Amanda Menger
Tubarão

Notisul – Como você consegue mobilizar mais de 40 mil pessoas para trabalharem voluntariamente nas pastorais que coordena?
Zilda Arns
– Eu sou a mulher mais amada do Brasil (risos). Acho que uma obra social precisa começar bem e a Pastoral da Criança, eu como médica sanitarista e pediatra, tinha uma idéia de como deveria ser organizada, pela experiência e pelo conhecimento que tinha. A pastoral surgiu unindo a fé com a vida. Porque voluntariado precisa ter o fogo pessoal. Temos voluntários em tempos de enchente, de catástrofes, mas ter um grupo animado e mobilizado o ano todo, é preciso ter algo mais.

Notisul – E como surgiu a pastoral?
Zilda Arns
– Quando eu recebi a incumbência de Dom Paulo Evaristo Arns de como ensinar as mães a preparar o soro caseiro que foi considerado o maior avanço da medicina do século 20, então eu disse que não era só com o soro que se salva uma criança. É preciso fazer pré-natal, cuidados com nutrição, vacina. Eu pensei então: como fazer as informações chegarem às mães e tirei inspiração no Evangelho que trata da multiplicação dos pães e peixes. E ele fez isso organizando grupos, e depois pedindo que cada um trouxesse o que tinha. O nosso objetivo era que as famílias tivessem autonomia. Alimentassem com leite materno, vacinassem as crianças quando tivessem campanhas e não apenas quando fossem distribuídas cestas básicas. Conversassem com os filhos e não batessem neles. Pensamos então em multiplicar o conhecimento científico e disseminar a mística do amor fraterno. Assim a pastoral surgiu, organizada em pequenas comunidades, com líderes que cuidam no máximo de 13 crianças e gestantes atualmente.

Notisul – Como foi mostrar que esta idéia dava certo?
Zilda Arns
– Para conquistar apoio e espaço na igreja católica, eu precisava ter um sistema de informações científicas e que provasse os resultados. Porque não adianta mobilizar e não medir o resultado. Já na primeira ação, em Florestópolis, no norte do Paraná, que tinha a mais alta mortalidade infantil do estado, com 128 mortes a cada mil nascidos vivos, medimos os resultados. Quando apliquei o projeto-piloto, reduzimos para 28 mortes por mil. O Unicef internacional nos visitou, gostou muito do projeto e parabenizou a iniciativa. Centralizamos a burocracia e descentralizamos as ações. Os voluntários só se preocupam em fazer.

Notisul – O que garante o sucesso da pastoral?
Zilda Arns
– Tem alguns fatores. Um deles é a definição de objetivos. Agora, são 25 anos de fidelidade aos objetivos. Queríamos reduzir a mortalidade infantil, a desnutrição e a agressão familiar. Nós também alfabetizamos as pessoas. São 14 mil alunos conosco. Isso porque acreditamos que pessoas alfabetizadas conseguem entender melhor e repassar as informações de forma correta, assim, a mãe tem autonomia para tratar a sua família. Um segundo fator é o sistema de capacitação, com o Guia do Líder, que já foi traduzida para quatro línguas. O terceiro é o sistema de informação, que podemos medir e monitorar os resultados, e isso é feito por meio das fichas preenchidas, com informações como peso ao nascer, aleitamento materno, vacina, desenvolvimento infantil de acordo com a idéia e o tratamento de diarréias.

Notisul – O que a motivou a criar a pastoral?
Zilda Arns
– Quando eu terminei a faculdade de medicina, em 1959, observava que o Brasil gastava muito dinheiro com internações por coisas muito simples como a desnutrição e diarréias. Sempre escolhemos as três maiores causas da mortalidade infantil e elas estão no nosso foco. Uma destas causas é o parto, porque as mães muitas vezes não fazem o acompanhamento durante a gestação. A mortalidade infantil, hoje, diminuiu muito, a situação está melhor, mas ainda não é o ideal. Estamos em 25 mortes a cada mil; quando começamos, era 80 por mil. O número de filhos reduziu também e o analfabetismo também caiu. Há 25 anos, quando eu chegava em uma comunidade no Pará, por exemplo, apenas uma pessoa sabia ler, hoje é o contrário. O que falta no Brasil é qualidade na educação.

