Padre Sérgio Jeremias, 46 anos, exerce o sacerdócio desde 1992. Hoje, ele atua como administrador diocesano em Tubarão. Ele entrou para o seminário quando ainda estava no ensino médio. Cursou filosofia em Tubarão e teologia em Florianópolis. Também é autor de dezenas de livros infantis, religiosos e de autoajuda. É pároco em Vargem do Cedro, em São Martinho, e reitor no santuário da Beata Albertina, em São Luís, em Imaruí. É vice-postulador da causa de canonização.

 
 
 
Karen Novochadlo
Tubarão
 
 
Notisul – Como anda o processo de canonização da beata Albertina Berkenbrok?
Padre Sérgio – Na verdade, Abertina foi beatificada sem a comprovação de um milagre. Isto porque ela foi uma mártire. E agora, para canonizá-la, precisamos da comprovação de um milagre, com todas as etapas exigidas pelo Vaticano. Nós temos muitos milagres, mas o problema é que nos faltam os exames e atestados médicos exigidos. Hoje, nós acompanhamos dois, que ainda se mantêm no anonimato. Estamos em busca das declarações médicas. Muitas vezes, esta é a parte mais difícil. Às vezes, não encontramos médicos dispostos a determinar se há algo sobrenatural ou uma cura. 
 
Notisul – O senhor pode adiantar quais foram os milagres?
Padre Sérgio – É tudo ainda muito sigiloso. Um deles é sobre uma pessoa que estava na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e outro é sobre alguém que tinha um problema crônico há muitos anos. O problema crônico foi curado instantaneamente. Para nós, e para o médico que acompanhou, foi um milagre. Nosso problema está em localizar os exames médicos antigos. Estamos fazendo uma série de pesquisas no hospital onde a pessoa esteve internada.
 
Notisul – A canonização também ajudará no desenvolvimento do turismo religioso da região?
Padre Sérgio – O processo de canonização e a beatificação da Albertina tem trazido bastante fiéis. E, consequentemente, ajudam no desenvolvimento do turismo religioso. O turismo religioso e rural tem progredido muito com isso. Se você me perguntasse se mudaria muito se Albertina fosse canonizada, eu diria que melhoraria muito em termos de conhecimento mundial. Mas o nosso povo já visita muito o santuário. A peregrinização tem fluxo constante o ano inteiro. Não tem baixa estação. Volto a repetir que o poder público precisa despertar para este potencial do turismo religioso, que é anual, não depende de temporada. 
 
Notisul – Geralmente, atribui-se a um santo ou uma causa. Qual será a de Albertina?
Padre Sérgio – Nós divulgamos Albertina como a Patrona da juventude. Porque é uma santa jovem. Irá ocorrer a jornada mundial da juventude, em 2013, no Rio. Nós queremos que ela seja declarada uma das padroeiras. Os jovens visitam muito o santuário, isto já é natural. 
 
Notisul – A Beata Albertina pode ser a terceira santa brasileira.
Padre Sérgio – Nós temos muitos beatos brasileiros. Temos os mártires no Rio Grande do Norte. Canonizados temos apenas Paulina e Frei Galvão. Albertina seria a primeira santa nascida no Brasil. 
 
Notisul – O senhor é um padre bastante moderno, tem um canal no youtube com bastante acessos… 
Padre Sérgio – Na verdade, os meios de comunicação social, as mídias sociais, para mim, foram uma forma de levar o evangelho a pessoas que às vezes não frequentam a igreja, sobretudo aos jovens. Como traduzir a linguagem da fé a uma que interessa os jovens? Este foi o desafio. Então, parti para Youtube, Twitter, Facebook, Google Plus, etc.
 
Notisul – Isso aproximou mais dos jovens?
Padre Sérgio – Os jovens têm muita liberdade para fazer as perguntas, comentar, criticar e falar do que não gosta. É importante que tenhamos esta abertura. Encontramos quem valoriza ou não o trabalho da igreja. Mas eles nos dão muitas pistas do foco de interesse. Não somente para mim, mas para outros padres também, isto se tornou uma janela para enxergar a igreja de uma forma diferente. Ou, em outra comparação, uma porta de entrada para a igreja. 
 
