Lily Farias
Tubarão
 
O papa Bento 16 anunciou a sua renúncia. E acendeu uma história da igreja desconhecida pela maioria. Ponciano, em 235; Celestino 5º, em 1294; Gregório 12, em 1415, também não ficaram no cargo até morrer. A partir do próximo dia 28, a vaga ficará aberta. Cardeais de diversas partes do mundo serão candidatos, apenas um deles será o líder máximo da igreja católica. 
 
Para Dom João Francisco Salm, bispo diocesano de Tubarão, a renúncia de Bento 16 foi uma surpresa apenas no momento em que foi anunciada. Já era prevista devido à debilidade que o pontífice apresentava nos últimos meses. “Foi um ato de coragem. Sua mente está perfeita, mas é visível que seu estado de saúde não é mais condizente com seus compromissos. A igreja precisa de alguém com condições físicas e ele está decaindo muito rápido”, avalia o bispo.
 
Para Dom João, a principal marca do pontificado do papa Bento 16 foi a lucidez como escrevia os seus documentos aos fiéis. Ele acredita que as suas mensagens têm conteúdo extenso e saboroso. “João Paulo 2º foi um papa com muito carisma e, quando Bento 16 assumiu, todos esperavam o mesmo. Mas ninguém será igual ao outro. O que eles têm em comum é a humildade e personalidade forte”, pontua Dom João.
 
Para o bispo, a igreja católica mudou após o trabalho de Bento 16. “Foi o papa do ensinamento, insistiu na necessidade de buscar as razões profundas das ações que praticamos”, analisa.
 
Desafio será tornar o evangelho realidade
Nomes de cardeais brasileiros já foram cogitados para assumir o cargo de papa. Porém, segundo Dom João Francisco Salm, bispo da diocese de Tubarão, não passam de especulações. “Imagina você saber quem irá escolher se muitos dos cardeais não se tem ideia de quem são. Para isso, existe o conclave, como uma forma de conhecimento”, explica.
 
Ele acredita que o principal desafio para o novo papa é tornar realidade o evangelho de Jesus Cristo, principalmente em um mundo onde se vive superficialmente. “Não será uma tarefa simples, porque há muito a considerar socialmente falando”, acredita. 
 
Para a Igreja Católica, este é um momento de reflexão, para que se possa ter pensamentos positivos e fazer a escolha certa do novo líder. “É importante que tenhamos esperanças e que coloquemos nas nossas orações bons pensamentos para, quando chegar o dia da escolha, que venha uma papa que ajude a igreja a fazer o que o próprio Jesus quer que ela seja”, enfatiza.
 
No Vaticano, há duas vertentes sociais muito fortes, um lado conservador e outro lado progressista, que provoca tensões políticas. O bispo de Tubarão acredita que o novo papa terá que ter um grande equilíbrio para lidar com essa questão.
 
“Temos que levar em consideração o que fala. Uma coisa é ser de conservadorismo reacionário, outra coisa é conservar o que não pode ser mudado, os conteúdos da fé, por exemplo. Há coisas que são da igreja, não podemos esquecer uma história de dois mil anos”, argumenta.
 
Quem é Bento 16
Joseph Alois Ratzinger, o papa Bento 16, tomou posse no dia 19 de abril de 2005. Nasceu no dia 16 de abril de 1927, em Marktl am Inn, uma pequena vila na Baviera, às margens do rio Inn, na Alemanha. Foi eleito para suceder o papa João Paulo 2º como o 265° papa. Domina pelo menos seis idiomas – alemão, italiano, francês, latim, inglês e castelhano. Possui também conhecimentos em português, grego antigo e o hebraico. É membro de várias academias científicas da Europa e recebeu oito doutorados honoríficos de diferentes universidades, entre elas da Universidade de Navarra. É pianista e tem preferências por Mozart e Bach. Em abril de 2005, foi incluído pela revista Time como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo.
Em comunicado na manhã de segunda-feira, Bento 16, de 85 anos, afirmou que vai deixar a liderança da Igreja Católica Apostólica Romana devido à idade avançada, por “não ter mais forças” para exercer as obrigações do cargo.