Amanda Menger
Tubarão

Com dados obtidos em pesquisas diversas de 2002 a 2007, o Plano Estadual de Recursos Hídricos de Santa Catarina aponta que a atual qualidade das águas do rio Tubarão o tornam apto apenas para a navegação e harmonia paisagística. Em outras palavras, não é possível garantir a qualidade da água mesmo com o tratamento adequado.
A legislação ambiental prevê cinco classificações, uma especial, e outras quatro, enumeradas de um (a melhor) a quatro (a pior). Pela lei orgânica de Tubarão, as águas do rio enquadram-se na classe 2.

A Resolução 357 de 2005 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) define que as águas dos rios de classe 2 destinam-se: ao abastecimento para consumo humano, após tratamento convencional; à proteção das comunidades aquáticas; à recreação de contato primário, tais como natação, esqui aquático e mergulho; à irrigação de hortaliças, plantas frutíferas e de parques, jardins, campos de esporte e lazer, com os quais o público possa vir a ter contato direto; e à aqüicultura e à atividade de pesca.

Porém, o relatório do Plano de Recursos Hídricos indica que, por qualidade, as águas do rio não poderiam mais ser enquadradas na classe 2. “Segundo a pesquisa, atualmente o rio Tubarão não atingiria nem a classe 4. Ou seja, não há na legislação atual classificação para as águas do nosso rio, de tão poluído que se encontra”, observa o engenheiro civil Francisco Beltrame, especialista em avaliação e perícia ambiental.

Se o rio fosse “reclassificado” suas águas serviriam apenas para compor a paisagem e para navegação. “A atual situação é grave. É resultado de décadas de omissão do poder público e da sociedade. Há duas conseqüências diretas: uma de saúde pública e outra que envolve o tratamento da água, fornecida para consumo”, argumenta Beltrame.

Reflexos na saúde não podem ser mensurados
Não é novidade que a ingestão de água poluída faz mal à saúde. Um pequeno gole serve de ‘veículo’ para várias doença: viroses, verminoses e parasitoses são algumas das ‘oses’ relacionadas ao consumo de água mal tratada. No caso do rio Tubarão ainda há um outro fator que contribui para o surgimento de doenças: a presença de metais pesados na água.

Conforme o relatório de avaliação final da qualidade da água do R-9 (que se refere ao sul catarinense) do Plano Estadual de Recursos Hídricos de Santa Catarina, feito entre 2002 a 2007, algumas destas substâncias estão acima do previsto pela legislação. Caso do ferro, manganês e alumínio. Isto tem impacto direto no tratamento de água, que se torna mais caro.
Paralelamente, se o tratamento é falho – e não se discute aqui o trabalho do Águas de Tubarão, tema este da matéria de amanhã – o reflexo disto para a saúde humana e animal não pode ser mensurado.

“Se o tratamento não é adequado, mesmo utilizando água mineral para o consumo, o cidadão é contaminado por um fruta lavada com água da torneira ou ao tomar banho, por exemplo. Além disso, a presença de materiais pesados pode desencadear problemas neurológicos, câncer e outras doenças graves e irreversíveis”, explica a bioquímica Fabiana Schuelter Trevisol.

Conforme o estado da água, apenas a fervura não é suficiente para torná-la potável. “A fonte precisa ser segura. O controle deve ser rígido. A curto prazo pode-se associar o consumo de água poluída – captada de um poço artesiano, por exemplo – ou mal tratada a doença que causa as parasitoses ou viroses. A longo prazo, porém, não há como mensurar o que pode ocorrer. E justamente por isso não há como prevenir”, afirma Fabiana.

Outro ponto destacado pela bioquímica é o fator cumulativo da poluição no meio ambiente. Quando a água está contaminada, o efeito disso na produção de alimentos também não é mensurado. Numa plantação de arroz que utiliza água diretamente do rio, até que ponto o alimento é seguro para consumo? “Não há estudos sobre este efeito em cima da produção de alimentos, sejam vegetais, grãos ou animais”, analisa Fabiana.