Clairton Antonio da Motta, empresário, fundador e presidente da Vipel

Perfil
O seu nome é Clairton e o sobrenome trabalho. Foi assim que o empresário tubaronense conquistou tudo o que tem hoje. Nada caiu do céu, foi preciso abdicar de muita coisa, sem abrir mão de virtudes que considera essenciais. Hoje, ele comanda a Vipel em parceria com os dois filhos. A empresa possui 160 colaboradores e representa muito na economia da cidade. Humilde acima de qualquer coisa, Clairton não tem receio de expor a sua opinião sobre o que julga ser requisito básico para o município evoluir, desenvolver-se.

 

Priscila Loch
Tubarão

Notisul – A sua empresa foi fundada há quase quatro décadas. Qual o segredo para permanecer tanto tempo no mercado e prosperar?
Clairton – Algumas conspiram para te levar a situações durante a vida. Muito jovem, com 21 anos, resolvi abrir uma empresa. Eu tinha um amigo que trabalhava com vidro em Laguna e convidou para colocar um negócio aqui. E abrimos uma vidraçaria. Começamos com uma caminhonete velha. Eu era recém-casado, vendemos a casa e compramos um pouco de vidro. Mas, seis meses depois que abrimos o negócio, quebramos. Fizemos um grande serviço para um cliente, mas ele acabou recebendo o dinheiro e não nos repassou, fugiu. Aí vendemos a caminhonete e pagamos as contas. Por isso que falo que alguns fatos vão conspirando. Era uma pequena sala alugada e eu estava esperando o dono chegar para entregar a chave. Aí passou uma pessoa oferecendo vidro para vender. Era uma empresa de Florianópolis que tinha aberto uma filial em Criciúma e queria arrumar alguém em Tubarão para vender. Ele disse que mandaria alguns vidros na segunda-feira e no sábado passaria para medir as vendas e cobrar. Eu tinha trabalhado em uma empresa de medicamento antes, fui lá e consegui uma bicicleta de cargas. Aí peguei um menino para trabalhar comigo, colocava na garupa segurando a massa e os vidros na frente. Trabalhamos uns dois, três anos nesse sistema. Mas normalmente eu ia sozinho, o ajudante tinha outras funções, trabalhava à noite e alguns dias não ia. Começamos a trabalhar com molduras, fazendo quadros. Na época, tínhamos uma visão já um pouco diferente de mercado. Nas festas de igrejas, eu comprava estampas com figuras dos santos, fazia os quadros e ia para frente vender. Naquele tempo, a maneira que eram vistos os times de futebol era um pouco diferente. Quando um time era campeão, a gente fazia muitos quadros. Também fazíamos espelhos para vender de casa em casa.

Notisul – Quanto tempo depois de quebrar você pôde respirar mais aliviado?
Clairton – Uns 12 anos. Tomamos uma posição de não vender para órgãos não governamentais, para não ter que dar presentes para poder ganhar. Nesse caso, o longo prazo passa a ser um pouco mais longo o retorno.

Notisul – Por que essa decisão de não vender para órgãos governamentais?
Clairton – Meu avô, analfabeto, era um homem de uma correção muito grande. Ele vendia peixes de carrinho de mão e eu o ajudava. Marcaram muito os conselhos que ele me dava. Ele era um sábio, contava histórias sobre a maneira de ser sério, de ganhar a vida corretamente. Naquela época, se tinha muito mais medo do pecado e o mundo mudou muito quando se passou a não ter mais tanto medo do pecado. Já meu pai foi um homem criado com muitas dificuldades e era ríspido com a gente. Eu resolvi fazer sempre ao contrário ao longo da minha vida, para criar meus filhos. Eu e meus dois filhos somos sócios, tocamos a empresa juntos e resolvemos manter esse conceito. Temos respeito com o ser humano. Ser correto e honrado nada mais é que uma obrigação, não é uma virtude. Temos uma origem muito humilde e continuamos assim. Temos um conceito de empresa. Sou convidado a ir a escolas conversar com crianças e falo para elas essa lição muito importante que tive na minha vida. Quando eu trabalhava com meu avô vendendo peixe num carrinho de mão, ele resolveu comprar uma carroça e assumiu o compromisso de pagar numa data x. No dia marcado, mesmo chovendo, ele me acordou e fomos de Oficinas até o Km 63, a pé, para pagar. Depois, com 12 anos, fui trabalhar numa lenheira, a gente vendia de casa em casa. Fui trabalhar com um senhor e com aquela serragem que sobrava plantávamos alface no quintal dele. Quando deu muito alface, ele me ofereceu que eu ganharia uma cesta a cada três vendidas. Em dois dias, vendi tudo e na época ele disse que eu era minha criança e não me pagou tudo. Fui para casa e no dia seguinte não fui trabalhar porque ele não cumpriu o que tinha acordado. Depois, ele acabou se machucando e pediu para eu voltar a trabalhar com ele. Aceitei com a condição de que ele me pagasse o que me devia. Dou dois conselhos para as crianças: honrar os compromissos e cobrar o que foi tratado. Tu só tem direito de cobrar o que te devem. A oportunidade existe para todos, basta a pessoa ter compromisso, querer fazer diferente.

