Amanda Menger
Tubarão

As 38 mil sacas de arroz vendidas pelo produtor Alfredo Lemos Filho, de Tijucas, à Campeiro Produtos Alimentícios, de Tubarão, deveriam render cerca de R$ 1,4 milhão ao rizicultor. Contudo, até agora, ele recebeu apenas R$ 70 mil, valor correspondente a um adiantamento dado em fevereiro, quando o contrato de venda da produção foi assinado.

“Isso é um absurdo! Trabalho o ano inteiro e o que recebo? Nada e ainda estou com um monte de dívidas para pagar. Não sei como vou me virar. Tem noites que chega 1 hora da manhã e eu não consigo mais dormir, perco o sono pensando em como farei para pagar as dívidas”, desabafa Alfredo.

Rizicultor desde 1985, há sete anos ele comercializava arroz para a Campeiro. “Neste tempo, todo eles sempre cumpriram com os contratos. Nunca tive problemas, nem desconfiei de nada. Tanto é que estava otimista e arrendei mais terras e comprei novos equipamentos”, desabafa Alfredo.

Só em financiamentos de produção, Alfredo tem dois contratos com o Banco do Brasil, no valor de R$ 230 mil cada. Além disso, há o financiamento dos equipamentos agrícolas. “E agora? A primeira parcela venceu dia 31 de março e não recebi nada. O contrato de venda prevê outras três parcelas e não há previsão de recebimento. Conversei ontem (quinta-feira) com o novo administrador, Liandro Concalo, e ele disse que não pode fazer nada”, queixa-se.

Para entender o caso
• Em fevereiro, o governo do Paraná anunciou a instalação da Campeiro na região metropolitana de Curitiba. A empresa iria transferir a fábrica de Tubarão para o estado vizinho e investiria US$ 50 milhões.
• A direção da empresa negou a transferência. Há quase um mês, os empregados foram dispensados temporariamente e, no último dia 6, as demissões foram confirmadas.

• O ex-proprietário da empresa, Max Nunes, garante que vendeu a Campeiro com uma dívida de R$ 7 milhões. O grupo A. Nunes vendeu a Campeiro por R$ 8,2 milhões – R$ 5,2 milhões para Max e R$ 3 milhões para Antônio Cordeiro (um dos sócios). Devido a uma cláusula do contrato de venda, se houvesse alguma questão judicial, o valor devido seria depositado por Alexandre Augusto Pereira Tavares, ex-administrador, em juízo, o que não ocorreu e o valor deixou de ser pago.
• Há cerca de dois anos, o ex-administrador ofereceu a empresa de volta. Em auditoria feita a pedido de Max, constatou-se que a dívida passou de R$ 7 milhões para R$ 20 milhões em um ano.

• Max solicitou o bloqueio da conta onde era feito o depósito do valor devido ao grupo A. Nunes, porém, o pedido foi negado em primeira instância. O empresário recorreu e, há um mês, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina bloqueou a conta. Dos R$ 2,8 milhões, havia apenas R$ 813,00.
• O procurador da república em Tubarão, Celso Antônio Três, investiga algumas atividades da empresa e o Ministério Público Federal deve ajuizar duas ações, incluindo crimes contra o sistema financeiro. Na próxima semana, o procurador entrará com pedido de sequestro de bens de Alexandre e terceiros.

Prisão preventiva não
foi expedida ainda

O pedido de prisão preventiva do ex-administrador da Campeiro Produtos Alimentícios, Alexandre Augusto Pereira Tavares, solicitado pelo Ministério Público Federal de Santa Catarina, ainda não foi analisado pela justiça. A juíza Gysele Segala da Cruz remeteu os autos do processo para a 1ª Vara Criminal da Justiça Federal, em Florianópolis.

A juíza entendeu que a denúncia aplica-se mais ao artigo 19 da lei 7.492/86, que trata de crime financeiro do que estelionato, previsto no artigo 171 do Código Penal. Com esta interpretação, a magistrada enviou o processo para Florianópolis, devido à especialização da Vara Criminal de Florianópolis, para apurar crimes contra o sistema financeiro. Os autos foram enviados para a capital nesta sexta-feira e, até o fechamento desta página, por volta das 20h40min, não tinha sido julgado ainda.

O ex-administrador é acusado de praticar crime de estelionato em empréstimos com o governo federal (EGFs) no valor de R$ 20 milhões. Na denúncia, o procurador da república Celso Antônio Três afirma que, em 2007 e 2008, Alexandre firmou inúmeros contratos de empréstimos, fazendo incidir garantias sobre idênticos grãos e alienando outros. Além dos EGFs, outras operações bancárias, igualmente lastreadas em dinheiro público da União, tiveram garantia defraudada. Somando-se as operações de juros com subsídio oficial, empréstimos e cédulas de crédito industrial, foram cerca de R$ 20 milhões de dinheiro público.

Acredita-se que Alexandre tenha deixado o país, mas não há registros nos aeroportos desta saída. Ele é acusado ainda de lesar os sócios da Campeiro, fraudar instituições financeiras, os créditos dos produtores, suprimir emprego dos trabalhadores e praticar agiotagem por meio de ‘caixa dois’. Desde que as primeiras especulações sobre a situação da empresa foram divulgadas, o ex-gestor é insistentemente procurado pela redação do Notisul, porém, não retorna os telefonemas.