Foto:Priscila Loch/Notisul
Foto:Priscila Loch/Notisul

Em dezembro deste ano, vai completar 30 anos que o empresário e diretor do Notisul fundou o seu primeiro jornal, A Voz do Vale. O periódico, com sede no município de Braço do Norte, circulava semanalmente no Vale do Braço do Norte. Em julho do ano 2000, transferiu residência para Tubarão, onde, com um grupo de empresários, fundou o Notisul, diário com circulação regional. Discreto, Nazareno sempre se esquivou em dar entrevistas ou ter qualquer outro tipo de envolvimento na linha editorial do Notisul.

 

Tubarão

Notisul – Nazareno, por que você concordou em conceder essa entrevista, depois de tantos anos no anonimato?
Nazareno –
A principal razão foi os resultados das eleições municipais do último domingo. Em algumas cidades, ocorreram resultados tão inesperados, que surpreenderam não só os analistas políticos e os institutos de pesquisas. Os próprios candidatos não estão conseguindo explicar o que verdadeiramente aconteceu.

Notisul – Na sua opinião, o que ocorreu em Tubarão, onde era esperada uma disputa acirrada e o candidato Joares Ponticelli conquistou uma margem expressiva de votos sobre Carlos Stüpp, segundo colocado?
Nazareno –
Desde quando não era obrigatório o registro no cartório eleitoral, eu já publicava pesquisas eleitorais. No passado, chegamos inclusive a realizar pesquisas sem metodologia alguma e, por incrível que pareça, os números apontados na maioria das vezes se confirmavam nas urnas. Sou fã incondicional de pesquisas eleitorais. Agora, com critérios e metodologias, como são realizadas, elas apontam com grau elevado de precisão a tendência dos eleitores no momento em que são realizadas. Mas, como eleição é uma disputa, a competência maior ou menor dos candidatos pode dar um rumo totalmente diferente do qual se apresenta no início de uma campanha.

Notisul – Mas então qual foi o motivo em Tubarão?
Nazareno –
Muita besteira já foi dita com relação ao resultado. Muitos nem se atrevem a uma análise mais pensada, mais apurada, sem paixão partidária. Não estou aqui querendo ser o dono da verdade. Longe de mim! Apenas vou me permitir fazer uma leitura que, do meu ponto de vista, vai contribuir para elucidar em partes o que ocorreu. E, para não me distanciar muito do dia da eleição, vou me basear em números oferecidos pelas pesquisas eleitorais registradas no Cartório Eleitoral e publicadas na imprensa. Não vou falar com precisão dos números, mas aproximados. A primeira pesquisa foi divulgada pelo jornal semanário Noticom. Ela dava uma vantagem de 15 pontos percentuais para o candidato Stüpp sobre o segundo colocado, Joares. Olavio Falchetti tinha próximo de 15 pontos, bem distante do segundo colocado, e Edi figurava  na casa de cinco pontos percentuais. Aproximadamente uma semana depois, o IPC (Instituto de Pesquisas Catarinense) registrou uma pesquisa em nome da Rádio Cidade. A diferença apontada entre o primeiro e o segundo colocados ficou em 14,5 pontos percentuais, e o terceiro e quarto colocados também receberam pontos muito próximos da primeira pesquisa, portanto, sem novidades para o público que acompanha as pesquisas de intenções de votos que são publicadas. Passada mais uma semana, foi a vez do Diário do Sul apresentar sua pesquisa. Quem realizou para eles foi o Instituto Mapa. Pouca novidade. A diferença entre Stüpp, primeiro colocado, e Joares, segundo colocado, ficou em 12,5 pontos percentuais. Olavio e Edi mantiveram as posições de terceiro e quarto colocados, respectivamente, sem grandes novidades nos percentuais de intenções de votos. Daí no dia 24 de setembro o Notisul apresentou a sua primeira e tão esperada pesquisa, realizada em Tubarão pelo Instituto de Pesquisas Catarinense. Pela credibilidade conquistada pelo Notisul e pelo IPC, que ao longo de algumas eleições sempre apresentaram números que acabaram se confirmando nas urnas, dava-se a impressão de que a nossa pesquisa seria decisiva para o rumo das eleições. E foi! Quando publicamos, logo no início da madrugada do dia 24, no site e no Facebook do Notisul, os números levantados, apontando uma diferença de apenas oito pontos percentuais entre Stüpp (36,6%) e Joares (28,6%), parece que as coligações perceberam que os números entre os dois candidatos estavam em rota de colisão. E a animosidade entre as duas coligações aumentou. Olavio (14,4%) e Edi  (5,8%) permaneceram com a terceira e a quarta posições mais uma vez. Aí o eleitor começou a perceber que definitivamente a prefeitura iria ser governada ou por Stüpp ou por Joares. Passados apenas mais seis dias, ou seja, no dia 30 de setembro, último dia permitido pela Justiça Eleitoral para publicação de pesquisas, divulgamos nossa última, realizada pelo IPC. Nesta, os números se aproximaram ainda mais: 3,1 pontos percentuais era o que separava Stüpp (34,2%), primeiro colocado, de Joares (31,1%), segundo. Olavio tinha 16,2% e Edi 7,8% pontos. E, neste dia, nesta sexta-feira, 30 de setembro, na minha opinião, começou verdadeiramente a virada. A coligação de Joares percebeu que a vitória era possível, sim! E milhares de pessoas que até então eram meros eleitores se transformaram em verdadeiros cabos eleitorais. A equipe de Joares tinha preparado um pelotão para atuar nos últimos três dias que antecediam o pleito. Mas, para surpresa de todos, um exército de voluntários colocou-se a campo pedindo votos, principalmente para o  Joares. E tinham a favor um trabalho amplamente difundido através das redes sociais, que clamava o eleitor a não votar em quem não tivesse ficha limpa. O segundo forte argumento dos eleitores de Joares era um apelo ao voto útil. Ou seja, se você votar no Olavio ou no Edi, poderá estar votando no Stüpp, pois a eleição, pelo que se mostrava, estava polarizada entre Stüpp e Joares. É sabido que a coligação de Stüpp foi formada principalmente por PSDB e PMDB. Partidos historicamente rivais. As disputas eleitorais entre esses dois partidos deixaram cicatrizes profundas. A coligação deixou muitos eleitores desconfortáveis. Fiéis ao partido, os peemedebistas estavam até então propensos a votar em Stüpp. Mas as pressões, volto a dizer, principalmente através das redes sociais em prol de votar em candidatos ficha limpa, acredito eu, provocaram uma debandada de eleitores do PMDB que até então iriam votar no Stüpp. Uma boa parcela desses eleitores aderiu à opção do voto útil e votou em Joares. Outra parcela, também significativa, atendeu ao chamado de honestidade de Olavio e aumentou o percentual de votantes até então previstos para o atual prefeito. Até o candidato Edi beneficiou-se deste movimento. Parecia um movimento que poderia ter sido chamado de “todos contra Stüpp”. Acrescenta-se a tudo isso uma estratégia bem montada dos articuladores da campanha de Joares e o resultado foi o qual presenciamos nas urnas.

