O vereador Peterson Crippa (PP), mais conhecido como Preto, carrega em um de seus braços a imagem de um grande ídolo, seu avô, de quem vem parte da inspiração política. Aos 37 anos, demonstra muita vontade de fazer a diferença e trilhar sempre um caminho com base de honestidade e caráter. Ele destaca que sua linha de trabalho é legislar em prol do coletivo, não em causa própria.

Priscila Loch
Laguna

Notisul – Este é o seu primeiro mandato como vereador titular. Nas duas eleições anteriores, você ficou como suplente e até chegou a assumir por alguns períodos. Qual o teu sentimento neste início de mandato?
Preto – Participei de três eleições. Na primeira, fiquei de quinto suplente; na segunda, de primeiro suplente, perdi por 67 votos; e dessa vez eu me elegi, com 1.031 votos. Acima de mil votos, em uma cidade pequena, é complicado, pelos moldes com a eleição é. Quanto menos eleitores, mais corrupta é, infelizmente, porque é mais fácil de comprar votos. Eu trilho um caminho político diferenciado, não melhor, nem pior. Eu me dedico há dez anos à política, aprendi muito com as derrotas. Sou formado em jornalismo, e aprendi a prestar muita atenção aos erros dos outros. E o meu diferencial é fazer o que eles não fazem. No meu entender, estamos acostumados a lidar com a corrupção, infelizmente, desde 1500, quando nos eram roubados os paus-brasil. Não estamos passando por uma crise de corrupção, e sim de má gestão. Chegamos a um patamar tão ruim de gestão que daí a questão da corrupção aflorou. Antes, tinha dinheiro para tudo. Laguna sempre teve dinheiro para fazer as melhores obras. Hoje, poderíamos estar discutindo a falta de salário para professores, para médicos, mas as unidades de saúde e as unidades escolares eram para ser de primeira, porque dinheiro teve para fazer o melhor equipamento. Os políticos não estão preparados para gerir as cidades, para fazer o seu papel. É cargo em cima de cargo…

Notisul – Então apoias a vertente que considera que os políticos deveriam ter formação?
Preto – É extremamente necessária. No meu entender, não dá mais para continuar com as velhas práticas. Chegamos ao fundo do poço que é o reflexo das velhas práticas. Não dá mais certo, a gente precisa mudar. Precisa haver uma concepção diferente, o contexto precisa mudar. O meu papel como vereador na cidade é: intitulo-me como um dos 13 gerentes. Fui contratado, não me sinto dono daquela cadeira, tem muita gente que toma para si o cargo. Eu não tenho esse viés, eu quero trabalhar. Se daqui a quatro anos, os meus contratantes, que são a população, entender que vale a pena estender o contrato, é outra coisa. Trabalho todos os dias com o mesmo patamar. Então, em resume, esse início era o que eu queria, a oportunidade que eu queria para trabalhar. Eu pedi isso nas eleições. Tenho ido pelo caminho de uma política de bem, de uma política diferenciada, onde o segredo está em fazer o que precisa ser feito para o CNPJ da prefeitura, não para o CPF do vereador. Essa prática de extensão do CNPJ das instituições para os CPFs não dá mais certo. Quero continuar aplicando a política diferenciada, baseado no trabalho que precisa ser feito, que o trivial, o que a cartilha da política diz. Está no regimento, não estou fazendo mais que o papel do vereador, que é legislar em prol de uma causa em comum, não em minha causa própria. Tanto é que votei contra o aumento do número de comissionados.

Notisul – Quais são as principais carências de Laguna hoje?
Preto – Laguna passa por uma sucessão de más gestões ou de gestões direcionadas, passa por uma carência institucional histórica. Não só de gestão, como de infraestrutura, de educação, de cultura, de práticas. As pessoas estão mal acostumadas. As últimas eleições foram um Natal, onde as pessoas precisam ganhar algo para votar, infelizmente. O lagunense precisa mudar. Não dá para esperar que a prefeitura limpe a frente da sua casa. Por mais que seja uma atribuição da prefeitura, ela não vai ter mais braço. Se todo mundo cuidar da frente da própria casa, por exemplo, possibilitaria que aquelas pessoas indicadas para limpar possam tapa buraco. O cidadão precisa fazer mais do que é o seu dever. Aí o prefeito, Mauro Candemil, que pegou uma prefeitura toda esculhambada vai ter mais tempo e homens para poder resolver a questão de infraestrutura. Qual é a prioridade: limpar a minha rua ou tapar o buraco? Precisa reorganizar esse sistema. E o Mauro, como gestor, tem esse papel, e não vai ser fácil. Talvez não faça em quatro anos, mas ele precisa quebrar alguns paradigmas. O Mauro precisa reeducar a sua cidade a tudo, e para isso precisa dar o exemplo.

