Apesar de ser natural de Blumenau, Ivo Antônio Reinert Prim, pode considerar-se um cidadão tubaronense. Desde os anos 70, frequenta a Cidade Azul, onde mora desde 2002. Foi no município que conheceu Márcio e Genésio A. Mendes. A partir dali, começou a relação que gerou o Farol Shopping. Ivo acompanhou todo o processo. Desde a ideia inicial até a administração do empreendimento. É o superintendente. Ele é bacharel em administração de empresas, presidente da Associação Catarinense de Shopping Centers (Acasce) e da Câmara Empresarial de Shoppings Centers.
 
 
Thiago Oliveira
Tubarão
 
Notisul – Como está o mercado de shoppings na atualidade?
Ivo – O mercado continua em franca ebulição, apesar de estarmos em um ano em que se fala muito em crise. Veja que, quando nós inauguramos o Farol Shopping, em 2006, foi o primeiro de uma nova safra de empreendimentos. Até o Farol Shopping ser inaugurado, a última inauguração tinha sido na década de 90. Mas tanto no estado, como no restante do Brasil, o setor de shoppings centers tem crescido a passos larguíssimos. Só não cresce mais rápido porque o varejo não acompanha essa velocidade. Nós não temos redes de varejo de cobertura nacional ou mesmo regional em números suficientes para que você faça mais shoppings. Considerando a relação mundial, habitante, renda e metro quadrado de shopping center disponível, o Brasil ainda tem uma taxa muito baixa. E isso mostra que a gente ainda tem um espaço muito razoável para crescer neste setor. Enfim, o setor está explodindo.
 
Notisul – E qual o motivo desta explosão?
Ivo – Aumento do poder de renda, indiscutivelmente. Nos últimos anos, você teve um incremento do potencial de consumo da população. Por um lado, pelo próprio aumento da renda, por outro, principalmente pela disponibilização de mais crédito. Ambos dão a sensação de riqueza, porque por um lado você ganha mais, e por outro pode se endividar mais. Isso aumenta o seu potencial de consumo. E o Brasileiro é ávido por consumo. Por isso, nunca se vendeu tanto carro, tanto apartamento, tanta roupa, tanto eletrodoméstico. Botou para vender, vende.
 
Notisul – Vários empreendimentos surgem. Criciúma está construindo um shopping, por exemplo. Com a concorrência, como está o Farol Shopping? 
Ivo – Criciúma é o terceiro município em visita ao Farol. Então, é natural que a gente sinta a inauguração de um shopping lá, como o comércio de Criciúma sentiu a inauguração do Farol Shopping. Temos que estar preparados. Vamos agir. Ninguém vai ficar esperando o concorrente chegar. Nós temos os nossos projetos, nossas estratégias para agir no momento que o concorrente estiver na praça. Antes disso até.
 
Notisul – Antes da inauguração, falaram que o Farol não daria certo. Quais foram os motivos do sucesso?
Ivo – Trabalho e competência. E ouvido surdo ao blá blá blá. As pessoas estão muito acostumadas a dar palpite, quando deveriam era dar opinião. E muitos julgamentos foram feitos. Falaram que o shopping era muito grande para Tubarão. Mas ele não foi feito só para Tubarão. Ele foi feito para uma região. Mas o nosso trabalho não terminou ainda. Temos muito o que conquistar. O segredo é trabalho, competência de toda a equipe. Da confiança do investidor, do seu Genésio. E seguir em frente, apesar das críticas. Independente do que se falava à nossa volta. E está aí para provar. No ano passado, o shopping gerou R$ 150 milhões em vendas. Neste ano, deve bater R$ 180 milhões. É muito dinheiro. E hoje nós somos o maior empregador da cidade. Aqui dentro, o shopping gera 1,5 mil empregos diretos. 
 
Notisul – A falta de mão-de-obra prejudica o shopping?
Ivo – Na verdade, o que falta é mão-de-obra qualificada. O atendimento em uma loja pode  aumentar um potencial de consumo que já existe. Com um bom trabalho, uma boa indicação, se o cliente estava disposto a gastar R$ 200,00, pode fazer com que ele gaste R$ 400,00. Como pode também fazer com que ele não gaste rigorosamente nada. E isso, no varejo, é absolutamente fatal. Não é só aqui. É um problema do Brasil. E enquanto isso não for resolvido, temos que estar aí. As empresas têm que fazer o papel que caberia ao estado ou ao próprio profissional, que é se qualificar, melhorar. Isso é muito complicado. Há um movimento contrário que é tipicamente brasileiro. Na hora da dificuldade, como agora em que há uma demanda muito grande por mão-de-obra, em vez de se qualificar para conseguir mais, a pessoa acomoda-se. 
 
Notisul – Você está em Tubarão há dez anos. Como vê a cidade?
Ivo – Tubarão me passa a sensação de uma cidade parada no tempo. Ela é uma cidade que continuamente perde oportunidades. Tem um potencial imenso. Logisticamente, está bem localizada, às margens da BR-101. Ela poderia ser um ponto para a serra, para o mar, para a lagoa, para a estância hidromineral, para os negócios. E não sabe aproveitar isso. Você não vê projetos a longo prazo em Tubarão. Não vê estratégias pensando Tubarão. O que se quer para Tubarão em 2020, 2030? Ninguém diz nada. Não se sabe. Na verdade, não se faz. E isso é uma pena, pois é uma cidade muito bonita, com um povo extremamente acolhedor, simpático, ordeiro, que sabe fazer a coisa. Mas a cidade, definitivamente, está parada no tempo.
 
