Adriano Almeida, 33 anos, atua há sete anos na área da segurança. Frequentou o exército, onde teve a primeira experiência com o manuseio de armas. Formou-se em direito na Universidade do Vale do Itajaí, campus Tijucas. Em 2005, foi aprovado no concurso para a Polícia Federal, em Florianópolis, como agente administrativo, no setor de imigração. Na Polícia Federal, trabalhou durante quatro anos e meio, onde se apaixonou pela área policial e decidiu ser delegado. Fez um concurso em 2008, passou e ingressou na Polícia Civil em 2009. Atuou como delegado em Capivari de Baixo e hoje é coordenador da Divisão de Investigação Criminal (DIC) de Tubarão. Possui pós-graduação em direito penal e em processo penal.

 

 

Mirna Graciela
Tubarão
 
 
Notisul – Você está há dez meses na Divisão de Investigação Criminal (DIC) e há pouco tempo na coordenação, desde a saída do delegado Marcos Ghizoni. Como tem enfrentado esta nova função?  
Adriano – A carreira policial é repleta de desafios. Todos os dias, para nós, é diferente e temos que estar sempre em busca de inovar e nos dedicar a fim de realizar a nossa atividade. O fato de passar a responder sozinho pela DIC senti como mais uma nova missão nesta carreira. 
 
Notisul – Quais são as atribuições da DIC?  
Adriano – São cerca de 30 DICs no estado. E têm como principal objetivo investigar os crimes mais graves. Nós temos uma gama ou um leque de crimes, que são o tráfico de drogas, os homicídios, os roubos a bancos e a cargas, sequestros, os crimes contra o sistema financeiro e os praticados por quadrilha. Estes são os que a DIC investiga prioritariamente. Mas, se alguma comarca aqui de abrangência da 5ª região policial solicitar nosso apoio para realizar outras investigações, nós damos este auxílio aos colegas, seja na fase da investigação ou na parte operacional.  
 
Notisul – Como analisas a criminalidade hoje em Tubarão?  
Adriano – De uma forma geral, apresenta um aumento em todos os municípios do estado. Isto não é algo anormal e aqui não é diferente. A gente vê a principal incidência do tráfico de drogas e, em decorrência disto, outros crimes são praticados, principalmente os patrimoniais, como os furtos e os roubos. Muitos deles são pelos usuários de drogas, que cometem os crimes a fim de ganhar dinheiro para comprar o entorpecente. Então, existe uma ligação muito estreita entre o tráfico e esses outros crimes patrimoniais. Em virtude do tráfico e uso da drogas, estes outros crimes acabam aumentando.  
 
Notisul – E os resultados obtidos, são satisfatórios?
Adriano – Nos últimos dez meses, nós prendemos mais de 60 traficantes, isto é um recorde batido. A maioria está na prisão com condenações bem altas. Isto somente em Tubarão. Seja no crack, cocaína e drogas sintéticas. Também fizemos operações de grande repercussão, com apreensão de armas que, até então, não se tinha conhecimento, como por exemplo metralhadoras.
 
Notisul – Como chegaram a este patamar? Qual a estratégia?
Adriano – Bom, quando realizamos as nossas operações policiais, as quais resultam em prisões de criminosos, sempre quem aparece na mídia, por meio de entrevistas, sou eu, pelo fato de ser o delegado que coordenou as operações. Entretanto, é preciso que se faça justiça. Não faço nada sozinho, estes números são o resultado do trabalho de toda a nossa equipe. Tenho muito orgulho de estar ao lado dos homens e mulheres que atuam na Divisão de Investigação Criminal de Tubarão. Eles são um exemplo de dedicação e profissionalismo, que abraçam a causa e se entregam sem limites. 
 
