Liliane Dias

Isola del Liri – Itália

Em dias de pandemia, vários exemplos de solidariedade aparecem em redes sociais. Pessoas fazem compras para idosos, profissionais de saúde abdicando do convívio com os seus filhos ou de seus pais em prol do próximo, enquanto muitos ignoram essas ações e não colaboram em nada para amenizar o sofrimento do próximo. Há também empresários que contribuem com doações de equipamentos, para atender pessoas que nem imaginam que precisarão deste suporte. 

Talvez até seja uma pessoa que desrespeitou o decreto e continuou caminhando na beira rio, ou o dono de fábrica, que obrigou os funcionários a trabalhar. Mas há também os que se doam e doam produtos para os que estão constantemente na rua, expostos. Na contramão disso tudo, vários empresários tentam se beneficiar com a ‘desgraça’ dos outros. No Brasil, o caos não chegou ainda (e sejamos otimistas de que não chegue a ser), como os primeiros países atingidos pelo vírus.

Na Itália, um brasileiro relata que ao menos parte do comércio que permaneceu aberto (mercados e farmácias) conhece o significado da palavra compaixão. Jhone Bressan, de 28 anos, reside há três anos na Inglaterra e conta que chegou na Itália em janeiro com a família (vinda do Brasil), para providenciar a documentação de cidadania. O que pretendia ser uma viagem de semanas se tornou uma viagem de meses e sem uma previsão certa de retorno.

Em conversa com a reportagem do Portal Notisul, ele conta que por trabalhar como uber, conhece muitas pessoas e dentro da experiência vivida uma das coisas que mais o impressionou, foi a atitude dos estabelecimentos que permaneceram abertos. “Viemos para cá preparados financeiramente para reconhecer nossa cidadania italiana, estamos com elas prontas, só que presos por não poder sair do país. Mas nem todos chegam preparados financeiramente, foi então que me surpreendeu a atitude dos comerciantes”, relata.

“Fui ao mercado na última sexta-feira (20), e comprei comida para pelo menos 5 ou 6 dias. Daí a minha surpresa, pois muitos produtos básicos como o pão, queijo e marcarão, tiveram uma redução no valor de até 20%. Impressiona mesmo em meio ao caos a consciência que o próximo também precisa de comida e outros itens básicos. Não há correrias em supermercados e todos estão pacientemente obedecendo as ordens de distâncias um dos outros. Fiquei muito impressionado, porque se é aí no Brasil eles não fazem esse tipo de oferta. Brasileiro tira essa situação para lucrar ainda mais”, pontua.

As pessoas não saem para nada. Jhone conta que para comprar os itens necessários, apenas uma pessoa da casa pode sair. O não cumprimento da ordem governamental ocasiona em multa de 206€ por pessoa (mais de R$ 1.100,00). “Apenas estamos livres para ir ao supermercado com uma declaração nossos dados e esclarecendo o motivo da saída. Apenas um membro da família pode ir. A cidade onde estou e também toda a Itália vivem dias de pânico e muito medo, ruas desertas e um silêncio total. Mas acreditamos que no próximo dia 4, a situação deve começar a voltar ao normal e aos poucos as linhas aéreas”, finaliza.