Yangun, Mianmar

O violento ciclone no delta do Irrawaddy, em Mianmar, provocou uma gigantesca onda que deixou as pessoas sem ter para onde fugir e matou pelo menos 22,5 mil e deixando 41 mil desaparecidos, disseram autoridades ontem.

“Mais mortes foram causadas pelo maremoto do que pela tempestade propriamente dita”, disse o ministro de auxílio e recolocação, Maung Maung Swe, em entrevista coletiva na devastada Yangon, antiga capital do país, onde já começa a faltar água e comida.
“A onda tinha até 3,5 metros de altura e inundou metade das casas em aldeias baixas”, disse ele, oferecendo a primeira descrição detalhada do ciclone do fim de semana. “Os moradores não tinham para onde fugir”.

Foi o pior ciclone na Ásia desde 1991, quando 143 mil pessoas morreram em Bangladesh.
O ministro da informação, Kyew Hsan, afirmou que as Forças Armadas estão “fazendo o seu melhor”, mas analistas viram na tragédia um golpe para o regime militar da antiga Birmânia, que se orgulha da sua capacidade de lidar com qualquer problema.

“O mito que eles projetaram de serem bem preparados foi totalmente varrido”, disse o analista político Aung Naing Oo, que fugiu para a Tailândia depois da brutal repressão a uma rebelião em 1988. “Isso pode ter um tremendo impacto político em longo prazo”, observa.

Habitualmente recluso, o regime militar desta vez aceitou a ajuda internacional, ao contrário do que fez depois do tsunami de 2004 no oceano Índico. Bernard Delpuech, funcionário humanitário da União Européia em Yangon, disse que a Junta Militar enviou três navios com comida à região do delta.
Quase metade dos 53 milhões de birmaneses vive nos cinco estados atingidos pela tragédia.

A mídia, controlada pelo regime, não se cansa de mostrar soldados em atividades heróicas e simpáticas, mas, em uma população ainda marcada pela repressão de setembro, há uma inevitável sensação de revolta.
“O regime perdeu uma oportunidade de ouro para enviar os soldados assim que a tempestade parou, para conquistar o coração e a alma das pessoas”, disse um funcionário público aposentado.

A ONG humanitária World Vision disse na Austrália ter recebido vistos especiais para enviar pessoal para ajudar os seus cerca de 600 funcionários em Mianmar. “Isso mostra como na cabeça do governo birmanês isso é grave”, afirmou Tim Costello, diretor da organização.

Uma lista de mortos e desaparecidos em cada cidade, lida pelo general-ministro Nyan Win, cita 14.859 vítimas fatais no delta do Irrawady e 59 na Grande Yangon, a maior cidade do país, com cinco milhões de habitantes. Quatro dias após o ciclone, a antiga Rangum continua sem eletricidade.