Notisul – Com relação especificamente aos homicídios, o que tem sido feito?  
Adriano – Aqui na região, o que mais chamou nossa atenção nos anos de 2010 e 2011 foi o alto número de assassinatos. Neste ano, já houve uma redução significativa no número de homicídios. Ano passado, fizemos um trabalho muito intenso em cima deste tipo de crime e no tráfico de drogas. Ao fazermos uma análise mais ampla pelo tamanho do município de Tubarão, pela população, não é uma cidade que possui índices altos, estamos em um patamar razoável. Tanto a polícia civil como a militar vem trabalhando arduamente para conseguir bons resultados e fazer com que estes números não aumentem e sim se mantenham ou diminuam.       
 
Notisul – A que fatores você atribui a maioria dos assassinatos?
Adriano – A maioria está relacionada ao tráfico de drogas. São pessoas que estão inseridas neste tipo de crime e, em virtude de desavenças com rivais ou com usuários, acabam praticando ou são vítimas de homicídios. Geralmente, ocorrem as disputas por pontos de vendas ou, no caso do usuário, por estar devendo dinheiro.
 
Notisul – Todos sabem que temos na cidade alguns grupos que atuam no tráfico. Quais são?
Adriano – Nós temos grupos que atuam aqui em Tubarão. Um deles conhecido e que a polícia já prendeu vários integrantes, inclusive os líderes, são os denominados ‘Gaioleiros’, no bairro Campestre. Também tem um que se associou na Área Verde para praticar o tráfico, principalmente o  de crack. Em tese, o que dizem é que teria uma rivalidade entre estes dois, que são ou eram os mais organizados. E existem outros grupos menores de outras localidades.
 
Notisul – E pessoas da nossa região que estão infiltradas em facções conhecidas no país? Há pouco tempo, alguns deles foram presos. Como isto funciona?
Adriano – Facções como PGC (Primeiro Grupo Catarinense) e PCC (Primeiro Comando da Capital) são grupos que tiveram sua origem dentro dos presídios. Quando os criminosos são presos, lá dentro, fazem contatos com estas facções em troca de segurança dentro das prisões e de apoio material para suas famílias. Então, eles acabam arregimentando estes outros bandidos. O criminoso é preso e é convidado a entrar. Mais ou menos, a grosso modo, é assim que funciona, para obter benefícios, mas também têm alguns deveres a cumprir. E, assim, vai aumentando o número de integrantes dentro das instituições carcerárias. O PCC é de São Paulo e o PGC teve início na Grande Florianópolis, mas hoje existe no estado inteiro. São bem estruturados.    
 
Notisul – Quais são as características destes criminosos, como reconhecê-los?  Existem muitos em Tubarão e região?
Adriano – Eles usam as tatuagens, como os símbolos das carpas e do yin-yang. E são envolvidos nos crimes mais comuns, como tráfico de drogas e assaltos. Existe uma investigação em andamento pela nossa equipe, não posso falar muito no assunto, mas já prendemos algumas pessoas que ostentavam estas tatuagens e, por consequência, teriam entrado para estas facções. É possível que existam mais.
 
Notisul – É visível que você é um profissional que vai a campo e participa de operações. Algo te chamou a atenção?
Adriano – Não posso abrir muito, foi grave, mas um fato que me emocionou (ele emociona-se durante a entrevista) foi o agradecimento da vítima de um crime e a forma como ocorreu. A DIC foi acionada a um lugar para solucionar este crime e, pela situação do estado dela, que passava por riscos e uma grande dificuldade, nossos profissionais conseguiram agir rapidamente. 
 
Notisul – Quais os casos de mais difícil solução?
Adriano – Os homicídios são os piores, principalmente quando envolve o tráfico de drogas, porque as pessoas têm medo de nos ajudar, temendo represália dos traficantes. Estes são os mais difíceis de elucidar.
 