Notisul – É visível a redução do número de fiéis em todas as religiões e igrejas. O senhor acredita que elas têm perdido a fé ou buscado a Deus de outras formas? Como a igreja planeja trazê-las de volta?
Padre Sérgio – Em uma pesquisa de institutos ligados à religião, um deles é o Ceris, do Rio de Janeiro, ficou comprovado que nos últimos anos não houve uma redução de fiéis, mas uma estabilização do número de pessoas que saíam da igreja. Dos católicos no Brasil, apenas 30% são praticantes. Sobram 70% que se dizem católicos, mas não são praticantes. A grande migração em igrejas se dá na esfera dos 70%. Esse é um problema também de outras igrejas. O grande desafio é de como fazer que estes 70% tornem-se membros praticantes. Não podemos nos alegrar apenas com os 30%.
 
Notisul – Estes novos grupos de evangelização assemelham-se às pastorais? 
Padre Sérgio – Existem pastorais, mas sobretudo novas comunidades de vida e aliança, que surgem ligadas à renovação carismática católica. Nós dizemos que o Espírito Santo sempre procura uma maneira de nos mostrar o caminho. Nunca imaginávamos que a vitalidade dessas novas comunidades iria ser tão grande. Elas surgem no Brasil e no mundo inteiro. São dinâmicas e traduzem a fé numa linguagem atual e elas têm vocações. Isso não permite que a igreja envelheça. 
 
Notisul – Como funciona?
Padre Sérgio – Existem as pastorais tradicionais na igreja e existem os movimentos, que, a partir de uma experiência com o espírito santo, abraçam determinado carisma, como as congregações religiosas faziam no passado. Só que estes movimentos, normalmente, têm um fundador e formas diferentes de pertença. São casais que se consagram neste tipo de trabalho, pessoas leigas, solteiras, consagrados, padres, irmãos. Elas fazem um encontro com Deus e depois sentem a necessidade de se consagrar na evangelização. 
 
Notisul – Nas últimas décadas, vimos que a configuração da família está mudando, com aumento do número de divórcios, casais homossexuais. Como a igreja está vendo tudo isso?
Padre Sérgio – Nós temos que perceber o seguinte: não só a igreja católica, como todas as igrejas, têm claro um modelo familiar apresentado por Deus na sagrada escritura. O modelo tradicional pregado pela igreja é pai, mãe e filhos. Existem as famílias que poderia dizer que estão incompletas porque faltam um dos dois. Não deixam de serem famílias. Elas só não se equiparam com a ideia sacramental de matrimônio. Isso a igreja nunca vai compreender ou aceitar. Existe também aquele modelo de agrupamentos familiares de outra forma. Elas têm também o seu valor, porque as pessoas no fundo só querem se sentir amadas por alguém. A igreja nunca exclui outras pessoas. Ela não vai aceitar com valor sacramental formas diferenciadas de família. Todas estas formas e constelações familiares que surgem são acolhidas com misericórdia dentro da igreja. Uma coisa é concordar com tudo, outra é você acolher a pessoa. 
 
Padre Sérgio por Padre Sérgio
Deus – Para mim, é a razão do meu existir, da minha vida.
Família – Espaço de experimentar este Deus.
Trabalho – É o motivo da minha realização. Sou realizado como padre.
Passado – Eu não me arrependo de nada do que vivi. É uma escola.
Presente – Eu procuro viver intensamente o dia de hoje. 
Futuro – Para mim, é muito claro: está sempre nas mãos de Deus.
 
"Jesus mesmo disse que precisava deixar as 99 ovelhas para buscar aquela que se extraviou e foi para outro caminho. Esta é sempre a liberdade da pessoa aceitar ou não. O desafio – o papa tem falado muito sobre isso – é como traduzir o conteúdo da fé numa nova evangelização."