Preocupados com o meio ambiente e a saúde, mercado vegano e vegetariano conquista novos adeptos na região.

Lysiê Santos
Imbituba

Chega a hora do almoço. Aquele momento curto para muitos durante a semana, quando no intervalo do trabalho precisa encontrar algo prático para se alimentar. Enlatados? Transgênicos? Fastfood? Uma churrascaria? As opções são vastas. Alimentamo-nos rapidamente. Tem aqueles ainda que estão tão conectados, que não conseguem tirar o foco das redes sociais durante a refeição. Essa tem sido a realidade de grande parte da população brasileira. No entanto, há também um crescimento expressivo de pessoas que começam a repensar os seus hábitos. A preocupação com a saúde e o meio ambiente tem encontrado adeptos a ter cuidados com a alimentação. Fugir dos conservantes, transgênicos e uma série de substâncias utilizadas em alimentos industrializados, e excluir os de origem animal são opções que se tornam cada vez mais comum.

Muitos dos que aderem à dieta ética atualmente rejeitam a carne por motivos ambientais. A pecuária é o maior emissor de metano, um dos gases mais poluidores do efeito estufa que esquenta a temperatura do planeta, além de ser um poluente 23 vezes mais duradouro na atmosfera do que o dióxido de carbono. O impacto da criação e do abate de animais sobre o ambiente e a saúde pública também preocupam órgãos como a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

Mercado vegano cresce 40% ao ano no Brasil
Estima-se que no Brasil quase cinco milhões de pessoas já pratiquem o veganismo, um modo de viver resumido pelo não consumo de produtos de origem animal ou testados em animais. Alimentos, roupas, cosméticos, calçados e acessórios, entre outros ítens com estas características. Normalmente, os seus adeptos têm motivações ideológicas e ambientais.

A nutricionista Mariana Pipolo Scarpelli Martin, de Imbituba, é adepta a esse novo conceito e propaga a filosofia em sua pousada ‘Rosa Verde’, na Praia do Rosa, onde apresenta refeições baseadas em plantas. Ela explica que o veganismo, além de aderir a uma dieta baseada somente em plantas, também leva a pessoa a não utilizar nenhum produto cosmético ou de limpeza que seja testado em animais ou contenham algum ingrediente proveniente dos animais, nenhuma roupa ou calçado que contenha peles ou outro produto animal. Também não frequenta locais que exploram de alguma forma a espécie.

O vegano utiliza leguminosas, sementes e castanhas como fontes de proteína, cereais como fontes de carboidratos e as frutas, verduras e legumes completam a dieta com os minerais e outros nutrientes necessários. “O maior benefício de se tornar vegano é em relação aos animais. Nenhum animal precisou sofrer ou ser explorado para a pessoa vegana se alimentar, vestir-se ou se divertir. Além de beneficiá-los, adotar a dieta contribui para redução dos níveis de colesterol e triglicérides, reduz os níveis de açúcar no sangue e otimiza o papel da insulina, além de ajudar na redução e manutenção do peso corporal e prevenir doenças crônicas como o câncer, diabetes e obesidade”, sugere a especialista.

Mudança de hábitos alimentares
A professora de arte e coordenadora do projeto Arte por Toda Parte, em Imbituba, Patrícia Reis de Souza, há 19 anos aderiu ao vegetarianismo. Mãe de quatro filhos nascidos de parto natural, ela é defensora da alimentação e hábitos saudáveis e ensina seus alunos desde a infância a conhecer o ‘poder’ da natureza. “Nessa caminhada percebi que mais importante do que ser radical em um conceito é aprender a ouvir as necessidades reais do nosso corpo. A melhor dieta é a baseada em plantas, preferencialmente cultivada de forma orgânica”, afirma.

Pesquisas revelam que hoje, uma criança de 2 anos já ingeriu todo açúcar que deveria em sua vida toda. A primeira infância é onde o organismo registra toda a memória afetiva por meio do alimento e das condições vivenciadas. É quando se deve priorizar a qualidade, ofertando às crianças toda variedade de frutas, legumes e verduras. “Fazer acontecer o encantamento com as cores da natureza é o caminho mais certeiro para a saúde. Com meus filhos faço diariamente o suco verde, sem adição de água. Abuso da criatividade, muitos doces e mousses coloridos, utilizando frutas e sem adição de açúcar. Com toda informação que temos hoje, os mitos são desfeitos, mostrando que a saúde vem de uma boa alimentação”, garante.

Meio Ambiente
Pecuária cresce no Brasil
O impacto ambiental da pecuária no planeta é cada vez maior. Ao largo dessa efervescência, o consumo de carne cresce aceleradamente no Brasil devido à melhoria na distribuição de renda e à democratização do consumo. Segundo o Ministério da Agricultura, o consumo per capita de bovinos atingiu 37,5 quilos em 2010, 5% a mais do que em 2009 – apesar de uma alta de 38% no preço. Com a melhoria das dietas, a tendência é aumentar o consumo de proteínas. Hoje, quase 70% da área desmatada na Amazônia são usadas como pasto, e boa parte dos 30% restantes é ocupada pela produção de ração. A construção de fazendas aquáticas já eliminou metade dos manguezais da Terra e um terço dos mangues no Brasil. Essa destruição é maior do que a de florestas tropicais. O setor agropecuário consome mais de 90% da água do mundo, e um terço deste volume se destina à irrigação e a cultivos para produzir ração. No Brasil, a cada quilo de camarão pescado, cerca de dez quilos de organismos marinhos são capturados, “acidentalmente”.

No Brasil
A produção de um quilo de carne bovina é responsável por:
– Dez mil metros quadrados de floresta desmatada;
– Consumo de 15 mil litros de água limpa;
– Emissão de CO2 (cerca de 30% de todo o gás carbônico emitido) e gás metano (o maior causador do efeito estufa) na atmosfera;
– Despejo de minerais pesados nos rios e lençóis freáticos, provenientes dos defensivos agrícolas e fertilizantes utilizados;
– Maior consumo de energia elétrica e combustíveis fósseis;
– Despejo de antibióticos, hormônios, analgésicos e outros fármacos por meio da urina.

Vegetarianismo
– Vegetarianismo: não necessariamente estende a decisão de não consumir animais ao uso de cosméticos, vestuários, entre outros. O termo vegetarianismo detém-se somente à dieta podendo ser definido como:
– ovolactovegetariano: consome ovos, leite e derivados, mas não consome nenhum tipo de carne;
– lactovegetariano: consome leite e derivados, mas não consome ovos e carnes;
– ovovegetariano: consome ovos, mas não consome leite e derivados e carnes;
– vegetariano estrito: não consome nenhum alimento proveniente de animais, ovos, leite, carnes e mel.

Diferenças
De acordo com o Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada (Cepa) da Epagri, em um a quatro hectares de terra consegue-se produzir 210 quilos de carne, com isso cerca de 210 famílias seriam alimentadas. Já utilizando-se a mesma porção de terra para produzir grãos e vegetais teríamos oito toneladas de feijão; 23 toneladas de trigo; 35 toneladas de cenoura; 19 toneladas de arroz; 32 toneladas de soja; 44 toneladas de batata; 22 toneladas de maçã…

Foto: Silvia Rodrigues/Divulgação/Notisul