Amanda Menger
Tubarão

Notícias de aumento de salários para cargos políticos são comuns no Brasil. E sempre provocam a indignação da população, ainda mais quando se comparam estes aumentos aos concedidos ao salário mínimo. E se você, leitor, ficasse sabendo de um governante brasileiro que durante o período em que ficou no poder não recebeu aumento de salário, o que pensaria? Muito provavelmente, leria algumas vezes a notícia para ter certeza de que o fato se passa no Brasil.

Mas ele ocorreu no Brasil, sim. O imperador Dom Pedro II assumiu o governo aos 15 anos, em junho de 1840. Ficou no poder até 15 de novembro de 1889. Nestes quase 50 anos, a verba destinada aos seus gastos pessoais sempre foi a mesma. Em diversos momentos, os parlamentares tentaram agradá-lo e aprovaram leis para aumentar o seu ‘salário’. Dom Pedro II não sancionou nenhuma das leis.
“Em períodos de eleição, a história de Dom Pedro II nos serve de reflexão. Principalmente sobre o trato com aquilo que é público”, argumenta o professor de história Cláudio Damaceno Paz, da Unisul.

Um exemplo era o patrocínio de jovens artistas. Dom Pedro pagou com recursos de seu ‘salário’ os estudos de pintores como Pedro Américo e Victor Meirelles, autores de obras como O grito do Ipiranga e A primeira missa no Brasil, respectivamente. “As atitudes do imperador servem para pensarmos em que tipo de governantes queremos para comandar nossas cidades. Será que já não chega do discurso do rouba mas faz?”, questiona o sociólogo Eduardo Búrigo de Carvalho.

O imperador também gostava de viajar e era fascinado por tecnologia. “Ele pedia empréstimos porque era contra usar recursos públicos”, revela Cláudio. Em muitas dessas viagens, Dom Pedro conhecia projetos e obras assistenciais e fazia doações para as instituições responsáveis.

Respeito aos bens e ao dinheiro público
A história de Dom Pedro II é o tema de uma biografia escrita pelo historiador José Murilo de Carvalho. No livro, ele conta diversos ‘causos’ da trajetória do monarca brasileiro. Segundo Carvalho, o imperador era conhecido pela austeridade. “Isso fez com que a corte brasileira não tivesse nem de perto o glamour das cortes européias”, observa o escritor.

Um dos poucos episódios de luxo na corte foi o mal fadado Baile da Ilha Fiscal. Esta festa ocorreu no dia 9 de novembro de 1889, poucos dias do golpe que estabeleceu a república no Brasil (15 de novembro). “Este baile foi a despedida da monarquia. Um dos poucos casos de gastos e luxo em uma corte conhecida pela penúria”, afirma Carvalho.

Poucos dias depois do golpe comandado pelo marechal Deodoro da Fonseca, a família real partiu para o exílio na Europa. Dom Pedro II recebeu um envelope quando se dirigia ao porto do Rio de Janeiro, mas só o abriu quando estava no navio. Ao fazer isso, percebeu que havia mais de cinco mil contos de réis, que deveriam custear a sua vida no exílio. O imperador mandou devolver o dinheiro porque ele pertencia ao povo brasileiro.