Foto: Priscila Loch/notisul
Foto: Priscila Loch/notisul

Perfil
Ele poderia ter seguido carreira no Exército, como bancário e até na política. Mas falou mais alto o amor pela comunicação, que surgiu quando ainda era um menino e já dura 50 anos. Neste período, trabalhou nas rádios Tabajara, Tubá e Verde Vale. Foi correspondente dos jornais A Notícia, o Estado e Santa Catarina. Escreveu no Tribuna Sulina, no O Popular, de Imbituba, e no Notisul, inclusive quando era semanário. Foi um dos sócios-fundadores do Notisul quando passou a ser diário. Também foi um dos fundadores da Tabajara FM (hoje Nativa) e da Rádio Verde Vale, de Braço do Norte. Foi assessor especial do ex-prefeito Estener Soratto, de 1989 a 1992. Hoje, aos 67 anos, é sócio e apresentador na Rádio Santa Catarina, e colunista nos jornais Diário do Sul, No Ponto (Braço do Norte), O Município (Jaguaruna), Regional Sul (Armazém) e da Cidade (Tubarão), além do site ex-improviso. Um currículo e tanto!

Priscila Loch
Tubarão

Notisul – Seu Arilton, são 50 anos de profissão. Como iniciou essa história?
Arilton –
Comecei com 12 anos. Eu era escoteiro e fui convidado para fazer um programa com o chefe Souza, na rádio Tabajara. Acabei gostando. Quando eu tinha uns 14, a Tabajara fez uma espécie de seletiva. Tinha muita gente e nem imaginei que eu passaria. Passamos em três: eu, Sedenir Figueiredo – que depois passou num concurso e foi trabalhar na Caixa Econômica – e João Batista Zim Neves – que foi locutor, narrador esportivo e acabou saindo também depois de fazer concurso público para a Eletrosul. Só eu fiquei. Comecei fazendo plantão esportivo. Não tinha nem a carteira assinada, nem programa fixo. Depois, comecei a trabalhar como repórter de campo e fui pegando experiência. Até que fui servir o Exército. Fiquei um ano e logo depois abriu um concurso para sargento. Eu passei, só que foi cancelado por fraude. Isso em 1970. No final do ano – a BR-101 nem era asfaltada – eu vim em casa – tinha namorada em Tubarão, hoje minha esposa – e encontrei com o Valmor Silva, que me convidou para voltar para o rádio. Acabei voltando de Porto Alegre. Daí peguei um programa fixo de manhã na Tabajara, musical, de variedades. E assim foi até 1974. A rádio tinha os transmissores na volta dos circulares, na Marechal Deodoro, depois da ponte do Morrotes, e a água da enchente levou tudo. Ficamos sem poder trabalhar. Apareceu o agora falecido Holandês, coordenador do movimento escoteiro aqui na região, e me convidou para que eu fosse executivo na União dos Escoteiros do Brasil. O ex-governador Pedro Ivo Campos, presidente de honra do movimento em Santa Catarina, fez um projeto de lei para expandir o movimento e, para isso, precisava de alguém que conhecesse. Mas nessa época eu tinha carteira registrada na rádio Tabajara, só que por causa da enchente a rádio não estava funcionando e ia demorar a funcionar. A proposta era para eu ganhar cerca de seis vezes mais que o salário da rádio. Acabei aceitando e participei da fundação de uns dez grupos de escoteiros. Eu tinha seis horas de serviço e um dia recebi uma ligação do professor Névio Capelé, que era diretor Tubá e me fez uma proposta para fazer uma ponta no Jornal das 12, ao meio-dia.  O contrato com a união dos escoteiros era de 12 meses, possível de renovação, só que eu não sabia que se renovasse seria mandado para Chapecó. Durante um tempo, trabalhava na rádio de manhã e com os escoteiros à tarde. Eu tinha uns 20 anos, foi após o Exército, depois de eu trabalhar no Sul Banco, em Porto Alegre. Fui bancário por oito meses. Daí, quando queriam me mandar para Chapecó, Névio me chamou perguntando se eu não queria pegar o programa das 7 horas, muito forte na região, o número 1 da época, no fim de 1975. Aceitei o desafio e quando venceu o contrato com os escoteiros eu não quis renovar. Apareceu outra oportunidade dentro da própria rádio Tubá, de vendedor. Trabalhei de vendedor dez anos na Tubá. Eu tinha o melhor salário da rádio e só saí porque me apareceu a oportunidade de ser sócio de outra rádio, em Braço do Norte, de comprar uma cota da Verde Vale. Isso em 1984

