Apaixonado pela profissão, aos 77 anos o pediatra Arary Bittencourt carrega um histórico profissional que vale uma vida. São 50 anos dedicados a garantir a saúde daqueles que são considerados o futuro de uma nação. Com valores éticos e morais embasados na formação familiar, ele atende os pacientes sempre preocupado com  a humanização de seu trabalho. Ao longo de sua vida profissional, tem histórias de perdas e realizações e a necessidade de adaptação em um meio que considera um dos que mais têm atualização. Por isso, leva uma vida aprofundada em estudos, ostenta um currículo invejável de mais de 300 cursos. Modelo de profissional exemplar, por ser apaixonado pelo que faz, preocupa-se com a falta de interesse dos médicos em atuar na pediatria. E vai além, garante que a questão é mais sentimental que profissional.

 

 
Lily Farias
Tubarão
 
 
Notisul – Você acredita que a pediatria está carente de profissionais? O lhe faz pensar assim?
Arary – De um modo geral, há um desinteresse dos médicos. O motivo maior é por ser uma especialidade que paga mal e, para receber um salário condizente com o restante da categoria, é preciso trabalhar mais do que devia, seja no atendimento particular ou no público. Trabalhamos de segunda a segunda cerca de dez horas por dia. Todo mundo já quer direcionar para as áreas que não têm plantão, não tem que trabalhar no fim de semana e que o atendimento vale três vezes mais que as outras especialidades. Sacrificamos a nós e a nossa família. Se um médico não tem uma boa base familiar, a começar pela esposa, ele não consegue cuidar dos filhos e da casa. A pediatria é uma vocação, o profissional tem que ter muita paciência e gostar do que faz. 
 
Notisul – Como é o cenário da pediatria em Tubarão, condiz com a realidade nacional?
Arary – Quarenta e dois por cento dos médicos no Brasil são pediatras. Em Tubarão, contamos com 23 profissionais para atender a população local e da região. Nem preciso dizer que esta quantidade deixa a desejar. Mas minha maior preocupação é que estamos  sem médicos novos nos últimos anos. Isso é muito ruim. Os velhos vão embora e quem fica no nosso lugar? Já somos três colegas com mais de 60 anos. Minha esperança é de que os médicos queiram encaminhar a profissão na pediatria. Mas a culpa é das universidades, que não incentivam, não mostram o bônus da profissão.
 
Notisul – Mas também há o outro lado da moeda, que são as dificuldades de atuação, como em qualquer profissão. 
Arary – Trabalhar com criança não é fácil, e lidar com a mãe às vezes é muito mais difícil. É preciso entender suas preocupações, porque elas não sabem o que fazer com as crianças. Temos que trabalhar nosso lado técnico sem esquecer que estamos falando com um ser humano. Essa é a parte mais difícil, o contato humano. Tem que ter amor ao próximo, a maioria dos médicos dá só atenção ao lado técnico do trabalho. Hoje em dia, conversamos sobre a estética da profissão, que é querer fazer as coisas dentro de um parâmetro de boa qualidade de aceitação, fato quase inexistente na medicina. Entendo os médicos como gênios na profissão, mas na hora de trabalhar alguns tratam os pacientes com frivolidade, nem olham nos olhos. Agem como robôs, mas não são, é um relacionamento humano, sentimental.
 
Notisul – O que a pediatria representa na sua vida?
Arary – É uma extensão da minha família. Não consigo enxergar as crianças como meros clientes. Mas o ponto fundamental da profissão é a transmissão de todo meu ensinamento para uma mãe que está começando uma vida nova. E a quantidade de informação não é pouca, são 50 anos de profissão. Cada atendimento é um aprendizado imenso para mim. Cada informação que repasso tem base científica, mas tem informações que as mães trazem que, se for algo que funcionou com o filho dela, e pode ser útil para outro paciente, vou aproveitar e repassar. Mas tem que saber fazer conscientemente. Sei que sou taxado de demorar no atendimento, porque é muita coisa para falar, mas prefiro orientar as pessoas e saber que elas foram embora bem informadas. Minha sabedoria não foi feita para morrer comigo, é para orientar os pacientes. 
 
Notisul – Em todos estes anos de profissão, acompanhou muitas histórias de crianças que lutam contra doenças muitas vezes com quadro irreverssível?
Arary – Em 1963, eu estava em Jaguaruna, houve a primeira vacina de paralisia infantil no Brasil. Levávamos a vacina nos bairros, diretamente às crianças. E no meio de tanta gente tinha uma criança com febre alta. Quando a examinei, ela estava com as perninhas soltas na roupa. Suspeitamos que estava com paralisia e veio a confirmação. Mas não pudemos vaciná-la, porque já estava doente. Meu coração dói até hoje por estar com a vacina em mãos  e não poder fazer nada. Encaminhamos a criança para o hospital, mas infelizmente foi impossível reverter a situação (choro).
 
Notisul – Quais eram as maiores deficiências da pediatria naquela época?
Arary – O que me fez voltar foi saber que o índice de mortalidade infantil era muito alto, poucas crianças tinham aleitamento materno. As pessoas procuravam qualquer médico. Quando cheguei, no fim de 1963, percebi que a gravidade da situação era pior do que imaginei. Entre o dia 1º e 20 de dezembro daquele ano, eu assinei 20 atestados de óbito de crianças, a maior parte era por desidratação. Outra situação muito comum era a perda de crianças que sofriam do “Mal dos sete dias”, o que chamamos de tétano neonatal. Isso acontecia porque as parteiras cortavam o cordão umbilical do bebê com tesouras sujas, enferrujadas. O tratamento que as mães faziam para ressecar o coto da criança era de qualquer maneira. Elas colocavam plantas para misturas com banha e fazer pomada para passar no local, isso quando não colocavam teia de aranha. Ou seja, envenenavam as crianças aos poucos. 
 
