Zahyra Mattar e
Carolina Carradore

Tubarão

O ano de 1939 marcou a história de Tubarão. O artista plástico Willy Zumblick realizava a sua primeira exposição individual, o Hospital Nossa Senhora da Conceição teve uma ala destruída por um incêndio, e a terra tremeu. Tremeu? Isso mesmo, o segundo terremoto registrado na história do país ocorreu bem aqui, na Cidade Azul, há 71 anos.

“Achei que iria morrer”, lembra a professora aposentada Lindomar Claudino Gomes, 86 anos. A tubaronense criou 12 filhos. Vivenciou as principais mudanças da cidade, inclusive o dia em que viu o chão da casa em que vivia com os pais, no bairro Madre, sacudir.

Lindomar estava deitada após um dia de trabalho árduo na máquina de costura quando escutou o barulho das panelas caírem no chão. “Eu tinha uns 15 anos e lembro como se fosse hoje. Levantei assustada e vi mamãe correr da roça aos berros: ‘Euzébio (pai de Lindomar), a terra tá tremendo!’. Papai ficou paralisado”, detalha a professora.

O tremor durou segundos, mas foi o suficiente para deixar a população apavorada. “Os vizinhos e parentes chegaram assustados em nossa casa contando que os barcos subiram junto com ondas altas que surgiram no Rio Tubarão”, relata Lindomar.

O Brasil não está livre dos terremotos

O terremoto que destruiu mais de 75% das edificações do Haiti terça-feira passada, e matou milhares de pessoas, foi uma tragédia anunciada há mais de cinco anos, a última vez em 2008, em um congresso internacional na vizinha República Dominicana. A capital do país, Porto príncipe, está bem próxima ao ponto de encontro entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Norte.

Imensas lages rochosas em discreto, mas permanente deslocamento. E é este movimento das placas terrestres que causam, na maioria das vezes, os terremotos. Em poucas ocasiões, estes fenômenos são causados por ação do homem. “Na verdade, os terremotos ocorrem todos os dias em nosso planeta”, explica o geólogo da Fatma de Tubarão, Fernando Remor Guedes.

O fenômeno é tão comum que os centros de monitoramento pelo mundo registram cerca de três milhões deles por ano, o que soma oito mil por dia ou um a cada 11 segundos. No Brasil, os terremotos são tão raros quanto a neve. Ocorrem, mas de forma isolada. O nordeste é a região mais propensa a registros.

Ainda assim, o país não está a salvo de uma tragédia. A diferença para outros países onde o fenômeno de maior intensidade é mais comum, casos de Japão e EUA, é que aqui o terremoto é sentido com menor intensidade, mesmo quando ocorre em escala maior.

O terremoto registrado em Tubarão em 1939, explica o geólogo da Fatma, é uma prova disso. Ainda que tenha sido de 5,5 pontos na escala Richter, ou seja, de grande intensidade, o fenômeno chegou até a ser sentido, mas não gerou nenhum dano porque se deu a milhares de quilômetros no subsolo.

“Ninguém sabia o
que tinha ocorrido”

O terremoto de 5,5 na escala Richter que ocorreu em Tubarão em 1939 também atingiu cidades vizinhas. No auge dos seus 93 anos, a aposentada Vitória Regina Borges ainda recorda do dia em que as árvores tremeram no sítio onde morava com a família, no interior de Cocal do Sul. “Meus pais estavam na roça naquele momento. De repente, a casa começou a tremer, mas foi tudo muito rápido. Ninguém sabia o que era aquilo. Tempos depois, fomos saber que tinha sido um terremoto”, narra.

Vitória mora há mais de 60 anos em Tubarão. A quantidade de netos, bisnetos e tataranetos (entre eles a pequena Valentina Gomes, no colo da matriarca, na foto), ela não consegue calcular com exatidão, mas o dia em que Cocal do Sul tremeu jamais esquecerá. “É algo que jamais esquecerei. Ver esse terremoto no estrangeiro (em referência à tragédia no Haiti) me deixa muito triste”, solidariza-se.