Tatiana Dornelles
Tubarão

O ex-administrador da Campeiro Produtos Alimentícios, Alexandre Augusto Pereira Tavares, foi denunciado ontem sob a acusação de praticar crime de estelionato em empréstimos com o governo federal (EGFs) no valor de R$ 20 milhões. Por isso, o Ministério Público Federal de Santa Catarina ingressou com pedido de prisão preventiva contra o ex-administrador da empresa.

“Apresentamos hoje (ontem) a denúncia e pedimos a prisão preventiva, que está nas mãos da doutora (juíza) Gysele Segala da Cruz. Alexandre é acusado de estelionato contra a fazenda pública por firmar diversos empréstimos com o governo federal para garantir que houvesse a compra da safra agrícola. Entretanto, os grãos não existiam”, explica o procurador da república, Celso Três.

Na denúncia, Três afirma que em 2007 e 2008 Alexandre firmou inúmeros contratos de empréstimos, fazendo incidir garantias sobre idênticos grãos e alienando outros. Além dos EGFs, outras operações bancárias, igualmente lastreadas em dinheiro público da União, tiveram garantia defraudada. Somando-se as operações de juros com subsídio oficial, empréstimos e cédulas de crédito industrial, foram cerca de R$ 20 milhões de dinheiro público.

Segundo o procurador, Alexandre está nos Estados Unidos e saiu do país clandestinamente. “A Polícia Federal não constatou a passagem de Alexandre pelos aeroportos. Ele pode ter saído do Brasil através do Paraguai ou Uruguai”, analisa Três.

Alexandre ainda é acusado de lesar os sócios da Campeiro, fraudar instituições financeiras, os créditos dos produtores, suprimir emprego dos trabalhadores e praticar agiotagem por meio de ‘caixa dois’. Os pactos seriam firmados em nome da Campeiro para disfarçar a agiotagem da Maxicred, ‘factoring’ de sua titularidade. Na próxima semana, o procurador entrará com pedido de sequestro de bens de Alexandre e terceiros. O crime de estelionato está previsto no artigo 171 do Código Penal. Se for condenado, Alexandre pode pegar dez anos de prisão.
Desde que as primeiras especulações sobre a situação da empresa foram divulgadas, Alexandre é insistentemente procurado pela redação do Notisul, porém, nenhuma vez retornou as ligações.

Funcionários começam
a receber hoje

Os 130 funcionários demitidos da empresa Arroz Campeiro, em Tubarão, começam hoje a ter os seus direitos garantidos. Eles passam a receber o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e a multa, além de poderem pegar os documentos necessários para dar entrada no seguro-desemprego.

“Os trabalhadores receberão o FGTS e a multa a partir de amanhã (hoje). Acredito que em três dias todos sejam homologados, pois são muitos funcionários. Os produtos em estoque na empresa estão sendo vendidos judicialmente para efetuar os pagamentos”, relata o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fumo e Alimentação, Vilmar Antônio de Faveri.
O presidente reforça que o sindicato atua para defender os trabalhadores. “A diretoria está à disposição e buscamos agir o mais rápido possível”.

Entenda o caso
• Em fevereiro, o governo do Paraná anunciou a instalação da Campeiro na região metropolitana de Curitiba. A empresa iria transferir a fábrica de Tubarão para o estado vizinho e investiria US$ 50 milhões.
• A direção da empresa negou a transferência. Há 15 dias, os empregados foram dispensados temporariamente e segunda-feira as demissões foram confirmadas.
• O ex-proprietário da empresa, Max Nunes, garante que vendeu a Campeiro com uma dívida de R$ 7 milhões.
• O grupo A. Nunes vendeu a Campeiro por R$ 8,2 milhões – R$ 5,2 milhões para Max e R$ 3 milhões para Antônio Cordeiro (um dos sócios). Devido a uma cláusula do contrato de venda, se houvesse alguma questão judicial, o valor devido seria depositado por Alexandre Augusto Pereira Tavares, ex-administrador, em juízo, o que não ocorreu e o valor deixou de ser pago.

• Há cerca de dois anos, o ex-administrador ofereceu a empresa de volta. Em auditoria feita a pedido de Max, constatou-se que a dívida passou de R$ 7 milhões para R$ 20 milhões em um ano.
• Max solicitou o bloqueio da conta onde era feito o depósito do valor devido ao grupo A. Nunes, porém, o pedido foi negado em primeira instância. O empresário recorreu e, há um mês, o Tribunal de Justiça de Santa Catarina bloqueou a conta. Dos R$ 2,8 milhões, havia apenas R$ 813,00.
• O procurador da república em Tubarão, Celso Antônio Três, investiga algumas atividades da empresa e o Ministério Público Federal deve ajuizar duas ações, incluindo crimes contra o sistema financeiro.