A queda abrupta das cotações do petróleo no mercado internacional, e a ameaça de uma nova recessão global, levaram o pânico, nesta segunda-feira (9/3), às bolsas de valores de todo o mundo, que caíram mais de 7%. No Brasil, o desespero foi ainda maior e o Ibovespa, principal índice de lucratividade da Bolsa de Valores de São Paulo (B3), despencou 12,17%, recuando aos 86.067 pontos. Segundo levantamento feito por Einar Rivero, da empresa de informações financeiras Economatica, a B3 perdeu mais de R$ 1 trilhão em valor de mercado em 2020, quase R$ 432 bilhões somente no pregão desta segunda-feira (9/3).

 
O tombo só não foi maior porque, às 10h35, quando o Ibovespa caía mais de 10%, foi acionado o circuit breaker, mecanismo que interrompe as negociações por 30 minutos. O instrumento foi usado pela última vez no chamado Joesley Day, em 18 de maio de 2017, após a divulgação de conversa entre o presidente da JBS, Joesley Batista, e o então presidente, Michel Temer. Ainda assim, a queda de mais de 12% foi a maior desde setembro de 1998, de acordo com a Economatica. O dólar subiu 2,01% e fechou a R$ 4,73, novo recorde nominal.

O dia foi tão estressante para os mercados que até mesmo o pregão da Bolsa de Nova York teve de ser interrompido. Mesmo assim, os índices norte-americanos fecharam em queda: Dow Jones (7,79%); S&P 500 (7,60%) e Nasdaq (7,29%). Na Europa e na Ásia, as bolsas também caíram com força. Só houve alta no S&P 500 VIX, o chamado “índice do medo”, na Bolsa de Chicago, que saltou quase 30%.

Além da ampliação da epidemia do coronavírus, o que motivou o derretimento de ativos por todo o planeta foi a guerra do petróleo entre Rússia e Arábia Saudita. Com a queda global do consumo de combustíveis por paradas industriais e menor atividade econômica, o barril de petróleo despencou. O tipo Brent, que estava em US$ 60 quando a epidemia começou, em janeiro, ontem fechou em US$ 33.

Perda

Para equilibrar os preços, a Arábia Saudita, maior produtor do mundo, tentou fazer um acordo com países produtores para reduzir a produção. A Rússia, contudo, negou-se a diminuir o volume. Em resposta, os sauditas decidiram aumentar a produção e derrubaram ainda mais as cotações. Não à toa, os papéis que mais caíram na B3, ontem, foram os da Petrobras. As ações ordinárias da petroleira recuaram 29,68% e os preferenciais, 29,70%. Somente no pregão de ontem, a estatal perdeu R$ 91 bilhões em valor de mercado. Desde o início do ano, a desvalorização é de R$ 191 bilhões, segundo a Economatica.

O economista e analista político Carlo Barbieri disse que a guerra do petróleo é extremamente negativa para as bolsas mundiais e para as grandes companhias petrolíferas. “Para a Petrobras é ruim, porque a extração do petróleo no Brasil passou a ser mais cara do que o preço do barril. Mas a cotação média deve subir em breve. Essa guerra é para Arábia dizer que ela é que comanda o mercado”, afirmou. Segundo ele, no entanto, o impacto pode ser positivo para a retomada da economia no Brasil. “A queda do valor do petróleo pode ajudar a equacionar o preço dos combustíveis e do transporte em geral”, disse.

Para Pedro Galdi, analista de investimento Mirae Asset corretora, “a bolsa brasileira sentiu mais o impacto da crise do coronavírus e, agora, do petróleo, porque o país está em um momento político conturbado, a economia não cresce, as reformas estão acavaladas”. Segundo ele, contudo, há um exagero. “Há espaço para cair mais, porque a China controlou os casos, mas o coronavírus se espalhou no resto do mundo. No Brasil, nem chegou o efeito carnaval. Mas é uma gripe, uma doença que mata menos do que dengue. Não é para pânico”, opinou.

Chacoalhada

O analista Davi Lelis, da Valor Investimentos, destacou que é importante avaliar, não só o preço de mercado dos ativos, mas o valor das empresas. “A chacoalhada do mercado foi efeito do fim do acordo sobre o petróleo, mas o importante é que não houve destruição de valor real das empresas. Quem está negociando por especulação vende; aquele que compra a empresa que está por trás dos papéis não deve se desesperar, apesar de o índice do medo, o VIX, estar em alta. Talvez seja o momento até de comprar ativos que estão baratos”, assinalou.

Álvaro Villa, assessor de investimentos em renda variável na Messem Investimentos, ressaltou que grande parte do movimento é aversão ao risco por conta das incertezas. “Ainda não se sabe o impacto real do coronavírus. Por enquanto, no Brasil, só se sabe dos que voltaram de viagem. Mas esses passageiros pegaram Uber, e o motorista não tem condições de parar de trabalhar, de fazer quarentena. Isso vai se alastrar muito ainda no país”, estimou. O efeito, segundo ele, é que todo mundo, sobretudo os investidores, ficam na defensiva, aguardando a incerteza passar e fugindo para ativos mais seguros.

Para Alexandre Monteiro, sócio da startup MelhorCambio.com, a segurança está em dólar e até mesmo no ouro, porém, o momento pode ser de aproveitar a queda nos preços de ativos. “Hoje (ontem) é dia de comprar barato. Mas isso não é para qualquer investidor. Muita gente se desespera. O fato é que o período é de muita incerteza. Talvez seja melhor esperar para ver o próximo pregão”, completou.