Notisul – O que diria para alguém que quer empreender mas não tem recursos suficientes para investir?
Clairton – Primeiro, trabalhar, não desistir. Não existe uma regra pronta, tem que se adaptar. Os sonhos têm que ser perseguidos à vida toda. Durante a vida, talvez se tenha mais tropeços do que passos para frente, mas a pessoa tem que pensar que a vida é um degrau, e sobe-se um por um. Se subir muito rápido, pode ter um degrau frágil, cair e talvez tenha que começar bem de baixo. Sonhar e buscar a sua realidade. Temos famílias tradicionais em Tubarão que os filhos ganharam tudo e não deram sequência ao trabalho do pai, e tem pessoas que não tiveram nada de herança e trabalharam muito para adquirir. Não precisa descobrir nada muito novo ou ser nenhum gênio, basta fazer melhor do que já existe no mercado. Fomos criados para dar sequência ao trabalho dos pais, trabalhar na Souza Cruz, na Eletrosul, na Estrada de Ferro. Era tudo engatilhado para isso, não para sermos empreendedores. Temos uma universidade, mas acho que as pessoas são mal aproveitadas, não têm oportunidades, não conseguimos reter os grandes talentos por aqui. Brincamos que nossa empresa foi de puxadinho, pois não projetamos lá na frente, considerávamos impossível ter uma empresa como temos hoje. Quando fizemos a primeira parte me perguntei: “será que isso é meu mesmo?”. Pagamos algumas coisas por não ter planejado o crescimento. O ideal é planejar muito lá na frente, ser ousado e depois fazer por etapas.

Notisul – E como você lida com o fato de ser uma empresa familiar?
Clairton – Somos uma empresa familiar com administração profissional. Cada um tem a sua função específica, responsável por um setor. Vivemos do nosso salário, não misturamos empresa com particular. Temos acordos entre nós, um importantíssimo é que não trabalha cônjuge na empresa, e filho só se tiver capacidade. Uma empresa familiar tem que ser movida por capacidade, não por ser filho. Em todas as decisões a serem tomadas, dois votos vencem. Não tem influência maior, os pesos são iguais.

Notisul – É muito claro que você trabalha muito. Considera-se viciado em trabalho?
Clairton – Sou. Sempre trabalhei 14, 15 horas por dia, minha vida sempre foi isso. Faço tratamento com psicólogo até hoje por isso. Ele me ensinou na primeira etapa que eu não viria mais domingo à empresa. Aí comecei a não vir mais no domingo. Depois, ele disse para ir no sábado só quando tivesse alguma função muito específica que precisasse da minha presença. Hoje, já estou conseguindo não vir sábado e domingo.

Notisul – E quantas horas trabalha por dia hoje?
Clairton – Umas dez, 12 horas. E levo serviço para casa. A parte de desenvolvimento de produtos sou eu que faço e a inspiração não tem hora certa para vir, vem à noite, de madrugada… Tenho uma mesa montada em casa onde faço esse trabalho. Durante o dia, como temos multifunções, tem soluções que só surgem depois.

Notisul – Como você se deu conta de que precisava dar uma desacelerada?
Clairton – Foi uma decisão de mudar de vida, queria dedicar um pouco mais de tempo para mim. Sempre tive algumas dificuldades nesse sentido. Meu pai ficou doente por 15 anos e cuidei dele. Depois minha mãe, cuidei dela também uns seis, sete anos. Eu nunca tive tempo pra mim. Resolvi, cinco anos atrás, contratar alguns profissionais para a empresa. Mas não foi muito bem e tive que retomar o trabalho. Tenho um projeto de vida de ir diminuindo, não vir trabalhar alguns dias. Hoje, trabalho segunda, quarta e sexta-feira na empresa e terça e quinta visito clientes. Sou feliz com a vida que tenho. Moro num lugar maravilhoso, mais no interior, e só tenho a agradecer pela minha origem, minha história. Não tenho por que reclamar. Eu ainda não arrumei uma coisa melhor para fazer do que o que faço no trabalho, realizo-me a cada produto novo que desenvolvemos, a cada solução encontrada.

Notisul – A economia da cidade está no caminho certo?
Clairton – Em Tubarão, temos quase tudo e não temos nada. Somos perto do mar, mas não temos mar. Somos perto da serra, mas não temos serra. Penso que o turismo poderia ser muito melhor aproveitado com as águas termais. Somos muito fortes na área de comércio, de saúde, temos hospitais, clínicas e médicos de referência. Mas Tubarão precisa ser mais empreendedora, criar coisas diferentes. Nós temos quase tudo, mas ao mesmo tempo não temos nada. Tubarão se envolve mais com as causas dos municípios próximos do que com a própria situação. Temos que pensar mais na cidade, ser um pouco mais egoístas. No shopping, por exemplo, superimportante para nós, quase não temos empresas daqui. Temos grandes lojas, mas muitos empresários ainda não despertaram para um comércio maior. Nós é que teríamos que ir pra outras regiões, não o contrário. Ainda bem que existe um pouco de esperança que isso mude, em longo prazo. De vez em quando, vou com meu filho nas reuniões dos jovens empreendedoras e realmente há uma esperança, a juventude está mais entusiasta. Eu nunca vi esse movimento em Tubarão como nos últimos anos, de jovens empresários interessados em trazer coisas diferentes.

Notisul – E com relação à crise, como você avalia esse momento turbulento que o país passa?
Clairton – A crise veio para a gente repensar. Já estava instalada há um longo período e se tornou pública. Houve uma mudança de conceitos. Antes, quase não tinha trabalhadores que ficavam na empresa dez, 15, 20 anos. Eles migravam de um lugar para o outro por pouca coisa. Era uma falsa ideia de excesso de oportunidades de empregos. É uma hora boa para os sindicatos darem mais treinamentos, investirem em mão de obra. Para mim, o governo não precisa ajudar com nada, basta não atrapalhar, e no momento está atrapalhando. A hora que para de atrapalhar o Brasil volta ao normal, não chegamos ao fundo do poço. No fim, vai ser um aprendizado. As empresas vão ficar mais fortes.