Itamar Sebastião Mattos, o Tio Preto, nasceu em Gravatal, mas se considera um gaúcho. Afinal, para ele, só pode carregar este nome quem vive a tradição do cavalo, da bombacha e do chimarrão. Coisa que o senhor de 82 anos faz desde que nasceu. O tradicionalista foi, por oito mandatos, presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG). Hoje, ele ocupa o cargo de vice-presidente. Além disso, levou a sua paixão pelo tradicionalismo para a família, que já está na quinta geração. O que leva da vida? As amizades feitas, de uma vida, que ele garante, bem vivida.
 
 
Thiago Oliveira
Tubarão
 
 
Notisul – O senhor é natural de onde?
Tio Preto – Sou natural de Gravatal. Mas conheço toda a região sul do país. Eu viajei de 1949 até 1970 puxando cavalos lá da fronteira do Rio Grande do Sul. Conheci toda a fronteira do Uruguai a cavalo. As cargas eram com cavalos. Mal tinha caminhões na época. Eu passava pela barca do Rio Guaíba porque era o jeito de atravessar. A ponte só foi inaugurada em 1956. E eu tive esse prazer de passar por aquela barca, que pegava 16 Alfa Romeo (caminhões) carregados, 300 burros ou 300 cavalos. Dormíamos no peleio ou no campo. Assim era a nossa vida. Fazendo café na lata. Chupando água, fritando com lenço. Era a sabedoria da época. A fase já passou. Mas o mundo era bom e a vida era melhor.
 
Notisul – Foi nessa época de viagens que começou a sua história na tradição?
Tio Preto – A nossa tradição começou com os rodeios em Esmeralda, que fica para os lados de Vacaria, no Rio Grande do Sul. Os fazendeiros levavam as carroças, os cavaleiros, soltavam o gado e tinha a competição com o laço. Aqui nós temos o nosso berço da tradição, que é Laguna. Mas foi muito esquecido por causa dos governantes. Mesmo assim, todo ano, no dia 20 de setembro, nós erguemos a chama crioula. Levamos até São José do Norte. Sempre fazemos isso. Esse ano não pude ir, estava doente. Mas fizeram uma grande festa no nosso CTG.
 
Notisul – Por que tem tantas pessoas interessadas na tradição gaúcha em Santa Catarina?
Tio Preto – Na verdade, a tradição gaúcha não é do Rio Grande do Sul. Ela é do mundo. Do Uruguai e Argentina. Não é porque é o cidadão é de Porto Alegre que ele é gaúcho. Ele é riograndense. Gaúcho é quem adota a tradição. Que faz o que eu faço. Que anda de bombacha, bota. Que vive esse estilo de vida. Não quero dizer que eu sou o verdadeiro gaúcho, mas eu vivo a tradição.
 
Notisul – Com quantos anos o senhor começou a viver desta forma?
Tio Preto – A tradição depende do cavalo. Depende do boi. Depende do chimarrão. E eu, para levar a sério, comecei em 1930, quando eu estava na barriga da minha mãe. Ela era professora em Lages e resolveu pagar uma tropa de mulas para fazer a mudança para Gravatal. Então, eu comecei a andar a cavalo dentro da barriga da minha mãe. E isso está no sangue. Sempre aprendi sobre a tradição pelo meu pai e pela minha mãe. Tudo se fazia em cima do cavalo. Minha mãe saía daqui para receber no fim do ano em Florianópolis. O Morro dos Cavalos tem esse nome porque tinha cavalos para alugar. O pessoal que ia até Florianópolis, quando chegava ali, deixava os cavalos cansados e ia com outros. E lá ficava 20, 30 dias. Não tinha pressa. E quem anda a cavalo não pode ter pressa, senão, o cavalo cansa.
 
Notisul – Quanto tempo demorava de viagem entre Porto Alegre e Florianópolis?
Tio Preto – Entre Porto Alegre e Florianópolis, quando andava com a tropa, demorava uns oito dias. Com família, com mais pessoas, levava entre dez e 15 dias. Isso sem pressa nenhuma. Tinha que se acostumar, porque o cavalo era a cama.
 