Notisul – Quais são as armas essenciais em sua profissão?
Adriano – Com certeza, muita dedicação, perseverança e bom raciocínio. Dedicação porque não temos uma atividade regrada, trabalhamos em qualquer horário, não há fim de semana, feriado, datas especiais, quem atua na investigação não tem horário. Quando ocorre um crime, sempre há uma equipe 24 horas para ir ao local. Perseverança porque nosso lema é não desistir nunca, ir até o fim para solucionar um crime. E raciocínio para pincelar as coisas e montar o quebra-cabeças. O investigador vive atrás de informações, para encaixar as peças em seu devido lugar para a solução de um crime.
 
Notisul – Você atirou em alguém?
Adriano – Já, infelizmente, a fim de defender a minha vida e a integridade física da minha equipe, tive que atirar sim. Mas não vou revelar onde e em que situação, foi um assaltante. 
 
Notisul – Como é lidar diariamente com os bandidos e com este risco?
Adriano – A gente ama o que faz e atua com a finalidade de colaborar para um mundo melhor, para que as pessoas vivam melhor com seus familiares. Então, no fim de tudo, é gratificante. 
 
Notisul – Existe algo hoje que te causa medo ou te assusta?
Adriano – O que me assusta é a forma como o crack destrói a vida das pessoas, das famílias, a rapidez que isso ocorre. O usuário do crack, literalmente, despenca, vai de 10 a 1. O jeito como se alastra e os efeitos desta droga é algo assustador. 
 
Notisul – Em sua avaliação, alguém que usa crack pode se recuperar? 
Adriano – Pode, acredito. Já existem casos assim. Mas depende muito da ajuda da família e também do poder público, com a existência de clínicas, que são de extrema importância.
 
Notisul – Fala-se muito em ressocialização. Você acredita que um criminoso possa se redimir?
Adriano – A ressocialização é possível, mas não para todos. Alguns tipos de bandidos não querem e isto se torna longe de se alcançar. A pessoa tem que ter vontade. Dependendo do tipo de crime, já vi casos de ressocialização, em pessoas que cometeram poucos crimes ou menos graves. 
 
Notisul – A questão do menor é agravante. O que podes dizer sobre isto?
Adriano – O problema do adolescente infrator é a aplicação da legislação do ECA, o Estatuto da Criança e do Adolescente, onde as sanções são menos severas. Para alguns ligados ao mundo do crime, eles têm o sentimento de impunidade. Em virtude disso, dedicam-se ao crime. E é um problema porque há um aumento significativo no número de menores ligado ao crime. 
 
Notisul – Existem rumores de que deixarás Tubarão em breve. Isto é verdade?
Adriano – Por enquanto, não existe nada de oficial, mas a carreira de delegado é muito dinâmica e não estamos livres de mudanças.
 
Adriano por Adriano
Deus – É o criador, sem ele nada existiria.
Trabalho – Sou apaixonado pela minha profissão. 
Família – A base de tudo.
Passado – Foi onde aprendi em que tudo o que se faz na vida temos que ter humildade.
Presente – Uma excelente fase da vida.
Futuro – Espero coisas boas e continuar exercendo minha profissão para um mundo melhor.
 
"Há a necessidade de uma reforma no código penal urgente e também no código de processo penal. E não seria apenas na legislação, mas em todo o sistema da justiça criminal, o que depende de nossos legisladores. Teria que rever a questão da maioridade. Acho que o adolescente com 17 anos, por exemplo, tem a capacidade de entender o caráter ilícito de suas ações. A idade de 18 anos poderia ser diminuída. No geral, em alguns crimes, a pena deveria ser um pouco maior e também mudança no cumprimento da pena, como os prazos para obtenção de alguns benefícios como livramento condicional, progressão de regime, talvez aumentar esses períodos de pena cumprida. Pois o preso cumpre um tempo preso e o resto na rua".
 
"Existe uma ligação muito estreita entre o tráfico e os crimes contra o patrimônio público. É como se ambos, em certos casos, quase caminhassem juntos".
 
"A maioria dos menores infratores vem de famílias desestruturadas, mas não quer dizer que os pais sejam ruins. No entanto, também tem o outro lado".