Notisul – Então, na sua opinião, as pesquisas eleitorais podem influenciar de forma definitiva o resultado de uma eleição?
Nazareno –
Eu não tenho dúvidas disso. E não estou aqui me posicionando a favor ou contra a divulgação de pesquisas eleitorais. Apenas confesso ser um entusiasta e admirador da eficiência das pesquisas quando realizadas de forma correta. Na eleição passada, nossa pesquisa teve peso decisivo no resultado da eleição em Braço do Norte. O prefeito da época, Evanisio Uliano, iniciou a campanha para reeleição com uma enorme desvantagem sobre seu concorrente, o atual prefeito Ademir Matos. Só que Evanisio crescia rapidamente na preferência do eleitorado. Acredito que faltando aproximadamente 15 dias para a eleição publicamos uma pesquisa de intenções de votos no município. A pesquisa foi publicada em uma edição de sábado do Notisul. Segundo integrantes do comitê eleitoral do então candidato Ademir Matos, na segunda-feira formou-se fila de automóveis no comitê para plotar os veículos. Eram os indecisos que, vendo nas pesquisas uma possibilidade maior de Ademir ser vitorioso nas urnas, desceram do muro e tomaram partido. Com isso, Evanisio foi freado. Seu índice ficou praticamente estabilizado ao que apontou a pesquisa. Sabe-se que ele e seu grupo empreenderam um esforço gigantesco para continuar no crescimento. Mas foi em vão.

Notisul – E qual a sua avaliação sobre a eleição em Braço do Norte?
Nazareno –
Já era notória nas ruas a força que a coligação do candidato Beto estava imprimindo. Mas é natural que o grupo de Ademir Matos pregasse que estava à frente na preferência do eleitorado. E mais uma vez a pesquisa IPC/Notisul situou publicamente a preferência do eleitorado naquele momento, ou seja, quase um mês antes da eleição o candidato Beto já tinha ampla vantagem sobre seu concorrente, o atual prefeito Ademir Matos. Mas, conhecendo a capacidade de reação de Ademir, muitos apostavam em uma virada. Só que o desgaste político de Ademir, que está no seu terceiro mandato, não permitiu essa reação. Pelo contrário. Quanto mais Ademir tentava reverter, pior ficava. Era como se estivesse atolado em areias movediças. Quanto mais se debatia, mais afundava. Entre suas estratégias, estava a de desacreditar os números da nossa pesquisa. Só que os eleitores lembravam que na eleição anterior, quando o IPC e o Notisul apresentaram os números que na ocasião lhes foram favoráveis, nós fomos citados nos palanques e nas entrevistas como sendo sérios e dignos de toda credibilidade. Então, essa estratégia também não vingou. E era visível o desejo de mudança que o eleitor de Braço do Norte demonstrava. Principalmente o eleitor mais jovem. E eles tiveram uma participação ativa e decisiva nesse pleito. Lamento que, por uma questão de investimentos, não realizamos uma segunda pesquisa em Braço do Norte. Uma pesquisa também mais próxima do dia da eleição. Acredito que os números ficariam muito próximos dos revelados nas urnas, tendo em vista que o distanciamento entre Beto e Ademir foi gradual, diferente do que ocorreu em Tubarão, que nos três últimos dias sofreu uma mudança acentuada na decisão dos eleitores.

