Carolina Carradore
Tubarão

Hoje, Dia Nacional de Combate à Homofobia, é mais do que uma simples data comemorativa. É um momento de aprofundar a discussão sobre o cenário discriminatório que homens e mulheres com opções sexuais diferentes convivem no Brasil.

Em Tubarão, a caminhada pelos direitos à diversidade ganha, aos poucos, fortes aliados. Um exemplo é o trabalho desenvolvido pela Associação dos Transgêneros da Amurel (Gata). “Queremos mostrar à sociedade que os transsexuais não estão somente ligados a prostituição. Temos potencial de crescer como qualquer outra pessoa. Podemos e devemos ser inseridos na sociedade”, assinala a presidenta da entidade, a professora Gabriela da Silva.

A Gata atua como agente de prevenção a DST/HIV/Aids e está engajada em outras lutas como a cidadania, o uso do nome social e os direitos humanos. “Não focamos nossas ações somente no município, até porque as conquistas em âmbito nacional refletirão também na nossa cidade, na nossa região”, confere Gabi.

Os membros da associação estão verdadeiramente inseridos nas causas sociais e promovem ações, como distribuição de camisinhas e palestras em eventos da categoria. “Temos certeza que já fizemos muita diferença em Tubarão. Se formos analisar o antes e o depois da instituição, sabemos o quanto temos para comemorar, valoriza a presidenta, que é professora da rede estadual de ensino.

Trabalho e dignidade
Milena Ayron, 24 anos, não se considera um travesti e prefere ser chamada pelo nome social. Natural de Tubarão, apesar de não ser contra profissionais do sexo, preferiu inserir-se no mercado de trabalho formal. Ela é cabeleireira e adora a profissão. Nas horas vagas, faz shows em boates GLS.

Aos 15 anos, contou sua opção sexual à família. O susto passou rápido e hoje a mãe, sua melhor amiga, mora com ela e o companheiro. “Acredito que todos da classe possam lutar a favor da diversidade e conquistar seu espaço na sociedade”, considera Milena.

Tímida e delicada, Juliana Frateli, 21 anos, sonha em fazer uma faculdade. Na carteira de identidade está Emerson Espíndola Vieira, natural de Tubarão. Mas é como Juliana que ela é tratada na casa onde trabalha como doméstica. “Meus patrões me tratam com todo respeito e não ligam para a minha condição sexual”, confirma.

A história de Augusto que virou Ketty
Augusto Vieira, 47 anos, descobriu ainda na infância sua condição sexual. O apoio incondicional da família também veio em seguida. Ketty Lee, como é chamada na cidade onde mora, Laguna, é famosa pela sua arte. Mantém em sua casa um singelo ateliê, onde também ministra aulas de artesanato.

Percorreu um longo caminho até conquistar seu espaço no mercado de trabalho. Sofreu preconceito, passou por situações homofóbicas, mas nunca desistiu. Depois de trabalhar como cozinheira em vários restaurantes de alto nível, resolveu estudar. Terminou o ensino médio e sonha em entrar para faculdade de belas artes.

Casada há 26 anos, concilia as atividades de dona de casa com os trabalhos manuais. Seus quadros estão expostos na parede de casa como um troféu, prova da superação e talento de Ketty. “Sempre gostei de ser do lar, cuidar da casa e trabalhar com o que gosto, o artesanato”, detalha Ketty.

“Luto pela inclusão de travestis nas escolas”
A professora Gabriela da Silva sabe bem o que teve que enfrentar para conquistar seus espaço na sociedade. Sabe também o quanto valeu a pena lutar e orgulha-se em servir de exemplo para muitos travestis e transgêneros de Tubarão. Professora da rede estadual de ensino, Gabriela, que nasceu Gesualdo, quebrou barreiras e abriu caminhos para que outros travestis também pudessem se inserir no setor da educação. “Sei que temos muito que lutar, mas os espaços estão se abrindo, basta querer ter dignidade e saber que meu direito termina quando o do outro começa”, pondera.

Preconceitos também fizeram parte da história de Gabriela. Formada em letras, foi um dos primeiros travestis a estudar em uma universidade em Tubarão. Também foi a primeira e tentar uma cadeira na câmara de vereadores nas eleições de 2008.

Seu sonho é fazer o mestrado e se dedicar ainda mais ao magistério. Gabriela se emociona ao falar da família. A mãe, costureira, criou os sete filhos sozinha. “Aprendi com ela a lutar, ter garra e a ser honesta”, diz orgulhosa.