Um homem em uma cadeira de rodas trafega ofegante pela Avenida Paulista. Em seu colo, uma bolsa na qual leva lanches que recebeu em um restaurante localizado metros atrás, na mesma via.

Passam das oito da noite da sexta-feira (14). “Estou desde meio-dia sem comer nada, meu filho. É muita correria, só dá tempo para tomar água”, diz Luciano Oliveira, de 44 anos. Ele pausa o percurso para pegar fôlego. Logo volta a seguir viagem.

O destino é um edifício na Paulista. Ali, manda uma mensagem informando que chegou. A dona do pedido, uma jovem chamada Natasha, não se surpreende ao ver que o entregador é cadeirante. “Ele já havia me avisado sobre isso pelo aplicativo, assim que pegou o pedido”, justifica a moça.

Oliveira explica que, logo que pega um pedido, avisa que o entregará em uma cadeira de rodas. “É porque geralmente tem cliente que cancela por causa disso”, diz.

O entregador conta que muitos não querem esperar o tempo que ele levará para chegar. “Acham que eu vou levar a comida de camelo”, ironiza. Ele avalia que costuma demorar, em algumas situações, o dobro de tempo de um entregador em uma bicicleta. “Mas tem muita gente que não se importa com isso.”

Para Natasha, o fato de ele ser cadeirante não foi um problema. “Achei incrível. Isso é muito legal”, diz a jovem. Ela acredita que a função de entregador é uma forma de Luciano conseguir um emprego que se adapte à sua condição.

No entanto, nem sempre a função se mostra tão “adaptada”. Oliveira conta que enfrenta dificuldades em razão dos obstáculos, ladeiras e calçadas com buracos. Os dias chuvosos também são difíceis para ele. O trabalhador afirma que há pouca acessibilidade nas vias. Por muitas vezes, precisa da ajuda de outras pessoas para que possa chegar ao seu destino.

Antes de entregar comidas por meio de aplicativos, ele ficou desempregado por cerca de um ano. Enviou currículos a diferentes empresas, mas não conseguiu nada. A história dele retrata uma situação da economia brasileira em tempos atuais: a recuperação do mercado de trabalho tem se dado, em grande parte, à custa de serviço mais precário.

As entregas

A cadeira de rodas passou a fazer parte da vida de Oliveira há dois anos. Ele teve poliomielite na infância, que causou graves problemas de locomoção ao longo da vida. O entregador costumava ter dificuldades para caminhar e os problemas atingiam mais a perna direita.