Notisul – Que áreas receberão mais atenção sua como vereador?
Preto – Laguna empobreceu. Se fores analisar os últimos anos, e é só escutar a fala dos últimos prefeitos, Laguna recebeu muitos recursos de tudo quanta é ordem. Se recursos vieram para Laguna, não foram bem geridos. Precisamos resgatar a autoestima do lagunense, trabalhando as moedas que ele tem melhor. E hoje, qual é a melhor moeda dele? É o turismo. Vivemos dizendo que Laguna tem potencial, mas não torna realidade nunca. Para isso, precisamos regulamentar algumas coisas. Um exemplo: pode jetsky em Laguna? Se pode, desce por onde. Em Laguna hoje ou tudo pode ou nada pode, por falta de regulamentação. Falta regulamentação para as questões ambientais, para que o próprio turismo se desenvolva, de zoneamento costeiro, a própria orla do Mar Grosso, onde não tem um quiosque e vai se discutir em novembro porque em dezembro precisa ter. A questão do esgoto na praia precisa ser resolvida também. Então eu como vereador vou trabalhar algumas linhas. Já venho do turismo e pretendo trabalhar pelo desenvolvimento do turismo sustentável. Trabalho uma linha em que entendo que no Mar Grosso é um tipo de turismo, como Balneário. O Centro Histórico precisa ser visto diferente, como é visto em Parati. A Região da Ilha precisa ser vista como é visto Fernando de Noronha, e não como o Mar Grosso. Hoje, o turismo em Laguna é visto de forma global. Precisamos entender a realidade de outras cidades em que deu certo e aplicar aqui, com flexibilidade. Os mais antigos precisam ser flexíveis, e os mais novos não podem ser tão ambiciosos. Nesse equilíbrio, com regulamentação do que pode, do que não pode e de que forma, a cidade desenvolve. Tem lei, mas não tem regulamentação. A Galheta, por exemplo, é uma discussão se tem que ir para o chão ou não. No meu entendimento não, porque a Galheta tem o mesmo nível de colonização que tem o Mar Grosso, só que em anos diferentes. O Mar Grosso foi crescendo sem regulamentação e chegou aonde chegou. Hoje, necessita ser regularizado, tanto para a Galheta, quanto para Itapirubá, o Cavalinho, o Gi, o Farol… Como não tem regulamentação, como te disse antes, ou tudo pode, e da noite para o dia aparece um casarão crescendo, ou nada pode, como um cara que precisa trocar o telhado da casa dele e não recebe autorização. Dentro desse contexto turístico, a Região da Ilha precisa ter um equipamento grande, cabe um grande empreendimento turístico lá, ambientalmente legalizado. Imagina se um resort lá como tem na Ponta de Ganchos, com 300 empregos, gerando R$ 3 mil por pessoa, com gorjetas de R$ 50,00 a R$ 100,00, porque as pessoas que têm dinheiro dão. Aí a comunidade que mora ali vai absorver, vai viver daquilo, vai vender seu artesanato a R$ 30,00 sem problema, e hoje a R$ 5,00 acham caro, por nosso turista tem renda mais baixa. Laguna foi esquecida no tempo. A pessoa de 30 anos que não conhece o Carnaval nem sabe da existência de Laguna no mapa. Precisamos reapresentar para a sociedade brasileira e para o Mercosul a nossa cidade.