Notisul – E de quem é a culpa?
Ivo – De todo mundo. Do poder público, da população que elege o poder público e não cobra. Talvez dos empresários, que deveriam pressionar mais o poder público para fazer mais e fazer diferente. E você fica nesses suspiros individuais. O seu Genésio foi muito corajoso em fazer um empreendimento desse porte, investir quase R$ 60 milhões em um investimento como este, em uma cidade que cresce aos solavancos. E você tem alguns outros exemplos de indústrias e empresários que investem na cidade mesmo que não se veja aqui um projeto de longo prazo. Infelizmente, isso não é uma exclusividade de Tubarão. O Brasil é um país sem projeto. O Brasil não pensa longe. Pensa no depois de amanhã. Antes, pensava no daqui a 15 minutos. E é isso que faz falta. O que se pensa para o comércio daqui a dez ou 20 anos? Não tem estratégia. Não conseguimos sequer fazer um liquidação conjunta no comércio. Falta pulso firme. Alguém que comande a cidade com esse objetivo. Até porque, enquanto continuamos elegendo prefeito que asfalta ruas estamos ralados.
 
Notisul – O shopping não é um projeto da cidade, e sim regional. Como você analisa essa região?
Ivo – A gente vê movimentos importantes. Imbituba é uma cidade que pensa à frente. Braço do Norte, depois de um período grande de crise por causa das molduras, está renascendo economicamente, dando a volta por cima. Temos um cinturão de cidades. Cada uma com as suas dificuldades, obviamente. Mas estamos em uma região muito interessante. Estamos em um polo importante. Mas, mais uma vez, vemos o que causa a falta de liderança política. Estamos com essa BR-101 que não se concluiu. Vira essa novela que há anos se arrasta. Temos esse aeroporto que não sai do papel. Cadê os projetos? Cadê a visão de longo prazo? Mas estamos em um país em que as pessoas reclamam. Depois, entregam uma obra com 15 anos de atraso e batem palmas. Enquanto for assim, não vai mudar.
 
Notisul – Você falou em crise. O governo diz que os problemas no exterior não afetam a nossa economia. Dá para acreditar nisso?
Ivo – Não. Óbvio que não. Há quem veja nesse não um discurso derrotista. Na verdade, alguns podem dizer que o governo está fazendo a parte dele, de não criar pânico. Mas, na verdade, a gente tem que admitir que a crise vai bater aqui e partir para a ação. O problema é que nos últimos anos do infeliz ex-presidente da república nós perdemos o bonde. E o seu Lula não mudou rigorosamente nada. E a tal presidenta está aí tentando fazer o que for possível, mas, como o seu antecessor, não fez as reformas que deveria ter feito, não entregou um país melhor do que deveria do que ele recebeu. 
 
Notisul – Ou seja, o Brasil de hoje é o mesmo de 2002.
Ivo – Basicamente o mesmo. Óbvio que tivemos avanços. Mas é um castelo construído em cima da areia. Os nossos portos continuam a mesma porcaria de sempre. Exceto aqueles em que houve investimento privado. Os aeroportos continuam desastrosos. As rodovias são ruins. O nosso sistema tributário é pior do que era em 2002. A economia está travada. O Brasil é um atleta de primeira linha, que está louco para correr, mas que está com uma amarra na canela. Tem que correr com concorrentes poderosíssimas, mas com uma corrente de 50 quilos atrás dele. E destes, 45 quilos são o governo. É um mamute pesado. É um atrapalhador potencial no negócio. Salvo alguns avanços econômicos e sociais, o Brasil é o mesmo de dez anos atrás. Estruturalmente, mudou muito pouco. Se o setor privado não tivesse feito a lição de casa. Se dependêssemos exclusivamente do governo, estaríamos mortos.
 
Ivo por Ivo 
Deus – Luz.
Família – Base.
Trabalho – Empolgação. 
Passado – Meio de refletir sobre o futuro.
Presente – Já passou.
Futuro – Estamos fazendo.
 
 
"O Brasil poderia ter arrumado a casa. Assim como Lula recebeu todos os benefícios das pesadas, mas não suficientes, reformas feitas na economia nos anos do Fernando Henrique Cardoso. Ele deveria ter feito reformas, para entregar oito anos depois, para o seu sucessor, um país moderno, um país menos endividado, capaz de não ter que depender de aumento ou diminuição de juros para que a economia cresça. Lula não fez as reformas que deveria ter feito. E isso cobra um preço alto. Tanto que vê que agora, em função dessa crise batendo aqui, fizeram o quê? Estimularam o consumo. No momento em que você vê os níveis de inadimplência crescendo, vê uma população esgotada na sua capacidade de consumo. É um país sem capacidade de investimento. Gasta um percentual absurdo da sua arrecadação para manter uma maquina pública ineficiente, corrupta, incompetente. Todos nós temos que ter filhos em escola particular, porque a escola pública é ruim. Temos que ter plano de saúde privado, porque o hospital público é ruim ou você não é atendido. Tem que botar cerca elétrica em casa, porque a segurança pública não recebe investimento. Tem que pagar um IPVA altíssimo para pegar uma estrada vagabunda, onde você arrebenta o seu carro, e o estado não tem responsabilidade por isso. Quer dizer, é caro viver no Brasil por incompetência do governo. Então, temos um volume de arrecadação da Suécia, com um serviço do Zimbábue. Essa combinação não vai servir por muito tempo”.
 
"Tem sido muito gratificante ter que acompanhar o crescimento que estamos conquistando. Tudo foi feito com muito esforço, muita crença no trabalho”.
 
“O shopping veio para ficar, veio para mudar. E o nosso trabalho é fazer com que isso seja verdade”.