A crise da Avianca, que está em processo de recuperação judicial, escancarou um problema recorrente na aviação brasileira: a concentração. Duas empresas dominam esse mercado: Gol e Latam. Como a situação da Avianca ficou mais crítica em abril, quando a companhia começou a cancelar uma série de voos por conta da devolução de aviões, o consumidor já está sentindo no bolso o impacto da redução da oferta de aviões pelo país.

As promoções não acontecem como antes no momento atual, na contramão de um período considerado de “baixa temporada” para o setor. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que as passagens não param de subir. Conforme dados da prévia do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15), os bilhetes tiveram alta média de 5,54%, entre março e abril e, no mês anterior, de 7,54%. Contudo, dependendo da rota que o consumidor for comprar, a diferença entre os preços de hoje e os de há um ano podem ser muito maiores, superando 140%, admitem fontes do setor. Na contramão, os dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) estão desatualizados e não mostram essa discrepância recente que prejudica o consumidor. A pesquisa mais recente é do último trimestre de 2018.

O advogado Ademir Pereira Junior, sócio da Advocacia José Del Chiaro, especialista em direito concorrencial, destacou que há uma evidência clara de redução na competição com a crise da Avianca. “De fato, uma diminuição importante da concorrência sempre impacta o preço, ainda mais quando o mercado é concentrado, com poucos competidores, como a da aviação”, afirmou.

Queixas

Mesmo com a promessa de que o fim da franquia de bagagem abaixaria os preços, está cada vez mais difícil encontrar passagens baratas. A aposentada Neuza Tomás Alves, 75 anos, se queixou da redução da concorrência no mercado. “A gente compra com três meses para ver se consegue um preço melhor, e, mesmo assim, está difícil”, disse ela, que estava embarcando para Fortaleza. Ela acredita que os cancelamentos dos voos da Avianca estão sendo motivo para as outras empresas aproveitarem para elevarem os preços. “Eles estão aproveitando que não temos opção. O pior é que dizem que vão tirar o lanche para abaixar o preço da passagem, mas a gente sabe que não abaixa nada”, reclamou.

Para a psicóloga Valerya Coutynho, 48, que estava viajando para Belo Horizonte a trabalho, o país não possui respeito e cuidado com a população.  “Imagina alguém que tem que fazer viagem de última hora a trabalho. Quanto mais próxima a data da passagem, mais cara ela é. Espero que isso mude”, disse.

O técnico em produtos Michel Ávila, 31, consegue fazer um histórico de preços, já que embarca, pelo menos três vezes por mês, para fora de Brasília. “Hoje de manhã, compraram uma passagem para mim para Porto Alegre por R$ 1,3 mil, só a ida. É um absurdo esse preço”, opinou. Para ele, viagens aéreas deveriam ser mais acessíveis.

Na opinião do estudante de engenharia de produção da Universidade de Brasília (UnB), Vitor Alonso, 25, os preços não condizem com o que as empresas oferecem.  “Os voos são bem básicos e não temos refeição. Não tem comparação com voos internacionais”, disse. Há alguns meses, ele deixou de visitar a mãe em São Paulo por causa do preço das passagens. Nem pagando parte com milhas foi possível arcar como custo.

Abuso

O porteiro Eli Carlos, 41, mora no Rio de Janeiro e estava com a família fazendo uma conexão em Brasília com destino a Fortaleza. Após cinco anos sem viajar de avião, se assustou quando foi comprar as passagens. “Quando fui comprar, senti o impacto no bolso. Os preços estão absurdos. Somos três lá em casa, pesa muito mais”, comentou.

Diante desse cenário com suspeita de abuso nos preços, o governo finalmente resolveu agir. O chefe da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) do Ministério da Justiça, Luciano Timm, reuniu-se na quinta-feira com integrantes do Ministério da Economia, da Anac e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para debaterem o assunto. “Fizemos uma reunião e vamos monitorar os preços das passagens. A Anac vai fazer um levantamento de preços e nos apresentar até a próxima sexta-feira para avaliarmos melhor”, garantiu. “Quem se sentir prejudicado com o aumento abusivo das passagens deve registrar uma reclamação na plataforma consumidor.gov.br”, completou.

Procuradas, as companhias evitaram comentar sobre o aumento dos preços das passagens. A Gol, por exemplo, não retornou até o fechamento desta edição. A Latam disse que, “assim como todo o setor aéreo, trabalha com o sistema de precificação dinâmica, que considera diversos fatores para oferecer a cada cliente o produto mais adequado”. A companhia recomendou ao cliente programar as suas viagens com antecedência para encontrar os preços mais atrativos. “É possível encontrar as melhores tarifas domésticas no Brasil de dois a seis meses antes do voo pretendido. No caso de viagens ao exterior, essa antecedência gira em torno de quatro a oito meses”, orientou.