Priscila Alano
Jaguaruna

Duas das três pessoas presas em flagrante por tentativa de aborto quinta-feira à tarde, em Jaguaruna, continuam presos. A aborteira, de 25 anos, e o suposto pai da criança, de 50, foram encaminhados ao Presídio Regional de Tubarão. Já a futura mãe, no quarto mês de gestação, foi liberada após pagar fiança.

A polícia chegou a tempo e evitou que ela interrompesse a gravidez. A jovem foi submetida a exame de corpo delito e de gravidez nesta sexta-feira, e responderá pelo crime em liberdade.

Após receberem a denúncia de que a mulher presa realizava abortos em casa, policiais civis realizaram campana e flagraram a entrada do casal na residência. De acordo com o delegado Adriano Almeida, a prisão ocorreu no momento de uma intervenção para provocar a morte do feto. “A mulher introduzia uma sonda na genitália das grávidas para romper o útero. Assim, o líquido vazava, o que dava a impressão de ser um aborto natural”, relata o delegado.

A aborteira cobrava R$ 1 mil para cada ‘consulta’ e não tinha passagens pela polícia. Conforme os depoimentos coletados, o suposto pai da criança foi quem levou a gestante para fazer a interrupção na gravidez.

No Brasil, o aborto é considerado crime contra a vida. O código penal prevê de um a dez anos de detenção. Exceto em duas situações: estupro e risco de vida materno. Dados apontam que todos os anos ocorrem aproximadamente 1,25 milhão de abortos no país. Mais da metade dos procedimentos é feita em condições de risco e muitas mães têm complicações e morrem.

Estatísticas

Uma pesquisa da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) mostrou que 72,7% dos brasileiros são contra o aborto. Outros países que mostraram a maioria de seus habitantes contrários à ideia foram: Nicarágua (81,6%), México (70,8%) e Chile (66,2%). No Brasil, a prática só não é crime em casos de gravidez por estupro e risco de morte para a mãe. No Chile e na Nicarágua, é proibido em todas as suas formas. No México, só é liberado parcialmente desde 2007 e apenas na capital.

“Uma culpa que me persegue”

Aos 44 anos, Maria (nome fictício) tinha um casamento tranquilo ao lado do marido e dos dois filhos. Ao saber que estava grávida pela terceira vez, a dona de casa não pensou duas vezes e interrompeu a gravidez, pois não estava em seus planos ter mais uma criança depois dos 40 anos.

“Meu marido foi completamente contra, ficou sem falar comigo, tentou me convencer do contrário, mas não adiantou”, lembra. Depois de ingerir medicamentos abortivos, a mãe teve sérias complicações de saúde e o útero precisou ser retirado, após uma infecção gravíssima. Hoje, aos 60 anos, é tomada por um sentimento de culpa sem tamanho.

“Meu esposo morreu três anos depois de acidente de trânsito. Tenho meus dois filhos, mas sei que poderia ter mais um ao meu lado. O arrependimento é tão grande que faço tratamento contra a depressão até hoje”, conta.

Não ao aborto, sim à vida

Carolina Carradore
Tubarão

A prisão de três pessoas envolvidas no crime de aborto em Jaguaruna levanta mais uma vez a polêmica em relação ao assunto. Em nível nacional, o tema do momento é a suspeita de envolvimento do goleiro Bruno, do Flamengo, no desaparecimento da ex-amante, Eliza Samudio. Em outubro do ano passado, Eliza registrou queixa contra o goleiro alegando que ele a obrigou a tomar remédios abortivos. A gravidez não foi interrompida e Eliza, que continua desaparecida, lutava na justiça pelo reconhecimento da paternidade do filho de quatro meses.

Fatos como este movimentam entidades que lutam a favor da vida. Para a doutrina espírita, a vida inicia logo na concepção e o aborto vai contra as leis de Deus. “O Senhor dá oportunidade para o espírito evoluir na Terra. O aborto rompe esse direito do espírito crescer”, afirma a responsável pelo departamento de doutrina do Centro Espírita Alan Kardec, Jane Dal Bó Fachetti. Segundo ela, a mãe entra em um acordo no plano espiritual com o filho que está para chegar. “Se ela optar em não ter mais esse filho, pode estar prejudicando também seu resgate espiritual. Isso sem falar da crise de consciência que pode lhe trazer sérios problemas de depressão”, ressalta.

Os evangélicos também levantam a bandeira contra o aborto. Para o teólogo Carlos Lopes, pastor da Assembleia de Deus Independente (ADI), em Tubarão, a interrupção da gravidez é um ato criminoso. “É uma desvalorização da vida. Quem teve uma aventura inconsequente não pode descontar depois na vida de uma criança”, diz. Os evangélicos também defendem a tese de que a vida inicia após a fecundação. O pastor cita o salmo 139 da Bíblia para justificar o fato. Ele também compara a condenação ao crime de pedofilia. “Todos condenam a pedofilia. O aborto também é um crime contra um ser que não pode se defender”, justifica.