Notisul – Na prática, o que é possível fazer para que Laguna não seja uma cidade que vive só na alta temporada?
Preto – Acredito que o potencial turístico de laguna de inverno é maior que o de verão. Porque todo o litoral tem belas praias, mas no inverno podemos trabalhar o turismo sacro. Temos o segundo santo com mais devotos do país, com uma igreja matriz linda, com peças que podem ser usadas para criar um museu sacro. A nossa geografia é plana e favorece à terceira idade ir e vir. Temos o espaço que as pessoas gostariam de ocupar. Lá em Aparecida do Norte, eles também começaram do nada, um dia sonharam e alguém disse que era utopia. A mesma coisa com relação aos esportes radicais, temos potencial de fazer downhill, mountain duo. Podemos fazer qualquer coisa, porque cabe. Agora precisa estimular. Convidar os grupos para virem a Laguna fazerem eventos. Eles precisam de pouquíssimos recursos. O próprio trade turístico que paga imposto fomenta isso. Se fizermos um evento esportivo por mês de médio a grande porte já resolvemos a sazonalidade do trade, movimentamos a cidade, e começamos ver que não é utopia. É só estimular, abrir as portas, como Balneário faz. Precisamos entender o que quer, peitar algumas coisas com responsabilidade e dizer que a partir de agora é assim que vai ser. Dentro dessa realidade, esse papel cabe muito ao prefeito. O potencial do centro Histórico é muito maior, mas está ocioso. É preciso criar um modelo de negócio para que seja autossustentável, tanto para as pessoas que vão trabalhar, quanto para quem vai visitar e os prédios em si, que precisam estar abertos e reformados. A Casa de Anita, por exemplo, está caindo aos pedaços, e já foi reformada muitas vezes. O problema nunca foi reforma, e sim manutenção, porque não tem um modelo de negócio. No sistema com vouchers, se vende um cheque com algumas folhas, cada folha é um local. O cliente compra por R$ 20,00 e vai destacando os cheques e deixando em cada ponto. Para o turista, não é gasto, e para Laguna é um recurso que volta para manutenção. Segunda coisa que considero importantíssima: estimular as novas gerações, para que se mudem as práticas. De que forma? Adianta colocar estagiários descompromissados na frente do Museu? Não, não adianta. Primeiro porque ele não aprende, sabe que é só um estágio. Mas se estimulássemos um primeiro emprego para esse jovem, com carteira assinada e curso para estar ali, por que não? Existem programas federais de estímulo ao primeiro emprego. Aí tu podes demiti-lo e, a partir desses momentos, terá obrigação de se aprimorar. Melhora a cadeia dessa forma. São situações que dá de fazer. Pode-se criar um modelo e entregar para uma associação cuidar. O rotativo de Rio do Sul, por exemplo, quem gere é a Apae. Então os recursos vêm pra Apae. Então, esse sistema de cheques pode ser gerido por uma associação, a prefeitura só coloca uma ouvidoria. É preciso usar a inteligência para trazer a população para perto.

Notisul – Você nasceu em Laguna e, mesmo que tenha morado fora, nunca perdeu o contato com a cidade. O que mudou no município nas últimas décadas?
Preto – A região ficou para trás a partir do momento em que a duplicação da BR-101 foi até Santo Amaro. O Sul não teve força política ou não lutou como deveria para que a duplicação fosse até Osório, até Sombrio. Aí, como não escoava, a região ficou para trás. A região norte toda cresce. E nesse ínterim Laguna não soube se transformar, ficou presa naquela nobreza lá de trás e não evolui, tanto que os equipamentos turísticos ficaram para trás. Nesses 40 anos, houve um desestímulo da pessoa lagunense que fundamentalmente jogou a cidade para onde ela está, ao ponto de chegar ao patamar de trocar o voto por R$ 50,00. Em Laguna se vive com a cabeça de 40 anos atrás. Laguna precisa modernizar o seu passado. Tem muitos atrativos. Mas ninguém oferta esses atrativos. Tem muita coisa a ser desenvolvida ainda, aprimorada. Ainda podemos ter um futuro melhor que outras cidades porque tudo de novidade dá de aplicar em Laguna, diferente dos grandes centros, que já estão consumidos, principalmente na questão do trânsito, mobilidade, saneamento.

