É dia 22 de dezembro e a engenheira Beatrice Conceição está com um sorriso no rosto e com uma grande cesta de balas na mão, que distribui para as crianças moradoras da Comunidade do Solar do Unhão, no centro de Salvador (BA). Aos 25 anos, ela é voluntária no projeto “Papai Noel da Desordem” desde 2012. O projeto, idealizado pelos grafiteiros do MUSAS – Museu Street Arte Salvador – distribui presentes, comida, cultura e afeto em comunidades soteropolitanas há 12 anos no período do Natal.

Ela conheceu os idealizadores – famosos no grafitti soteropolitano como Prisk, Júlio e Bigode – em uma obra de construção civil em que trabalharam juntos. “Eles me contaram que um dos idealizadores, Prisk, teve uma infância pobre e nunca tinha recebido presente de Natal. Então há 12 anos ele decidiu evitar que algumas centenas de crianças não ficassem sem presente, já que é esse o significado que deram para o Natal. Eu achei aquilo tão bonito, porque eu também não tive natal na infância”, conta.

Conhecer esse projeto revolucionou a minha vida.

Beatrice faz questão de não ser colocada como uma mulher caridosa. “Essas crianças não são carentes, elas nos dão muito mais do que recebem – afeto, gratidão, carinho”. Ela chama atenção para o fato de estar junto de um coletivo em que muita gente trabalha nos bastidores. “São as pessoas invisíveis, que não aparecem muito, mas sem as quais seria impossível fazer o que fazemos nesse período do ano.”

Ela diz que as comunidades que recebem o coletivo – eles já chegaram a visitar mais de 10 em um só ano – abraçam o projeto e trabalham juntos para que ele aconteça. “Principalmente as mulheres, as mães das crianças. Elas sempre trabalham muito para que a festa aconteça, fazem as comidas, organizam os presentes. Tenho certeza que se qualquer ano por acaso deixássemos de vir, a comunidade faria a festinha das crianças do mesmo jeito. Eles certamente não precisam de nós”, conta.

Esse ano as doações diminuíram muito, parece que as pessoas estão menos solidárias.

Ela conta que o trabalho é gratificante, mas que não alcançar certos objetivos pode frustrar. “Uma menina, por exemplo, nos pediu uma boneca negra. Só que bonecas negras são raras e caras, e a gente não pôde comprar esse ano”, desabafa. “Uma vez, em uma comunidade, as crianças não ligaram pros presentes. Perguntei a uma delas o que queria ganhar, e ela respondeu que só queria cachorro-quente porque na casa dela não tinha nada pra comer naquele dia. Dói.”

Ela conta que as doações em 2018 diminuíram bastante em relação aos outros anos, o que dá a impressão de que as pessoas estão menos solidárias. “Não sei o que é, mas certamente o cenário político influencia: as pessoas têm medo do que vem pela frente, e tem muita gente que ainda acha que qualquer trabalho social é coisa de ‘comunista’, por exemplo”, opina.

O Papai Noel da desordem já é uma festa da comunidade.

Além de entregar presentes, o grupo arrecada alimentos, roupas, presentes e quantias em dinheiro. A cada 2 anos, o “Papai Noel Desordeiro” dá lugar à “Mamãe Noel Dezordeira”, como manifestação da busca pela igualdade em cada detalhe no coletivo. “As mulheres trabalham muito, e quase nunca aparecem. Achamos que ter uma Mamãe Noel também é bacana por causa da representatividade. Pelo mesmo motivo, nosso os Papais e Mamães Noel geralmente são negros.”