Notisul – E a sua história Movimento Tradicionalista Gaúcho de Santa Catarina começou quando?
Tio Preto – O MTG, no início, era Movimento Tradicionalista Catarinense (MTC). Começou na década de 1970. O pessoal fazia rodeios, mas não era nada oficial. Pegavam um caderno. Chegava um, fazia uma equipe. Hoje não. Hoje é tudo muito organizado. Tudo informatizado. Tem as regras. Quem pertence à tradição puxa pela internet o cargo que tem, se está em dia com o movimento. Se tem uma carteira, não sai outra. Fui presidente em oito mandatos. Larguei agora no dia 21 de julho. A minha carteira é a número 01. Esse número prova que era no início, quando pouca coisa existia em Santa Catarina. E a gente achou por bem, de quando fazer um rodeio, juntar oito, dez pessoas de um lado, oito dez de outro, e faziam uma equipe. Talvez, eu achava até que a própria tradição não tinha por que não ter um documento. Então, sugeri que tivesse uma carteirinha. E falaram que a primeira carteira seria a minha. Hoje, temos mais de 200 mil carteiras no estado. E o movimento em Santa Catarina é muito bom. Nós participamos de 13 rodeios nacionais. E Santa Catarina foi campeã 11 vezes. Isso muita gente não sabe. E outra coisa que pouca gente sabe é que no estado de temos uma tradição muito forte, na região de Lages, região do oeste. A Grande Florianópolis também. Santa Rosa da Imperatriz tem um CTG (Centro de Tradições Gaúchas) muito forte. A nossa região é que deixa um pouquinho a desejar, porque é um povo mais açoriano.
 
Notisul – O que o MTG faz? 
Tio Preto – Administra todo o movimento que tem no estado. Agora, por exemplo, vamos ter uma cavalgada até Aparecida do Norte (em São Paulo). E, para isso, tem que estar tudo em dia. E nisso o MTG toma conta, organiza, faz congressos. E, além disso, o MTG com essa administração, com 200 mil carteiras, tem muitas trocas. Tem um peão que mora aqui, e se muda para Joinville, então tem que fazer a transferência. Temos três funcionárias que trabalham o dia todo e é difícil de dar conta. Tem a parte dos arquivos e a parte financeira, que é muito importante. Até porque uma empresa que tem R$ 442 mil em caixa tem que ter uma administração. Se não, como vai funcionar? É que nem vários CTGs, que muitas vezes quebram, pois falta essa organização. Nossa administração é considerada pela Confederação Brasileira da Tradição Gaúcha (CBTG), que é o órgão nacional, uma das melhores do país. 
 
Notisul – O senhor foi oito vezes presidente. E o que fez neste tempo?
Tio Preto – Cada um só poder ser presidente por dois mandatos consecutivos. Depois, tem que descansar um e assumir por mais dois. E assim consequentemente. Assim foi a minha vida. Peguei o MTG quebrado. Não peguei um centavo de incentivo de estado e nem de prefeitura. Administramos a parte financeira, que, como eu falei, tem uma sede administrativa própria. O que precisar, da tradição gaúcha, nós temos lá na cidade de Lages. Então, não poderia ser diferente. Nós dividimos o trabalho à distância. Isso tudo é organização, e hoje o único CTG que tem dinheiro e sede é o nosso. Antes, era casa alugada. Ou era despejado, antes de eu ser presidente.
 
Notisul – Como o senhor avalia esse tempo como presidente?
Tio Preto – Como presidente por oito mandatos, tenho certeza absoluta que fiz um grande trabalho. Dentro da nossa tradição, no estado de Santa Catarina, não tivemos nenhuma pessoa punida e penalizada pela diretoria do MTG. E esses oito mandatos eu peguei com R$ 312 mil de dívidas e entreguei em julho com R$ 442 mil em caixa e uma propriedade, uma sede com tudo que é preciso, em Lages, avaliada em R$ 20 milhões. Um loteamento belíssimo. Então, acho que a tradição é uma cultura muito importante, porque ela agrega a família. Tenho um tataraneto que já é campeão estadual de laço. Já são cinco gerações que vivem a tradição. Se vamos num rodeio, toda a família vai junto. Por isso, é uma coisa muito importante a tradição.
 