Notisul – É uma história e tanto de trabalho. Qual a importância de receber uma homenagem da Associação Catarinense de Imprensa?
Arilton –
Foi muito gratificante. Devo ao Iberê Aguiar Jaques. Se não fosse por ele, ninguém iria lembrar-se de mim e eu também não pediria nada a ninguém.  Primeiro que a nossa classe não é muito unida. Segundo que a imprensa não é valorizada, Iberê foi o grande responsável por isso, insistiu, mesmo eu relutando. Estiveram o presidente da Associação Catarinense de Imprensa, Ademir Arnon, o jornalista Moacir Pereira e muitas outras lideranças e autoridades. Fiquei muito feliz, extremamente emocionado, até porque todos sabem que minha mãe faleceu no dia 7 de agosto deste ano e meu pai no dia 30 de setembro, tudo muito recente. 

Notisul – Ter o trabalho valorizado dá uma sensação de dever cumprido.
Arilton –
Numa sexta-feira, 4 horas da tarde, depois de uma sessão na câmara demorada, ver praticamente cheio o auditório da Acit, que cabe 120 pessoas, é muito gratificante. Estavam lá o presidente da Câmara ade Vereadores, o prefeito, desembargador, o maior empresário da cidade, prefeitos de outras cidades…

Notisul – Nesse meio século, o que mais marcou a sua carreira? Imagino que a enchente tenha sido o principal.
Arilton –
A enchente marcou muito. Eu era correspondente do jornal de Santa Catarina, de Blumenau, e já estava na rádio Tubá. Mas tive várias passagens marcantes além da enchente, muitas coisas boas também. Em 1991, o papa João Paulo 2º esteve em Florianópolis e mais de 300 jornalistas foram credenciados para a cobertura. O papa fez uma audiência privada e sortearam três jornalistas entre os credenciados. Eu fui um deles, tenho foto em que o papa está a cinco metros de mim. Foi muito emocionante. Fui o primeiro a trazer o Lula em Tubarão, quando ele era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. Eu trabalhava na Tubá, tinha um programa chamado Entrevistão, aos sábados. Entrevistei Romário, o ex-presidente João Figueiredo, muita gente. Tudo isso dá uma bagagem muito legal e importante para o autoconhecimento.

Notisul – Aos 67 anos, o senhor tem planos de desacelerar?
Arilton –
Ainda tenho um trabalho que quero diminuir. Levanto às 5h30min desde 1975. Minhas primeiras férias tirei com 41 anos. Isso porque eu fazia futebol, não tinha como parar e, quando parava, vendia as férias para fazer um dinheirinho, para dar educação para minhas filhas, dar um presentinho para elas. A primeira vez que tirei férias foi em 1991. Eu, minha esposa, meu irmão e minha cunhada fomos para a Europa. Eu me aposentei com 38 anos e meio de carteira assinada ou carnês pagos. Nesses 38 anos e meio, eu nunca apresentei um atestado médico. Agora, desde 91 tiro férias todo ano e estou querendo tirar até duas vezes por ano. Outro detalhe é que de 1975 até hoje eu faço programa às 7h da manhã e nunca cheguei atrasado, graças a meu relógio e à minha esposa. Tenho um respeito muito grande pelo ouvinte. Muitas pessoas me dizem que sou o despertador delas, e isso me dá responsabilidade. Não importa se eu tenho um ou 100 mil ouvintes, o fato é que tenho que estar no ar às 7 da manhã. O meu programa começo um dia antes, o produtor do programa sou eu mesmo. Nunca tive produtor. Aliás, produtor hoje é a internet.

