Com atuação na área da neurologia há 32 anos, o médico Nelson Ubaldo Filho, 58 anos, está em Tubarão desde 1990, quando veio para dar a sua contribuição profissional à população da Cidade Azul. Nelson é natural de Cerro Negro, na região serrana. Possui formação superior na Universidade Federal de Santa Catarina (Ufsc), em Florianópolis, em neurologia e neurocirurgia. É pós-graduado no serviço de neurologia e neurocirurgia. Sua profissão é encarada como um grande orgulho. O neurologista atua hoje nos hospitais Nossa Senhora da Conceição e Socimed, e também atende em seu consultório.

 
 
Mirna Graciela
Tubarão
 
Notisul – Do que tratam exatamente a neurologia e a neurocirugia?
Nelson – Cuidam das doenças do sistema nervoso, onde as mais comuns são o traumatismo craniano encefálico, os tumores cerebrais, a epilepsia, a enxaqueca e outras doenças neurológicas.   
 
Notisul – Entre estas doenças, existe alguma que merece destaque?
Nelson – O traumatismo craniano encefálico, com relação à sua prevenção. Acredito que seja a mais interessante de se falar por uma razão clara. Nós temos um grande aumento do volume de automóveis vendidos no mundo inteiro, sendo que esquecemos de aumentar as estradas. Temos as mesmas ruas que tínhamos há 50 anos, por exemplo, e a quantidade de carros cresceu vertiginosamente. Por isto que existem filas. Assim como mais acidentes, porque os automóveis estão cada vez mais velozes. Isto porque há um desenvolvimento grande da tecnologia, na produção de carros mais rápidos e nossas estradas não estão preparadas para isto. A questão da educação também é importante, muitas pessoas não estão preparadas, não respeitam os sinais de trânsito, a velocidade adequada, muitos motociclistas não seguem as orientações básicas. A adoção dos equipamentos de segurança, como o capacete. Sabemos que o número de acidentes de automóveis e de motocicletas, hoje, quando causam traumatismo, estão entre uma das maiores causas de morte em pessoas de 1 a 44 anos. Isto é um dado estatístico.  
 
Notisul – O que é possível fazer para minimizar estas estatísticas?
Nelson – Acredito que temos que pensar em uma educação melhor no trânsito, exigirmos, em termos de segurança, a qualidade de nossos veículos, a manutenção apropriada, pois não adianta simplesmente colocá-los a funcionar e não fiscalizar o uso adequado de carros mais antigos que circulam, porque isto provoca um índice maior de acidentes. Quanto às motocicletas, como é um veículo rápido e mais em conta financeiramente, acho que é um excelente meio de transporte, mas desde que seja utilizado de uma forma consciente. Se você usa o capacete de forma certa e obedece a velocidade, mesmo sofrendo um acidente, os danos serão minimizados. 
 
Notisul – Os acidentes com motocicletas causam mais danos à saúde por que são mais vulneráveis?
Nelson – Estatisticamente, sim. Não há dúvida nenhuma, os números mostram que a probabilidade é três vezes maior de uma pessoa ter um traumatismo craniano em um acidente de motocicleta do que de um automóvel.  
 
Notisul – O que é exatamente um traumatismo craniano encefálico (TCE)?
Nelson – Na verdade, crânio é o invólucro do sistema nervoso, a caixa óssea, enquanto que o encéfalo é o conteúdo, o sistema nervoso que está dentro. Nosso cérebro comanda todo o organismo, existe um mapa onde o nosso corpo está representado na região do cérebro. Traumatismo craniano é quando existe apenas uma lesão do crânio, ou seja, do osso. Já o encefálico é quando há uma lesão do sistema nervoso, por isto que às vezes o indivíduo fica com o lado esquecido do corpo, que chamamos de hemiplegia. 
 
Notisul – O que pode provocar um TCE?
Nelson – A pessoa pode ter por meio de um acidente de automóvel, de motocicleta, de trabalho, de uma queda. A ação mecânica que vai desencadear é a batida da cabeça ou às vezes a própria aceleração e a desaceleração rápida faz com que o cérebro também possa ser lesado. Por exemplo, se você está a 100 quilômetros por hora e para em dois segundos, o cérebro é empurrado para frente, onde a força da aceleração pode causar o trauma. As agressões físicas também ocasionam a doença. É importante também citar que uma pessoa de mais idade tem uma fragilidade capilar e, às vezes, por um acidente muito banal pode ter um problema mais sério. Por exemplo, vai se levantar e bate a cabeça em uma janela. Fica ali uma gotinha vazando dentro do cérebro e, depois de 30 dias, começa a ter sintomas como dor de cabeça, vômitos, alteração da consciência, com mais sonolência, entre outros. 
 
