Bertoldo Weber
e Liliane Dias

Santa Rosa de Lima

Notisul – Como foi iniciada a produção de orgânicos na região?
Adilson Maia Lunardi
– Em 1996, a sociedade civil e o poder público da região das Encostas da Serra Geral buscaram novas alternativas para o seu território. Na agricultura, o individualismo e a corrida para o aumento da produtividade com o uso de insumos químicos geraram problemas e pouca qualidade de vida. Como forma de reação à situação, nasceu uma organização solidária e pela preservação da vida e da natureza: a Associação dos Agricultores Ecológicos das Encostas da Serra Geral (Agreco).

Notisul – E a produção e comercialização dos produtos?
Adilson
– Qualidade de vida era preocupação que vinha desde 1991, quando um caminho de aproximação entre os que foram para a cidade e os que ficaram no campo desenhou-se pelo congraçamento, através da 1ª Gemüse Fest. A partir daí, outras parcerias nasceram e se fortaleceram. Em setembro de 1996, um grupo de agricultores aceitou o desafio feito por um supermercadista, natural do lugar, de produzir hortifrutigranjeiros de forma organizada e ecológica. Com as primeiras produções realizadas por quatro famílias, em dezembro do mesmo ano, nasceu a Agreco, que passou a abranger os municípios situados às cabeceiras dos rios Braço do Norte e Capivari e com sede em Santa Rosa de Lima.

Notisul – E a evolução dos orgânicos?
Adilson
– Através da Agreco pode-se observar a evolução no segmento de alimentos orgânicos. As primeiras produções foram de hortaliças, as quais seriam vendidas para uma rede de supermercados, através de uma forte parceria. Deu certo.

Notisul – Anos depois, houve momentos difíceis?
Adilson
– Sim, difíceis. Após algum tempo, a rede de supermercados fechou e a Agreco enfrentou dificuldades comerciais, havendo a necessidade de mudar. Houve uma grande redução de sócios. Produções de hortaliças orgânicas por agricultores independentes, em regiões próximas à Grande Florianópolis, também contribuíram.

Notisul – Com a crise chegou a mudança?
Adilson
– A mudança foi radical, porque o mercado, que era inovador, ficou saturado. Por se tratar de produtos de consumo com validade de sete dias, o mercado também era limitado. Foi aí que surgiu a idéia de trabalhar com produtos não-perecíveis.

Notisul – Então, o que mudou?
Adilson
– Foi criada uma nova estrutura logística. Expandiu-se a área comercial, já que antes atendia apenas Santa Catarina. Começamos a atuar em todo o litoral brasileiro. Os produtos que antes tinham sete dias de validade atualmente possuem dois anos. Isso contribuiu para a comercialização. Além disso, a variedade dos produtos (ampliou) e a sensibilidade para ver o que uma família precisa aumentaram. O campo dos orgânicos é grande e falta um espaço enorme a ser conquistado.

Notisul – E as famílias rurais associadas?
Adilson
– Com a crise, demoramos para conquistar novos parceiros. Na transição, passamos a contar com apenas 25 famílias no novo sistema e foram necessários treinamentos e conhecimento para lidar com a nova fase. Hoje, contamos com 100 famílias no sistema de produção e 50 preparam-se para entrar na rede de agroindústrias.

Notisul – Qual o investimento necessário?
Adilson
– O mais importante em um produto orgânico é confiar nele. Aqui na região as pessoas já conheciam, mas para entrar em um mercado novo e distante era necessário um certificado de garantia.

Notisul – Como se dá o processo de certificação?
Adilson
– As famílias que se interessam pela produção orgânica, primeiro, passam por uma formação. São passadas informações sobre cooperativismo e produção orgânica. Após, os agricultores produzem segundo as normas de produção orgânica, com orientação de um profissional da Agreco que cuida do serviço de controle interno para certificação. Na propriedade, são mantidos registros dos processos de produção e comercialição para assegurar a rastreabilidade. O serviço interno de controle sofre auditoria de um órgão externo, que verifica a documentação e inspeciona as propriedades e agroindústrias para verificar se tudo está conforme as normas de produção orgânica. A certificadora contratada pela Agreco é a Ecocert, certificadora com grande respaldo no mercado e que atua em mais de 80 países. Caso esteja tudo de acordo, os produtos recebem o selo Ecocert de produto orgânico e está habilitado para a comercialização.

Notisul – Por que certificar?
Adilson
– Nossos produtos poderiam ser os melhores. Ao chegar em grandes centros, como São Paulo, a marca Agreco não era conhecida. A certificação é uma forma de mostrar aos consumidores que os produtos possuem garantia de qualidade.

Notisul – Em 2006, foram comemorados os dez anos da Agreco. Teve novidades?
Adilson
– Sim. Padronizamos e aprimoramos a marca. Como estamos em grandes redes, foi realizado um estudo para adequar as embalagens, com novo design, cores. Precisávamos acompanhar a evolução. O site foi todo remodelado, com um acesso mais rápido e fácil.

Notisul – E os preços praticados?
Adilson
– De forma geral, os produtos orgânicos possuem preço mais elevado. Isto porque é preciso uma maior dedicação das famílias que produzem. Mas é preciso ponderar muitas diferenças ao comparar os valores entre produto orgânico e convencional. Produtos básicos, como aipim, batata doce, alface, têm diferença de preço pequena. Porém, quando comparamos frango caipira orgânico e frango convencional, existe uma diferença significativa. Neste caso, comparamos um mesmo produto (frango), com características completamente diferentes em termos de sabor, textura, aroma, rendimento na panela.

Notisul – Por que, com o aumento da cesta básica, pode haver aumento do consumo dos orgânicos?
Adilson
– É o seguinte: além de estarmos na era dos industrializados saudáveis, com o aumento do preço da cesta básica, nos tornamos mais competitivos. Como não utilizamos insumos, como agrotóxicos e adubação química, os custos não aumentaram, diminuindo a diferença de preços entre orgânicos e convencionais. E aí é mais fácil de o consumidor optar pelo saudável.

Notisul – Cite uma rede de supermercados que acredita nos orgânicos?
Adilson
– Na região, a rede Tieli Supermercados, de Braço do Norte, acredita nos orgânicos e na comercialização de alimentos saudáveis. Temos toda nossa linha exposta com destaque.

Notisul – Você é coordenador da Cooperagreco. E por que fala da Agreco?
Adilson
– Boa pergunta! Porque tudo surgiu através da Agreco e suas necessidades ao longo do tempo. Devido à existência da Agreco, foram criadas a Associação de Desenvolvimento Sustentável Encostas da Serra Geral (ADS); a Cooperativa de Profissionais em Desenvolvimento Sustentável Encostas da Serra Geral (Aliar); o Centro de Formação em Agroecologia e Desenvolvimento Sustentável; a Associação de Agroturismo Acolhida na Colônia; a Cooperativa dos Agricultores Ecológicos das Encostas da Serra Geral (Cooperagreco), a qual coordeno; além da atuação direta do Centro de Desenvolvimento do Jovem Rural (Cedejor).