No último mês, o religioso Joel Marcolino Bittencourt, 27 anos, foi ordenado padre. Hoje, ele integra a Paróquia da Catedral em Tubarão, município onde nasceu. A igreja católica sempre foi bastante influente em sua vida e formação. Como projeto, pretende desenvolver atividades para aproximar os jovens à igreja. Nesta entrevista, o religioso detalha a sua formação e por que se tornou um homem de fé.

Joel por Joel
Deus: Amor.
Família: Santuário da Vida.
Passado, presente e futuro: Felicidade. 

Karen Novochadlo
Tubarão

Notisul – Por que você decidiu seguir a vida religiosa?
Padre Joel
– Faz 15 anos que decidi entrar no seminário. Claro que foi uma influência da família, que participava do grupo do bairro, e também da igreja. Eu tenho um primo por parte de mãe que é padre e outro por parte de pai. Entrei para o seminário em Tubarão quando tinha 15 anos. Fiz parte do ensino médio no Colégio São José. Estudei filosofia em Brusque. Em seguida, fiz um estágio na paróquia de Morrotes. De 2006 a 2009, estudei teologia em Florianópolis. Mais tarde, fui designado para a paróquia de Orleans, onde fiquei o ano passado. A ordenação de padre ocorreu em 19 de março deste ano.

Notisul – Você teve que renunciar a muitas coisas?
Padre Joel
– Claro que exige a renúncia. Não vou ter a minha família, meus filhos, a minha casa. Mas vou trabalhar como padre. O padre é construído com o passar do tempo com os estudos. E muitos, claro, decidem entrar para o seminário e desistem pelo caminho. As dificuldades aparecem. Foram 12 anos de estudo.

Notisul – Durante o seu tempo de estudo, muitos alunos desistiram?
Padre Joel
– Sim. Quando comecei, éramos 35. Deste total, eu sou o segundo a ser ordenado padre. Tem mais um no seminário. Em 1999, estávamos em 54 no seminário. Hoje, são cinco padres. Muitos desistem ao longo do caminho. É como uma seleção natural, selecionando os que de fato têm essa vocação.
 

Notisul – Quando eu imagino o seminário, imagino uma vida semelhante a um de quartel (risos). Como é a vida lá?
Joel
– É mais ou menos nesse sentido (risos). A vida no seminário é bem diferente. Na sua casa, geralmente são apenas seus pais e irmãos. Na minha, éramos em cinco. No seminário, éramos em 60, somando os padres e colegas. Era uma rotina diferente. É tudo muito junto. São 60 pessoas almoçando junto. Mas é uma vida boa, porque nós podemos fazer amizades. É a rotina de acordar cedo, ter o momento de oração, trabalho, esporte, estudo e as missas.

Notisul – E como foi o apoio da sua família?
Joel
– A família deixou bastante livre. Nunca senti uma cobrança para que eu ficasse ou saísse. Sempre apoiaram para que eu fizesse a escolha que mais me realizasse como pessoa. Tive momentos de dificuldade, quando pensei em desistir. Nesses momentos, recebi o apoio. Então, tive que vencer as dificuldades. Uma delas foi o estudo. Eu estudava em um colégio estadual e passei para um particular, que tinha uma dinâmica diferente. E também tive a dificuldade de não viver com a família.

Notisul – Tem algum projeto?
Padre Joel
– O meu projeto é sempre, quando chegar a um local, ver na realidade o que se precisa. Umas das coisas de que precisamos é fazer um trabalho com os jovens. Para que eles, como membros da igreja e da comunidade, sintam-se atingidos. A igreja não deve se tornar uma obrigação. O jovem deve sentir-se motivado a vir na igreja e rezar. Temos muitos jovens que vêm à missa, mas poderiam fazer muito mais.

Notisul – O fato de você ser jovem o ajudará a atingir melhor esse público?
Padre Joel
– Claro que a nossa linguagem, pela questão da idade, é mais acessível e compreensível. E também em virtude de trabalhos. Na paróquia de Orleans, conseguimos formar um grupo de jovens no ano passado, e não foi fácil. Mas qual a conclusão que tirei? Devemos formar um grupo de jovens com os que já estão na igreja, seja para coordenar ou motivar as celebrações, tocando ou cantando. Isto para que o jovem se sinta responsável, um membro nesta comunidade e importante para a vida da igreja.