Notisul – Voltando ao assunto política, algumas medidas de economia foram adotadas no legislativo neste mandado. O que mais é possível fazer com este propósito?
Preto – Sempre vai existir o rei, que no caso é o presidente da Câmara. E precisa escolher o melhor rei. Quem estimula o rei? Eu faço parte do grupo que tem acesso livre ao rei. Temos hoje um presidente da Câmara aparentemente mais responsável e estamos perto dele para dizer nossas considerações. Antes não éramos escutados. Essas medidas, de cortar celular e reduzir diárias pela metade, partiram de uma conversa em comum entre nós, que a mesa diretora aplicou e fomos favoráveis. O vereador já ganha um recurso bom para que possa ter o seu celular, para que possa ir e vir sem precisar de diárias. Temos a oportunidade de passar algumas ideias bacanas para o presidente. Se ele acata ou não, é outra situação. Mas a questão do respeito está bem bacana. As pessoas dizem para mudar a questão do salário do vereador, que foi uma proposição minha lá atrás. Só que não adianta, só valeria para a próxima legislatura, qualquer mudança salarial não serve para esta legislatura. A questão da Câmara agora está bem em tempo, com aumento de acesso a ela, por meio do Facebook, aplicativo. Isso leva a Câmara à população e oportuniza o povo estar mais perto. Tenho notado, desde a primeira sessão este ano, que a casa está sempre cheia, a média não baixa de 30. As pessoas estão acreditando nessa legislatura ou estão acreditando que precisam participar.

Notisul – Quando suplente, você sempre interagia muito com os eleitores e recebia bastante apoio e respaldo com relação às ideias. Acredita que essa forma de trabalho foi essencial para a sua eleição?
Preto – Acredito que sim, é uma forma de transparência. As pessoas precisavam votar em alguém e as pessoas que não vendem voto estavam com poucas opções. Tentei me encaixar nesse nicho. Meu nível de coerência tento manter estrategicamente, não baixo e não subo muito para que eu possa manter. Dou resposta para todo mundo, mesmo que seja negativa, atendo todas as pessoas, e isso é fundamental.

Notisul – Muitas vezes, a pessoa precisa apenas ser escutada.
Preto – Exatamente. As pessoas nem sempre conseguem encontrar os políticos, ou são enganados, não recebem nem o não.

Notisul – Tem pretensões políticas maiores?
Preto – Quero preparar bem a minha base. Eu sempre quis ser grande com várias pessoas do meu lado, não eu em cima como uma pirâmide. Respeito muito os meus pares. Não sei se quero ser candidato a prefeito lá na frente, mas quero estar muito bem ranqueado. Se eu estiver bem ranqueado, ou eu sou um bom nome para prefeito ou eu saio bem. Por isso que trabalho dia a dia e bato metas semanais, eu crio metas. Na vereança, eu aplico o trabalho privado, eu bato metas. Entendo que se eu atingir o máximo de meta possível vou estar bem ranqueado daqui a quatro anos. Se vou ser candidato, se vou ser vice, se saio para reeleição ou nada é uma decisão para daqui a quatro anos. Não articulo hoje pensando lá na frente, porque isso pode ser nocivo para mim. Prefiro estar bem ranqueado trabalhando a pensando ou sonhando ser candidato a alguma coisa.

Notisul – Você entrou na política muito cedo. Como avalia a participação dos jovens hoje?
Preto – Não há estímulo. O jovem tem mais desestímulo na política do que estímulo. Tive muito mais oportunidade de cair fora do que permanecer. Permaneci porque entendia que podia fazer algo, mas é muito difícil. Os espaços políticos são sempre ocupados pelos mesmos, não há abertura para novidades. O político velho, que tem velhas práticas, tem medo de sombra. O meu papel na política é mostrar para o jovem que ele pode chegar onde quiser, tanto na política, quanto na profissão. Depende de dedicação, precisa ter caráter e paciência, e tem que trabalhar. Participo do Conselho da Juventude, do Núcleo do Jovem Empreendedor, o qual fui o fundador, sou diretor da Associação de Surf, e vou mostrando para eles que dá para fazer política boa. A participação do jovem é fundamental. Ele sabe o que fazer, mas não pode ficar atrás do computador, ele precisa se doar mais, precisa se dedicar a uma entidade, a uma associação, ir nas sessões da Câmara. O jovem não é o futuro se não tiver atuação agora.