Notisul – E, para você, o que seria esta escola de qualidade?
Zilda Arns
– Precisa de mais transversalidade na escola. A criança precisa aprender sobre saúde, meio ambiente, jogos, música, artes. Precisa ter oportunidades para desenvolver todos os seus talentos. Eu diria que a escola de qualidade é como a que eu cursei em Forquilhinha. Aprendíamos não apenas o conteúdo, tínhamos aulas de música, eu até cantava em um coral e éramos convidados para cantar em outros lugares e ficávamos fascinados porque ganhávamos gasosa, que não tinha em Forquilhinha.

Notisul – A pastoral da pessoa idosa também foi um projeto seu. Como está este trabalho?
Zilda Arns
– Esta pastoral foi criada há quatro anos, em decorrência de uma campanha da fraternidade que tinha o idoso como tema. No mesmo ano, foi aprovado o Estatuto do Idoso e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) recebeu muitos pedidos para que fosse criada uma pastoral para a pessoa idosa. Porque nós tínhamos um trabalho desenvolvido em pequenos grupos. Isso influenciou no próprio cumprimento deste estatuto. Porque o poder público acaba sentindo-se pressionado a tomar providências, pois tem o trabalho da pastoral que faz capacitação, ou seja, dissemina a informação sobre o estatuto e leva isso até os mais pobres. Nós trabalhamos em rede. Os líderes visitam, em média, dez idosos por mês para saber como estão sendo tratados. Já estamos com 15 mil líderes nesta pastoral. Tem municípios que os idosos organizam-se e protestam, exigem o cumprimento e aprovação de leis, nas câmaras municipais.

Notisul – Um tema polêmico, que inclusive deverá ser votado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ainda este ano, é o aborto. A Pastoral da Criança coloca-se, assim como a igreja católica, contra a aceitação sob qualquer alegação. Deve ser feito algum tipo de mobilização especial nos próximos meses, com vistas neste julgamento?
Zilda Arns
– É provável que sim. Quando acompanhamos as gestantes, fazemos um trabalho especial. De tantas em tantas semanas, as mães recebem uma carta. A idéia é simular, como se o feto estivesse escrevendo a ela, contando como ele está se desenvolvendo. Este trabalho, chamado Laços de Amor, tem evitado que muitas mulheres façam o aborto. Muitas resolvem praticar este ato contra a vida porque já têm muitos filhos e são pobres. Precisamos trabalhar mais na prevenção, por isso falo que a educação é tão importante. O aborto é um crime, não apenas contra a criança, que tem direito à vida, mas contra a própria saúde da mulher. Estudos feitos em países que liberam o aborto – e ele é feito em hospitais, com auxílio médico – mostram que as mulheres que passaram por este procedimento têm muito mais chance de desenvolver câncer de mama. Isso ocorre porque as células multiplicam-se no seio para ativar a produção de leite para amamentar a criança; mesmo com o aborto, este processo de multiplicação não é interrompido logo e isso facilita o aparecimento do câncer.

Notisul – A senhora foi indicada ao prêmio Nobel da Paz pelo trabalho realizado junto às pastorais. A da criança é agora também um órgão internacional. Por que não recebeu a premiação? Faltou alguma coisa?
Zilda Arns
– A pastoral foi indicada quatro vezes. Mas nós ganhamos o prêmio todos os anos quando cinco mil crianças deixam de morrer por desnutrição, graças ao trabalho que fazemos. Este é o verdadeiro prêmio. Há uns dois anos, eu recebi o prêmio Fé e Empreendedorismo, da Universidade Católica Notre Dame, de Chicago, de U$$ 1 milhão, que eu doei para a Pastoral Internacional. O prêmio em dinheiro é concedido pela Family Foundation. E o valor é o mesmo do Nobel da Paz. Os alunos fazem uma pesquisa para saber quais pessoas no mundo desenvolvem trabalhos ligados à fé com bons resultados e eu fiquei na lista dos 100 mais, depois na dos dez mais e, por fim, fui escolhida. O grupo veio passou três dias aqui conhecendo o lugar. O Nobel é um prêmio político. E a Pastoral da Criança, apesar de muito conhecida, faz um trabalho de formiguinha que só é reconhecido e valorizado pelas comunidades locais. Mas não fiquei triste, não. O nosso trabalho é feito com muito amor.