Notisul – Eu ia perguntar justamente isso para o senhor. Com a internet, está muito mais fácil, não é verdade?
Arilton –
Antes, tinha que cavar informações, escutar as rádios do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul para saber o que acontecia. Se o presidente ficasse doente, por exemplo, íamos saber dez horas depois. Hoje, sabe-se na hora. A diferença é muito grande. Pessoas de mais idade têm certa resistência em mudar. Se você perceber, à minha direita na minha sala tem uma máquina de escrever, ela me dá mais agilidade para fazer o trabalho. O computador precisa ligar, demora um pouquinho. A máquina é só colocar a folha, é muito mais rápido. Mas eu não sou avesso a mudanças. Adaptei-me ao computador.

Notisul – Por outro lado, a internet também atrapalha em determinadas situações.
Arilton –
As redes sociais sim. Primeiro, falta responsabilidade das pessoas. Segunda, ocupa muito tempo e muitas vezes não tem o que se aproveitar. Eu uso bastante as mídias sociais, mas é preciso estar atento, pois se ficar muito tempo conectado o dia de 24 horas acaba sendo reduzido a 18.

Notisul – Como o senhor visualiza o futuro do rádio?
Arilton –
Quando surgiu a televisão, todos diziam que o rádio iria acabar. Não acabou. Depois, veio a internet e novamente disseram que iria acabar. Não acabou. O rádio nunca vai acabar, porque, diferente do jornal, da televisão, das redes sociais, é o único veículo que as pessoas conseguem ouvir sem precisar desviar os olhos ou colocar as mãos. A pessoa entra no carro, liga o som e vai embora. A dona de casa, a empregada doméstica faz tudo o que quer ouvindo rádio. Em breve, a rádio Santa Catarina passará para FM, só estamos esperando que o governo nos dê a autorização. Vamos melhorar a qualidade do nosso som, que hoje já é bom. Provavelmente, vamos mudar para o centro da cidade, porque a FM é totalmente diferente da AM. Se bem que temos a proposta de fazer na FM o que fazemos na AM hoje.

Notisul – O senhor foi candidato a vereador em 1976. Como era naquela época?
Arilton –
Eram 11 vereadores, não tinha salário, mas eles negociavam muito. Seis deles eram presidentes de sindicatos. Até 1976, eu só havia feito esporte. Daí, quando me surgiu a oportunidade de fazer política, eu não tinha muita experiência. E nada melhor que participar para aprender. Optei por me inscrever na Arena – na época era Arena o MDB – e fui ser candidato a vereador. Só que na Rádio Tubá tinha o Luiz Napoleão, que já tinha sido candidato várias vezes, mas não tinha conseguido se eleger. Naquele ano, ele disse que não seria mais candidato. Mas acabou que ele foi e dividimos o campo que tínhamos. Ele não se elegeu de novo e eu perdi por 17 votos. Não comprei um voto sequer. Tem uma história daquela época que nunca esqueci. Eu era correspondente do jornal A Notícia e apareceu na minha casa uma senhora dizendo que meu filho tinha desaparecido. Eu pedi uma foto dele, fui ao Correio, paguei do meu bolso para enviar para o jornal. Resumindo, ela encontrou o filho em uma clínica em São José. Eles me ligaram e a levei para buscar o filho. Eu nem sabia que seria candidato. Resolvi ajudar como ajudaria qualquer outra pessoa. Sou da ideia de que o que a mão direita faz a esquerda não precisa saber. Pois essa mãe, quando fui candidato, apareceu na minha casa quando eu estava almoçando. Mandei entrar e começamos a conversar, até que ela me disse: “Eu queria pintar a minha casa e quem sabe o senhor me dá a tinta. Tem muitos que oferecem, mas quem sabe o senhor me dá para eu votar”. Fiquei indignado e perguntei se a sala da minha casa não precisava de uma pintura. Ela respondeu que sim e eu disse: “Não pinto porque não tenho dinheiro e a senhora que fique com seu voto e me dê licença que quero terminar de almoçar”. A mulher saiu brava, com certeza não votou em mim, e a minha mulher disse que daquele jeito eu não me elegeria. Eu respondi: “Se for pra me eleger assim, eu não quero”. Fiz 503 votos.

Notisul – E depois nunca mais quis concorrer?
Arilton –
Não. Por muitos motivos. Talvez se eu tivesse enveredado nesse mundo da política não estaria com minha mulher, porque ela não permitira que eu fosse de mala e cuia para Florianópolis e ela ficasse em Tubarão. Eu não me arrependo de nada que eu fiz. Pelo contrário, sou muito feliz.