Notisul – Hoje, vemos que mudou um pouco perfil dos padres…
Padre Joel
– Eu penso que o padre pode ter a sua criatividade para fazer com que a sua mensagem chegue. Quando vai a uma comunidade rezar uma missa, você pensa qual o perfil dali. O padre precisa entender a realidade onde trabalha, para transmitir a mensagem de uma forma que todos entendam. Eu vejo que os padres novos têm conseguido muito isso, trazer um vigor e forma de celebrar diferente. Tornam a missa algo gostoso de participar, sem fugir daquilo que a igreja orienta.

Notisul – Como você faria isso?
Padre Joel
– E agora? Cada um tem o seu jeito (risos). Eu gosto muito da liturgia, de estudar uma forma de que a pessoa participe. Sou mais de celebrar na forma que a igreja ensina, e que se torne atraente. A pessoa deve participar, não ser um espectador, como é no cinema.

Notisul – Como foi a sua receptividade na paróquia?
Padre Joel
– Fui muito bem recebido pelos padres e leigos. Agora, estou conhecendo as comunidades. E vejo que muitos estão curiosos em conhecer o meu trabalho. Eles querem novidades, que os padres venham com novas ideias. Espero corresponder a esta expectativa. A grande preocupação do povo é de que se atraia mais gente para a igreja. Muitos são católicos, mas não participam. É um problema não só da igreja católica, mas de todas. Quando eu fiz um curso em Porto Alegre, visitei uma sinagoga. Diziam que tinham mais de mil judeus registrados, mas os participantes eram em torno de 100. As igrejas mais tradicionais têm o mesmo problema.

Notisul – É falta de fé?
Padre Joel
– Não. Elas não encontram na igreja o que esperam. Talvez porque essa ‘modernidade’ leve que as pessoas vivam sua fé sem uma igreja. Encontro muitos jovens, quando acesso orkut ou facebook, e vejo que escrevem que são religiosos, mas que não têm igreja. E se você conversa com eles, descobre que foram de uma religião quando criança, mas em determinado momento se desiludiram. Eles querem ser atingidos por uma igreja. O problema é que as igrejas ou comunidades religiosas têm uma estrutura fechada, e não permitem que o jovem se sinta parte. Mas, porque certas vezes a igreja fica naquela transmissão de moralismo, de pecado e não-pecado e afasta o jovem.

Notisul – Como assim? Como atingir o jovem? Ele tem que abdicar de alguma coisa?
Padre Joel
– Toda religião irá transmitir valores. É claro que umas igrejas não têm uma doutrina. Elas esperam simplesmente que a pessoa vá rezar. Não tem esse negócio de que isso pode ou não pode. Muitos jovens dizem que não vão na igreja porque vão ouvir que tal coisa é pecado. Preferem ir em tal igreja que não cobra nada de pecados. Muitas vezes, o nosso discurso é só nisso. Primeiro, temos que transmitir a palavra de Deus. Ser religioso implica em atitudes diferentes. Ser cristão é ser diferente. Não é dizer que o jovem cristão não pode namorar, ir em uma balada, sair com os amigos. Ele não vai ser um cristão se tem atitudes fora da igreja que não condizem. Essa é a questão: ter uma fé que leve a uma prática, que não seja um peso, mas um gosto e alegria de ser cristão. Falta o ser cristão fora, não somente dentro da igreja.

"Penso que os dons das pessoas têm que ser postos em prol da comunidade. O importante é transmitir a mensagem.
Cada um tem seus modos. Tenho a consciência de que não sou eu que deve ser anunciado, e sim Deus."

"Os jovens precisam tomar uma decisão radical: vou seguir essa vocação porque vai me fazer feliz. E não ter medo por ter renúncias. Dizem que ser padre é muito difícil, mas qualquer vocação que você for abraçar envolve renúncias. Quantos jovens que conheço que têm de estudar durante o fim de semana, porque nos outros dias têm que trabalhar? Padre tem que fazer renúncias, de estar com a sua família, de ter a sua vida e coisas pessoais, para abraçar a vocação."