Notisul – Como foi lidar com estas perdas?
Arary – É muito triste ver as crianças morrerem. São seres indefesos, não tinham suporte para suportar a infecção que enfrentavam. E, em relação aos 20 óbitos, pensei em desistir, mas foquei no propósito de não deixar a situação acontecer de novo. Foi então que começamos a trabalhar para reverter a situação. Para entender o quanto a cidade era atrasada com relação à saúde, os médicos daqui não sabiam que podiam injetar soro na veia das crianças. Elas ficavam desnutridas e isso agravava a situação. E muitas vezes o que fazíamos não era suficiente para salvar elas. Hoje, se morrer uma criança por causa disso, dá manchete nos jornais.
 
Notisul – O que fizeram para tentar mudar um cenário de perda e dor?
Arary – Trabalhamos para melhorar a qualidade sanitária na cidade. Fizemos cursos para as mães, dávamos orientação à comunidade falando sobre a importância da amamentação, aulas práticas de como preparar a madeira, trocar a fralda. Se eu fizer isso hoje, parece que estou fazendo uma ofensa à pediatria que se pratica hoje. 
 
Notisul – Foi um processo trabalhoso, mas recompensador.
Arary – Sem dúvidas. Trabalhamos em condições precárias até 1968, quando montamos no Hospital Nossa Senhora da Conceição o serviço de pediatria nos moldes da proposta inicial de orientação e investimento em equipamentos para atender a comunidade. A necessidade de haver este setor era tão grande que, em menos de um ano, tínhamos 100 leitos infantis. Praticamente fui o precursor de tudo, mas isso não me faz ser melhor que ninguém. Eu me habituo a viver as coisas, por isso não tenho sentimento de grandeza, me coloco no meu lugar de simplesmente cumprir meu papel.
 
Notisul – E hoje, como é a pediatria em Tubarão? 
Arary – É visível que a cidade tornou-se polo pediátrico na região. Atendemos crianças de toda a região e todo o estado e contamos com equipamentos de última geração, o que facilita nosso trabalho. Somos uma equipe com excelente qualidade. Isso faz com que Tubarão tenha um dos melhores padrões de saúde infantil em nível nacional.
 
Notisul – E quanto à conscientização das mães com relação aos cuidados do bebê?
Arary – Hoje a informação chega muito mais fácil às pessoas. Não precisamos mais dar recados nas igrejas ou ir com tanta frequência nas comunidades, a mídia atua com força total. As mães aderem com mais intensidade às campanhas e estão mais receptivas durante as consultas. 
 
Notisul – Para atuar na pediatria, tem que ter uma base familiar bem sustentada. 
Arary – Com certeza. Precisamos repassar valores humanos e éticos. Nós, médicos, temos que ser exemplo para dar exemplo aos pais que estão aumentando suas famílias. É neste ponto que se encaixa a  estética da profissão, falamos em humanização e deixamos a técnica de lado. Sem isso, não temos condições de transferir boas informações e os pais jamais confiarão no meu trabalho. Hoje mantenho meus 50 anos de profissão e de casamento por causa da minha mulher, Maria Doroteia, uma excelente companheira, que soube educar nossos três filhos. Tenho cinco netos e estão sendo educados da mesma maneira que educamos seus pais. Mas o mérito é mais dela. Eu dei  o suporte físico e ela o sentimental. Sou consciente de que fui um pai ausente, mas eu compensava proporcionando momentos inesquecíveis em família. Mas, para tê-los perto de mim, chegava a levá-los nas viagens de estudos. Hoje com os filhos crescidos, viajamos sozinhos, não por ciúmes dela, mas para aproveitarmos. Vivemos muito felizes assim.
 
Arary por Arary
Deus – Sem ele não somos nada.
Família – A base de tudo.
Trabalho – Minha vida.
Passado –  Saudade. 
Presente – Pensamento no futuro.
Futuro – Desconhecimento.
 
"Estudei quase dez anos em uma universidade em Curitiba. Eu poderia atuar lá como cardiologista, fazendo parte de um grupo pioneiro em cirurgia. Deixei de lado toda a grandeza que tinha nas mãos para assumir um compromisso com a minha comunidade. Minha mãe era viúva, tinha dificuldades e a comunidade colaborou com bolsas para eu estudar em escolas renomadas em Tubarão e Florianópolis. Apenas quis retribuir o que eles fizeram por mim.
Os colegas em Curitiba tinham resistência porque aqui não tinha estrutura para atuar em qualquer ramo. Mas, diante desta dificuldade, resolvi tentar, eu sabia que podia me dar bem e poderia completar a minha necessidade de colaborar para o meio".
 
"A pediatria é uma extensão da minha família. Passo mais tempo com as mães e seus filhos do que na minha própria casa".
 
“Nos consultórios, sãos os pais que trazem 
as crianças e, quando as mães acompanham, 
nem saem da cadeira, apenas observam o atendimento e participam da conversa”.