Amanda Menger
Tubarão

O ano mal começou e as chuvas já causam estragos. Desde o dia 1º, já choveu 271 milímetros em Tubarão. Só no sábado, foram 191 milímetros. A média histórica de janeiro é 143 milímetros, portanto, em um único dia, choveu mais do que o esperado para o mês inteiro, e, em quatro dias, o equivalente a dois meses.

“Sábado foi o segundo dia mais chuvoso da história de Tubarão desde 1939, choveu 191 milímetros. O dia mais chuvoso ainda é 24 de março de 1974, semana da enchente, quando a precipitação foi de 200 milímetros”, revela o engenheiro químico Rafael Marques. Ele tem uma estação meteorológica em sua residência, na Vila Moema, em Tubarão, e desenvolve a pesquisa de mestrado sobre a precipitação na Bacia Hidrográfica do Rio Tubarão.

Em novembro, no dia 21, a precipitação chegou a 103 milímetros e, durante o mês, passou de 315 milímetros. A média para novembro era de 94 milímetros. “A condição atmosférica deste episódio foi a formação de um sistema de baixa pressão, que evoluiu para um ciclone extra tropical sobre o oceano. Em novembro, foi um sistema de alta pressão sobre o oceano, junto com vórtice ciclônico em altitude”, explica Rafael.

Mais uma vez, os tubaronenses escaparam por pouco. “A chuva mais concentrada ficou localizada na parte baixa da bacia hidrográfica do Rio Tubarão, poupando os rios formadores do Tubarão, que não saiu de sua calha”, observa o engenheiro.

Depois de Tubarão, a maior precipitação foi em Jaguaruna, com 255,8 milímetros. A média de janeiro é de 142 milímetros. Em Orleans, choveu 127,8 milímetros, 148,9 em Santa Rosa de Lima e 103,4 em Anitápolis. Até as 20 horas de sábado, a precipitação era de 151,7 em Urussanga e 141,2 em Laguna.

Rio Tubarão fica 4,45 metros acima
A precipitação de 271 milímetros só em Tubarão nos quatro primeiros dias do ano contribuiu para elevar em 4,45 metros o nível do Rio Tubarão. Por volta das 18 horas de sábado, a régua estava próximo à marcação de 4 metros. O ponto máximo foi registrado às 22h30min de sábado. Após às 4 horas de domingo, o nível começou a baixar.

“Ficamos acompanhando a situação, foi muita chuva. Desde sexta-feira, praticamente não parou. Chamamos as equipes da secretaria de desenvolvimento urbano para auxiliar, limpando as bocas-de-lobo que estavam entupidas, a equipe da Defesa Civil do município para ajudar as pessoas a saírem de casa”, relata o ex-vice-prefeito de Tubarão, Ângelo Zabot, o Com.

Em novembro, o nível do rio chegou a 4,8 metros, na madrugada do dia 22. Segundo dados da Defesa Civil do município, a situação começa a ficar crítica quando o rio chega a 5,30 metros. “Chegamos a ficar receosos, porque havia informação de que o vento estava virando para leste e isso dificultaria a vazão do rio, além de atrair mais chuva. Quando chega a 5,30 metros, o rio começa a sair da calha e inunda áreas mais baixas como o bairro Passagem. Desta vez, assim como em novembro, o problema não foi o rio, e sim a quantidade de água. O sistema de drenagem não deu conta”, explica Com.

Desalojados voltam para casa
As fortes chuvas fizeram com que muitas pessoas em Tubarão precisassem sair de suas residências. Algumas tiveram que ser resgatadas de bote pelo Corpo de Bombeiros. As principais áreas afetadas foram Passagem, Área Verde, Vila Padre Itamar, Oficinas, Andrino, Humaitá, Dehon, Monte Castelo e São Cristóvão. Cerca de 75 pessoas foram alojadas na academia Valdir do Karatê, em Oficinas.

“Andei pela cidade e vi que a situação estava feia, fui até a câmara de vereadores, onde estavam realizando a sessão para escolher o presidente, para buscar informações e me coloquei à disposição para abrigar quem precisasse. Os bombeiros, exército e funcionários da prefeitura levaram o pessoal para a minha academia. Alguns voltaram para casa ainda no sábado, mas 55 pessoas dormiram lá”, conta Valdir dos Santos, o Valdir do Karatê.

Mantimentos foram fornecidos pela prefeitura. “Funcionários trouxeram os colchões e fomos ajeitando as pessoas. Hoje (ontem), eu os levei para casa. Fiz dez viagens de carro para levar todos. As residências já não tinham mais água, muitos terão trabalho para limpar”, relata Valdir.

A estimativa é que mais de 200 pessoas saíram de suas casas e foram para residência de familiares. Na rua Simeão Esmeraldino de Menezes, no bairro Dehon, duas famílias levaram móveis e aparelhos eletroeletrônicos para a igreja São Judas Tadeu. “Dois vizinhos precisaram sair. A rua sempre fica alagada, mas nunca tinha chegado tão perto da minha casa. Com essas chuvas todas, estamos pensando em sair daqui, vender e ir para outro lugar”, conta o pintor Neri Luiz Matias.