o uso da hidroxicloroquina aplicada no tratamento do Dr. Jaime pode ter contribuído com a melhora dos sintomas, mas não há evidências científicas comprobatórias que esse medicamento possa ser usado em todos os casos de Covid-19.

“O uso da hidroxcloroquina em pacientes com coronavírus é o que chamamos de uso compassivo, ou seja, uma droga da compaixão. Medicamento que não tem todas as evidências científicas comprovadas, mas com pontos positivos em sua eficácia que ao colocarmos numa balança entre riscos e benefícios, muitas vezes para uma tomada de decisão é fundamental. O médico que acompanha o paciente é quem deve decidir se deve usar e quando usar no tratamento”, indica o clínico.

Atualmente a hidroxicloroquina não é mais comercializada em farmácias, somente liberada para uso em hospitais, em pacientes em estágios de coronavírus com maior gravidade e somente por decisão médica.

“A cloroquina não pode ser administrada para qualquer pessoa. Ela pode causar arritmia cardíaca, retinopatia, problemas hepáticos e outros efeitos colaterais. Estamos na torcida para que logo ocorram seguras comprovações científicas que venham afirmar que determinado remédio ou vacina é indicado para eliminar o Covid-19. Até o momento, o melhor caminho ainda é evitar o vírus, manter medidas sanitárias, fazer isolamento social e evitar aglomerações”, finaliza Dr. Lawrence.