#Pracegover Na foto, panela sobre um fogão à lenha aceso
Foto: Reprodução

O gás de cozinha sofreu, novamente, reajuste no valor. O preço médio de GLP, conforme a Petrobrás, teve aumento de 5,9% nas distribuidoras. Ou seja, o produto está cada vez mais se tornando inacessível para muitas famílias brasileiras. Com isso, muitas delas estão se vendo obrigadas a usar o álcool etílico para cozinhar, tornando o processo extremamente perigoso, com risco de acidentes com queimaduras.

Uma pesquisa realizada por movimentos sociais do Rio Grande do Norte, por exemplo, com dados colhidos entre novembro de 2020 e janeiro de 2021 com mais de três mil famílias que vivem em situação precária, identificou que a pandemia ressaltou a diferença social existente, mostrando aumento no uso de métodos alternativos ao gás de cozinha.

“Dentro das ocupações ainda são usadas latinhas com álcool e gasolina e com a liberação do álcool devido à pandemia, esse número aumentou em 45%. Um botijão de gás está saindo, em média, R$ 90,00, valor altíssimo para as famílias que vivem em vulnerabilidade, ou seja, compram álcool por ser mais barato ou usam os que recebem dos kits distribuídos para higienização contra covid-19”, explica Mara Jovanka, presidente da Unegro.

Ela diz que foram identificados diversos acidentes pelo uso de álcool para cozinhar, inclusive, que levaram famílias inteiras ao hospital por queimaduras.

“A pesquisa nos mostrou que a liberação da venda de álcool 70% e, consequentemente, maior uso pelas famílias, causou aumento nos acidentes domésticos. Mesmo que o estado tenha um centro de tratamento de queimaduras de referência, como é o do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, temos que pensar em tudo isso como uma questão de saúde pública. As queimaduras deixam marcas para toda vida”, ressalta Jovanka.

Segundo a presidente da regional da SBQ em São Paulo, Elaine Tacla, é notório o aumento de queimaduras devido ao alto preço do gás de cozinha. “As vítimas de queimaduras utilizam, principalmente, o etanol para cozinhar, que é uma forma de apresentação do álcool, ainda mais barata. O preço alto do gás de cozinha obriga a procurar a forma mais perigosa, mas é o que está a seu alcance. Em São Paulo, quanto mais caro fica o gás, mais vítimas de queimaduras por este processo ocorrem”, esclarece a presidente.

Dentre os agentes causais das queimaduras, o álcool é o mais comum no Brasil. As queimaduras por álcool também foram associadas a números maiores de internações em UTI e óbitos. De acordo com levantamento realizado pela Sociedade Brasileira de Queimaduras (SBQ), de 28 de março até 30 de novembro de 2020, 35,5% dos entrevistados se queimaram ao usarem o álcool 70% para cozinhar.

CHURRASQUEIRA COM ÁLCOOL – O estudo feito pela SBQ também mostrou que 11% dos entrevistados se queimou ao acender churrasqueira com álcool etílico. Inclusive, esse é um costume de muitos brasileiros, já que o produto queima rápido. O risco, no entanto, é exatamente por isso: as chamas sobem rapidamente e podem queimar mãos, braços e rosto.

O médico Ivan Ribeiro Júnior conta que foi fazer um churrasco de costela no chão e um colega resolveu acender a madeira com etanol. “Ele jogou um pouco do etanol no lugar do churrasco e deixou o galão aberto. Foi busca um potinho menor para jogar o álcool com mais facilidade e na hora que encostei no galão, ele explodiu, atingindo eu e meu amigo”, comenta. Para se livrar das chamas, os dois pularam na piscina.

O médico precisou fazer tratamento no centro de tratamento de queimaduras no hospital de Brasília e destaca que não compensa o ganho de tempo para acender o fogo com esse tipo de álcool, pois o risco de acidente é muito grande.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que as queimaduras sejam responsáveis por aproximadamente 180 mil mortes por ano, sendo a maioria localizada em países de baixa e média renda. Além disso, mesmo quando não são fatais, são associadas à hospitalização prolongada, deficiências, trauma emocional e estigma social.

No Brasil, ocorre um milhão de incidentes por queimaduras anualmente. Desses, 100 mil buscam atendimento hospitalar, 2,5 mil vão a óbito em decorrência de suas lesões direta ou indiretamente. Por isso, a SBQ sempre levanta a bandeira de que todo cuidado é pouco e que a prevenção é a vacina.