Notisul – Houve pesquisa também em Capivari. Que tipo de análise é possível fazer?
Nazareno –
A pesquisa em Capivari foi realizada antes da desistência do candidato Brunel Alves. Com o afastamento de Brunel, o quadro se transformou por completo. Mesmo assim, o candidato Nivaldo, que foi apontado como favorito na nossa pesquisa, conquistou a vitória na eleição. Foi por uma diferença muito pequena, bem diferente da que se mostrava quando a pesquisa foi realizada, mas mesmo assim o candidato apontado por nós como favorito saiu vitorioso.

Notisul – Em Laguna, a pesquisa Notisul/IPC também antecipou a preferência do eleitorado. Ficou dentro do previsto?
Nazareno –
O quadro eleitoral também estava muito indefinido. Pelo que tive conhecimento, os candidatos Tanara, Candemil e Samir figuraram em algum momento como preferências do eleitorado. A nossa pesquisa apontou Candemil em primeiro, tecnicamente empatado com Tanara, que figurava em segundo e com uma margem pequena para o terceiro colocado no momento, o candidato Samir. Desconheço as razões, mas Tanara despencou rapidamente da preferência e Samir assumiu o segundo lugar. Mas Candemil ficou com a vaga de prefeito, conforme apontou nossa pesquisa.

Notisul – Dá de traçar um panorama geral sobre essas eleições?
Nazareno –
Primeiramente, quero deixar registrado o meu ponto de vista com relação aos números de votos destinados aos candidatos Joares, de Tubarão, e Beto, de Braço do Norte. É importante que Joares perceba que os 26.555 votos que ele recebeu não foram todos destinados a ele, ou conquistados por ele. Uma parcela desses votos foi de eleitores que não queriam Stüpp novamente na prefeitura. Outra parte foi dos eleitores adeptos da campanha ficha limpa. Juntados os votos chamados de úteis aos votos do ficha limpa e aos de Joares, somou essa diferença expressiva, que surpreendeu a todos. Acho essa leitura fundamental, inclusive para análises futuras. Fato semelhante ocorreu em Braço do Norte. Beto somou aos seus votos os votos da alta rejeição de Ademir. Uma grande parcela dos eleitores da Capital do Vale votaria em qualquer candidato que fosse oposição a Ademir. O diretor de um instituto de pesquisas que me visitou aproximadamente um mês antes da eleição foi profético. Afirmava ele que as eleições deste ano seriam diferentes. Que seria muito difícil para os institutos de pesquisas, pois a postura do eleitorado seria muito vulnerável, principalmente por influência das redes sociais. E ele estava correto. Quero aqui mais uma vez enaltecer a importância do trabalho dos institutos de pesquisas, os que trabalham sério, com metodologia eficiente. Eles são fundamentais para apresentar aos coordenadores das campanhas e ao público eleitoral a tendência de votos aos candidatos em dado momento. São verdadeiros termômetros. Agora, esses números, principalmente os das pesquisas registradas e publicadas, podem ser devastadores.

Notisul – Na sua opinião, qual o futuro político de Ademir Matos, de Braço do Norte, e de Carlos Stüpp, de Tubarão? Eles têm chances de voltar como prefeitos?
Nazareno –
Muito cedo para avaliar. A política partidária é muito dinâmica. Mas vou arriscar um palpite: Stüpp teve sua última chance de ser prefeito de Tubarão enterrada nesta eleição. Se ele quiser participar de um novo pleito, terá sucesso para vereador. Mas acho pouco provável que ele concorra para tal cargo. O PSDB já tem novos líderes despontando, dispostos a assumir a liderança do partido. E, para complicar mais a situação de Stüpp, Joares assume a prefeitura com o propósito de fazer um grande governo, o que o credencia a ser um forte candidato ao governo do estado. Ele não esconde de ninguém o seu projeto político futuro. Já Ademir acredito que no dia 1° de janeiro de 2017, após repassar a faixa de prefeito de Braço do Norte a Beto, vai iniciar uma campanha cerrada para derrubar o novo prefeito no próximo pleito.  Ademir retornar ou não ao comando da prefeitura de Braço do Norte vai depender definitivamente do desempenho do novo prefeito do município. E tenho a convicção de que Ademir vai ocupar um bom cargo em alguma esfera do governo estadual. Ele já foi secretário de desenvolvimento regional, um dos mais atuantes na regional de Tubarão. Sei que as áreas são mapeadas para os cargos. Mas, para mim, não será surpresa se Ademir e Beto apenas trocarem de cadeiras. Ademir pode assumir a ADR de Braço do Norte.