Notisul – Que tipos de sequelas a pessoa pode ter?
Nelson – Existe a motora, quando deixa uma parte do corpo sem movimento ou com fraqueza. A pessoa pode estar com a capacidade cerebral normal, mas a parte física abalada. Outra é a afasia, onde se perde a parte de entendimento e se tem uma dificuldade para se expressar. E há as sequelas psiquiátricas. Nestas, o indivíduo, às vezes, tem uma alteração importante do comportamento e perde, sobretudo, a linha de conduta adequada. Dependendo da dimensão do trauma, pode ter todas.   
 
Notisul – Além das consequências danosas à saúde da pessoa, como ficam os custos de tudo isso?
Nelson – O custo é muito alto para o estado, isto referente ao tratamento pelo Sistema Único de Saúde, o SUS. A medicação é cara, a fisioterapia. Em certos casos, a pessoa precisa de prótese, de cirurgias. Então, muitos destes pacientes ficam sequelados, impossibilitados de retornarem ao trabalho, acabam indo para a previdência e aposentam-se por invalidez. 
 
Notisul – Quando falamos sobre esta doença, é possível citar a prevenção?
Nelson – Com certeza. Uma educação no trânsito adequada, no trabalho a utilização de equipamentos de proteção individual. Na rua, por exemplo, se você caminha, quando cai um objeto, também vai depender da precaução de alguém. A maioria dos acidentes é evitável, há como impedir que ocorram.   
 
Notisul – É possível, por meio de cirurgia, mudar o quadro de um paciente que sofreu um TCE?
Nelson – Tudo depende do tipo de trauma. Às vezes, rompe um vaso sanguíneo e forma um coágulo entre o cérebro e o osso ou dentro do próprio cérebro. E muitas vezes você tem que retirá-lo, porque ele acaba comprimindo estruturas importantes. Se você deixar, essas lesões podem levar a uma sequela definitiva. E se a atuação médica for rápida, há condições de reverter, de não dar tempo de lesar. 
 
Notisul – O AVC também deixa sequelas…
Nelson – O Acidente Vascular Cerebral existe de dois tipos. O hemorrágico, onde existe um rompimento de um vaso sanguíneo dentro do cérebro, causando um hematoma, e o do tipo isquêmico, onde há uma obstrução de uma artéria de pequeno, médio ou de grande porte que acaba em uma obstrução do aporte sanguíneo em determinada região do cérebro. 
 
Notisul – Quais são as causas de um AVC?
Nelson – Existem alguns fatores de risco que predispõem com mais facilidade esta doença, como a hipertensão arterial, o sedentarismo, o fumo, o álcool, o diabetes mellitus. A hipertensão arterial sistêmica é um fator muito importante, quando associada com diabetes e ao sedentarismo, o risco aumenta bastante. Por isto, a pessoa tem que estar sempre atenta, pois a prevenção faz parte de tudo. Tem que haver um controle da pressão, de seu diabetes, caso tenha e tantas outras formas de viver melhor. Temos que comer adequadamente por causa do aumento de colesterol, triglicerídeos no sangue e para isto o exercício físico previne. Também uma dieta alimentar correta, porque, ingerindo, por exemplo, gorduras, lipídios, estas substâncias vão propiciar o entupimento de uma artéria que leva o sangue para o cérebro. A hipertensão pode, quando muito alta, romper uma artéria e causar uma hemorragia cerebral. O estresse faz a pressão aumentar e, assim, aumenta o risco.
 
Notisul – Uma criança ou um adolescente pode ter um AVC?
Nelson – É muito mais raro ocorrer, mas normalmente quando acontece é por uma má-formação artério-venosa ou por outra doença que predispõe a isso. 
 
Notisul – O mal de Alzheimer também aflige muitas famílias. Como ocorre?
Nelson – Não tem uma causa específica. É uma doença degenerativa do cérebro. Não há como explicá-la. A prevenção seria a normal, ocupar o cérebro adequadamente, mantê-lo desta forma, ter uma dieta alimentar apropriada, uma pressão normal, não ter diabetes. Não estou dizendo que estas doenças causam o mal de alzheimer, mas de uma forma geral você tem que ter uma vida regrada para chegar a uma idade mais avançada. Mas também não se tem uma causa, então, isto também pode não significar nada, qualquer um pode ter, na maioria das vezes, a partir da quinta década, independente de ter sido um atleta, de ter bons hábitos de saúde e assim vai. 
 
