Zahyra Mattar
Tubarão

A acessibilidade para deficientes visuais ou com problemas de locomoção não é exclusividade dos grandes centros urbanos. Ao contrário do que ocorre nos municípios menores, estas cidades, hoje, dispõem de mecanismos muito mais eficientes para atender este tipo de população. Há algumas semanas, por exemplo, a prefeitura de Tubarão começou a arrumar as calçadas paralelas ao Rio Tubarão.

Após o pedido de alguns cidadãos com deficiência visual ou que usam cadeiras de rodas, o projeto foi readequado. Até então, eles haviam sido esquecidos. “O (projeto) original não previa a questão da acessibilidade. Na verdade, este ponto é deficiente em vários projetos”, admite o secretário de planejamento da prefeitura, Edvan Nunes.

Por um lado, é fácil entender este “esquecimento”. É difícil ver um cadeirante ou um deficiente visual pelas ruas. Com vergonha, a maioria esconde-se em casa. “Nada de desculpas. Acredito que nós deveríamos dar mais oportunidades. Quem sabe um maior envolvimento da secretaria de obras, planejamento e assistência social não mude tudo isso”, sugere o secretário.

O fato é que aquelas poucas pessoas que reivindicaram seu direito de acessibilidade estavam corretas. O comércio também precisa ficar sensível a este cliente. A cidade precisa estar preparada para o futuro. E o futuro não tem distinções de que anda sobre as próprias pernas, sobre uma cadeira de rodas ou utiliza uma bengala para “enxergar” o vem à frente.

Um exemplo que gera exemplos

Há oito anos, após um grave acidente de carro, o fotógrafo José Ferreira Diogo, 55 anos, começou a perder a visão. Hoje, ele tem apenas 5% de visibilidade no olho direito. É o suficiente para ver vultos e saber quando é dia ou noite. Há sete meses, Diogo resolveu mudar-se para Tubarão. Já conhecia a cidade e viu aqui a oportunidade de lutar por o seu sonho: formar-se em física. Sozinho, ele mora em uma pensão no bairro Passagem.

Todos os dias, bem cedinho, ele pega a bengala e vai para a beira-rio fazer o seu exercício matinal. O problema é as “pedras” no meio do caminho. “O pior trecho é o da ponte (Dilney Chaves Cabral). Bem na cabeceira, tem um buraco onde sempre caio. Depois, tem uma casinha onde já bati inúmeras vezes. Em seguida, tem uma árvore, onde também já dei muita cabeçada. Não passo mais ali”, relata.

Como não tem segurança para andar por muitas outras ruas, o trajeto de Diogo restringe-se à área central da cidade. Andar à noite, nem pensar. “É muito orelhão em lugar errado, as calçadas são irregulares e o trânsito é perigoso. Comprar algo também é difícil. Para o comércio, é como se não existíssemos”, revela.
Apesar de tantas dificuldades, Diogo não desiste e garante não ter vergonha do seu problema. “Pelo menos posso andar, falar com as pessoas. Não tenho vergonha de pedir ajuda para atravessar a rua ou escolher um produto no mercado. Só receio de ser um peso para os outros, tomar o tempo das pessoas. Isso sim que me deixa mal”, admite.