Notisul – O senhor está desde o início no movimento. E, tanto na oposição, quanto do seu lado, todo mundo o respeita. Por que isso?
Tio Preto – Eu acho assim que o respeito vem da bondade de cada um. Eu sempre fui respeitado porque eu nunca deixei a desejar. Talvez, tive erros. Mas nunca fui chamado à atenção. Nem por conselho fiscal, nem por nada. Fui presidente também do conselho deliberativo por quatro mandatos. E vice-presidente nacional. E, por onde eu passei, eu deixei amizades, deixei respeito. Aliás, consta em ata que sempre no encerramento da convenção nacional sou eu que falo. Com minhas leves palavras que podem não ser satisfatórias para os intelectuais. Mas falando da tradição e da família, na hora do encerramento, quando todos se abraçam, choram, despedem-se. Isso é um privilégio graças à grande consideração dos tradicionalistas do Brasil.
 
Notisul – A sua família, começando no senhor, já está na quinta geração. É uma família unida?
Tio Preto – Cada um pegou o seu rumo. As filhas estão espalhadas. Umas estão em Joinville, outra em Itajaí, Florianópolis. Mas elas vêm para o rodeio. Fazem essa parte. Respeitam esse laço.
 
Notisul – A família tem quantos integrantes?
Tio Preto – Nove filhos, um falecido, o mais velho, que nasceu em 1949. Tive uma vida longa, estou muito contente da vida. Tenho 24 netos, 28 bisnetos. Aliás, 29. Nasceu mais um nesta semana. E um tataraneto. É uma família completa.
 
Notisul – Ao todos, são quantos associados no MTG?
Tio Preto – São 200 mil. E não paga nada. Quem paga é o CTG. Só paga uma pequena taxa para confeccionar a carteirinha. E qualquer pessoa pode fazer. Se vai em um rodeio que cobre entrada, não precisa pagar nada se apresentar a carteirinha. Tem acesso livre. E cada um tem o seu cargo. Cada um tem direitos e deveres dentro da tradição. Exemplo: o narrador, que tem que estar credenciado. Porque uma pessoa que usa a palavra, e tem um microfone na mão, tem uma arma. Essas pessoas têm que estar preparadas. Fazer cursos. E, se infringir as regras, é desconsiderado pelo movimento.
 
Notisul – E, além do MTG, o que o senhor faz da vida?
Tio Preto – Tenho fazenda, sou pecuarista. E tenho um aterro sanitário. E vivo a minha vida muito bem. Quanto ganho eu não digo, mas vivo bem. Mais importante é ter amigos. Tenho 102 afilhados de batismo. Já fui padrinho de casamento mais de mil vezes. É o tipo de coisa que não se pode dizer não.
 
Tio Preto por Tio Preto
Deus – Tudo.
Família – Quem não tem família não tem vida.
Trabalho – Dever do cidadão.
Passado – A quem eu errei, peço desculpas e agradeço a Deus por ter me dado um bom passado.
Presente – Minha cabeça é uma criança.
Futuro – É viver bem, tratar bem os outros e procurar não errar. 
 
"Eu agradeço àqueles que se preocupam com a tradição. Porque tradição é cultura, e cultura é família. Sem cultura não tem família, não tem nada. E a tradição é uma coisa cara. Tem CTG que se preocupa só com a premiação, mas a festa de rodeio não tem mais lucro. E eu sempre fui contar a alta premiação. Mas dos outros estados, tenho certeza que nenhum tem uma sede própria. E nós temos uma sede social e uma administrativa. Isso muito é muito importante para a tradição e para o estado. Tem estados que a sede do MTG é despejada de um lugar para o outro. E a tradição não é só em Tubarão, em Santa Catarina, é no mundo inteiro. Temos um grupo gaúcho em Los Angeles, com 400 famílias. Temos CTG em Pequim. Em Santa Catarina, temos 553 CTGs filiados, 2.186 piquetes filiados. Temos uma sede importante, reuniões todos os meses. E ninguém ganha um centavo com isso. Nem presidente, nem ninguém. Todos trabalham por amor à camisa. Durante a minha vida, visitei todos os estados pelo MTG. Cheguei a viajar 200 mil quilômetros por ano. Isso sem ganhar um centavo. Tenho uma renda. Ganho pouco, mas sou contente com aquilo que ganho. Espero também que aqueles que vão me suceder façam o mesmo".
 
"A tradição depende do cavalo, depende do boi, e depende do chimarrão”.
 
“Não temos adversários dentro da tradição. Temos adversários, nas eleições, mas no fim todos temos os mesmos objetivos”.