Notisul – As pessoas reclamam muito de enxaquecas. O que é realmente e tem tratamento?
Nelson – É um tipo de dor de cabeça com características próprias que faz com que o indivíduo perca, pela sua intensidade, muitas vezes, o trabalho por dias, que se torna insuportável. Falar sobre esta doença é muito complicado porque a dor de cabeça é uma manifestação de várias coisas que podem acontecer, desde um tumor até um mal estar momentâneo. A enxaqueca é um tipo de doença que se manifesta com dor de cabeça, mas tem uma influência genética, não digo hereditária. Normalmente, é de um lado somente da cabeça, latejante, acompanhada muitas vezes de náuseas, vômitos, às vezes com formigamentos, com piora na presença da luz e com o barulho. A pessoa tem que parar tudo e se isolar. É uma doença muito comum que atinge grande parcela da população, mais nas mulheres. Hoje tem tratamento, as pessoas falam que não tem cura, mas há. Uma coisa é ter uma crise de dor de cabeça forte a cada 15 dias ou semanal, que lhe faz perder aquele dia. A outra é ter uma, duas crises por ano de fraca intensidade que com um analgésico específico possa melhorar. 
 
Notisul – Quando a pessoa deve procurar um médico neste caso?
Nelson – No momento em que ela notar que está mudando de característica ou quando estiver mais frequente ou mesmo não, mas com mais intensidade. Primeiro que será feita uma investigação para ver a causa da dor ou não, onde o médico terá condições de esclarecer com técnicas diagnósticas.   
 
Notisul – Como estão os avanços na área da neurocirurgia? 
Nelson – Quero primeiro deixar claro que hoje me dedico mais à neurologia clínica. Diz-se que este é o século da neurociência, porque os avanços são tão grand iosos. Só para ter uma ideia, em 1927 um cirurgião português, chamado Egas Muniz, descobriu a forma de fazer arteriografia, que foi um grande avanço e revolucionou a neurologia e a neurocirurgia, porque se poderia fazer diagnósticos não somente de doenças vasculares, mas de outras. Hoje, este exame está praticamente obsoleto. E, com o avanço de novas técnicas, por meio de vários exames que existem, você faz diagnósticos mais facilmente, com melhores condições, atuando mais rapidamente na doença e obtendo resultados melhores. E tem muito ainda para se alcançar. A velocidade com que isto ocorre, não precisaremos de mais 50 anos para descobrir causas de doenças que hoje não temos. 
 
Notisul – Tubarão está em uma situação confortável na área da neurologia?
Nelson – Não há dúvidas de que a cidade sempre foi um polo regional da medicina do sul do estado, com hospitais extremamente bem equipados e profissionais gabaritados. Estamos muito bem servidos. Hoje, são quase dez médicos que atuam nesta área, que atendem a população da Amurel, o que comporta a demanda.
 
Nelson por Nelson
Deus – Razão de tudo.
Família – Base estrutural.
Trabalho – Orgulho, satisfação e, sobretudo, vontade grande.
Passado – Serve de base para o futuro.
Presente – Viver dignamente.
Futuro – A Deus pertence.
 
"Você é um ser humano que precisa olhar aquela pessoa que está ali e saber que não é um objeto de trabalho, e tratá-la com dignidade. Muitas vezes, você não consegue curar até porque a morte é inexorável para todos. Agora o médico tem que tratar, fazer com que o sofrimento daquele ser humano seja o menor possível. Sabendo que a pessoa tem uma doença incurável ou que não tenha mais condições de reverter o seu problema, minimizando, dando um aporte humano àquele ser, você estará fazendo muita coisa. 
Às vezes, existem patologias que destroem o organismo de uma certa forma e não há mais o que fazer, não do ponto de vista de reversão, mas muito a fazer do ponto de vista de cuidado, amparo e até psicológico, o médico também tem que estar pronto para isto. Você tem que olhar o seu paciente de uma forma que sempre terá o que fazer por ele, se não curá-lo, pelo menos ampará-lo e tratá-lo de uma forma que você possa se sentir bem sabendo que fez o possível para minimizar o sofrimento dele e dos que o cercam".

 
"Se você usar o capacete sem afivelar corretamente, além do risco maior de 
ter um traumatismo, os que se salvam muitas vezes ficam com sequelas graves.”
 
“A maior parte
dos traumatismos 
que atendemos é
de acidentes.”