Quem olha por fora pode até se enganar e achar que se trata apenas de um ônibus abandonado. Há quase um ano, o veículo está estacionado na rua Roberto Victor Rosemberg, no bairro Vila Lenzi, em Jaraguá do Sul.

Mas na medida em que o observador se aproxima da janela, o aroma da comida caseira é sentido e logo percebe-se que o local se trata muito mais que um coletivo.

Ali dentro, a aposentada Helena Mesch prepara o almoço enquanto o seu marido ajusta os detalhes da instalação elétrica.

Humildade e simplicidade. A única ambição do casal é desbravar o mundo e viver uma vida cheia de aventuras. Há nove anos, decidiram abandonar todo o conforto de sua residência para viver em uma casa sobre rodas.

A rotina mudou completamente quando Marcos Mesch se aposentou e decidiu que gostaria viver uma vida diferente.

Na época, eles moravam em Benedito Novo, no Paraná, e ele trabalhava na Marinha. O apoio de suas duas filhas foi essencial para a decisão.

Como se fosse hoje, Marcos relembra aquele momento importante em sua vida e diz que foi direto na conversa.

“Olha, é o seguinte. Vocês já estão grandes, formadas e tem a vida de vocês. Eu e sua mãe não vamos ficar vendo a vida passar”, conta.

Com 54 anos, Helena possui diabetes e problemas no coração. Segundo o casal, eles decidiram aproveitar a vida o quanto ainda podem, sem se preocupar com os problemas diários do dia a dia.

Com a aprovação das filhas e decisão tomada, os dois compraram uma motor home e caíram na estrada.

“Jogamos a moedinha pra cima. Se desse cara íamos para esquerda, se desse coroa íamos para a direita”, relembra Marcos ao contar que o jogo lhe rendeu um destino certeiro: Uruguai.

Durante este período, conheceram a América do Sul de ponta a ponta e fizeram amizades de todos os cantos do país. Com um roteiro turístico em mãos, Helena e Marcos se preparavam para viajar para o Alasca quando um telefonema mudou todos os planos do casal.

“Sua mãe está doente. Precisa voltar”, dizia o chamado a Marcos.

“Somos tachados de loucos”

Marcos revela que quando voltou para Jaraguá do Sul sua família pediu para que ele ficasse. “Meu irmão me chamou para trabalhar com ele. Só que eu não quero emprego fixo. Não gosto dessa vida”, explica.

Diante da proposta, ele estacionou sua motor home há um ano em frente a casa de sua sobrinha, mas com a condição de ficar apenas dois anos na cidade. Atualmente Mesch trabalha com eletricista autônomo.

Embora tenha a aprovação de suas filhas, os parentes não aprovam o estilo de vida adotado pelo casal.

“Somos tachados de loucos. Mas, o que é ser louco hoje em dia? Acredito que vivemos mais que 60% da população”, reflete.

Ônibus adaptado

Com autonomia completa e bem adaptado, o casal pensou em toda uma estrutura adequada para manter o conforto e a estabilidade do motor home.

“Colocamos placas solares que carregam baterias de 360 amperes para sustentar a geladeira e a televisão”, explica.

Quando chega o verão, eles sabem que terão que driblar as fortes temperaturas. Antevendo os problemas, foi colocado um isolamento térmico ao redor do ônibus.

E engana-se quem pensa que a relíquia é o cenário somente para moradia. Além disso, o veículo é uma espécie de fonte de renda.

“Sempre quando tem um evento na região, a gente estaciona o ônibus e oferecemos lanches para o pessoal”, revela.

Com o pé na estrada, as cenas dignas de filme montam um enredo inusitado na vida do casal. Durante essas aventuras, o clímax em uma das viagens aconteceu quando estavam indo para a Parada Gay, em Navegantes, o ônibus pegou fogo e ficaram atolados em uma estrada de areia.

Situação que para Helena é lembrada com bom humor. “Tinha chovido muito no dia anterior. A terra cedeu e a parte do veículo ficou para frente”, relembra.

O objetivo da família agora é juntar dinheiro para reformar o veículo. “ Ele está um pouco estragado. Depois de tantas aventuras o para-choque quebrou. Temos que fazer muita manutenção”, salienta.