Amanda Menger
Tubarão

Notisul – Como é trabalhar com jovens que infringem a lei?
Celso
– É complicado, porque geralmente estes jovens não têm família e, quando têm, são desestruturadas. Eles não têm limites. A minha experiência é mais em Florianópolis. Eles têm um ritmo de vida diferente. É o crime, é a arma, é a droga, é rua. Eles acham o traficante bonito, ser traficante algo legal. O trabalho é complicado, mas é gostoso também. Eu gosto.

Notisul – É gratificante quando consegue dar uma nova perspectiva de vida aos menores?
Celso
– É sim. Muitas vezes, o monitor, que também é chamado de educador social, que está lá as 24 horas do dia com o adolescente privado de liberdade, ele é o psicólogo, é o assistente social, é pai, é mãe, é irmão, é amigo, é tudo no tempo que os jovens ficam lá, um ano, dois, até três. Muitas vezes, você vê ele triste, chorando, rindo. Em alguns, você vê que ele realmente quer sair daquela vida, mas não consegue porque para ele é difícil. Lá dentro da instituição, ele recebe apoio, mas, quando sai, não tem. Ninguém dá um emprego para ele, uma oportunidade. Você olha um adolescente de uma favela e muitos dizem: “não vou dar emprego para ele que ele vai me roubar”. Lá dentro do centro, eles têm escola, têm alimentação, roupas, um tratamento técnico com psicóloga, pedagoga, assistente social, enfermeiro, médico.

Notisul – Uma estrutura que a família não dá…
Celso
– É, muitas vezes, o adolescente chega lá no centro doente, com os dentes podres, desnutrido, todo machucado, magro do crack e lá dentro é diferente. Eu cito um caso de um adolescente que atendi no São Lucas, em São José. Ele era do oeste do estado e morava em uma barraca de lona. Quando ele chegou no São Lucas, disse que lá era melhor do que a casa dele. Conheci casos de adolescentes que roubavam e ligavam para a Polícia Militar e diziam onde estava o ladrão e o produto do furto para serem pegos e levados de volta ao centro. Para ficar lá por 45 dias para se livrar da pedra (crack), para ter comida, tomar banho, ter uma cama para dormir.

Notisul – Como vocês lidam com os jovens que são dependentes químicos?
Celso
– Quem faz mais este trabalho é o psicólogo, o psiquiatra e a assistente social. O agente pode fazer muito pouco, o que procuramos fazer é conversar. Mas não é uma conversa como estamos fazendo agora eu e você. Porque tem palavras que nós falamos que eles não entendem. Tem que conversar na gíria deles. Essa parte é com a equipe técnica.

Notisul – O mundo destes jovens é um mundo paralelo?
Celso
– É. Porque eles têm o mundo deles. O São Lucas, por exemplo, é dividido por alas, por nível, ala feminina. E cada ala é um mundo. Na maioria das vezes, a divisão é pelo ato que ele cometeu, pelo tamanho do adolescente, porque é mais difícil conviverem bem os maiores com os menores, por idade e por sexo. Quem tem de 18 a 21 anos fica separado. Os pequenos ficam em outro, por exemplo.

Notisul – Como você começou a trabalhar com estes jovens?
Celso
– Foi por acaso. Na época, eu tinha saído da Base Aérea de Florianópolis, onde fiquei por seis anos. E o estado tinha aberto inscrições para contratar pessoas para trabalharem no sistema. Eu precisava de emprego, fiz o currículo e fui chamado. Não fazia nem ideia do que era, achava que era uma escola, uma creche. Quando me deparei com os menores infratores, até me assustei. Mas, com o passar do tempo, fui me acostumando e gostando. Peguei experiência, um pouco de ‘malandragem’ também. Tem muita gente que começa e fica por necessidade. Para mim, no início, foi por necessidade, depois, porque gostei de trabalhar. Eu trabalho no estado desde 2000. Depois, quando abriu concurso, em 2001, eu fiz e passei. Hoje, sou funcionário de carreira do estado.

Notisul – Esta formação de militar, de Base Aérea, te ajuda neste trabalho com os menores?
Celso
– É bem diferente. Lá no centro, você tem que ter pulso firme porque, senão, eles montam em cima. Eles não estão acostumados a receber ordem, a ter limites, ter horários. Nesta parte, de manter o pulso firme, ajudou. Mas nas outras não. Acho que aprendi mais com a experiência, o contato diário. Fiz diversos cursos que a secretaria estadual de segurança pública ofereceu, de legislação com o Estatuto da Criança e do Adolescente, defesa pessoal e outros ainda.

Notisul – Você falou do ECA. As pessoas têm uma visão errada do estatuto?
Celso
– Elas têm uma visão errada sim. O ECA não prevê apenas direitos para as crianças e adolescentes. Mas tem deveres também. Assim como os adultos têm direitos, têm deveres. Está lá no ECA: o adolescente tem direito a escola. E ele tem o dever de ir à escola. O ECA acho que não foi bem entendido. Passou-se uma imagem errada. Se tivessem trabalhado o estatuto como ele é, com as duas faces, seria diferente.

Notisul – Pela sua experiência, para muitos adolescentes, o clima de violência para eles começa em casa?
Celso
– Tem muitos que são abusados sexualmente, tem muitos que o pai, o padrasto ou o responsável obriga a vender drogas. Tem aquele que tem 10 anos e está na rua vendendo bala ou pedindo dinheiro porque o pai ou a mãe obrigam e, se não voltarem com dinheiro, apanham. Já presenciei muitos casos de adolescentes que chegam queimados com pontas de cigarro, com hematomas pelo corpo inteiro porque foram espancados em casa. E aí muitos preferem sair de casa e ir para a rua. Na rua, tem as más companhias, as drogas, a maconha, o crack, e aí se pegou o crack não tem mais volta.

Notisul – A maconha é a porta de entrada? Ou hoje já é direto o crack?
Celso
– Eu acho que a maconha não é a porta de entrada. O crack está bem mais fácil de conseguir. Uma pedra minúscula custa R$ 5,00. Eu acredito que a companhia, com quem os adolescentes andam, tem uma influência maior. A maconha hoje é tão comum, infelizmente, que não é mais a porta de entrada.

Notisul – Neste quase um mês que você ficou em Tubarão como interventor do estado no processo de transição entre um convênio com a prefeitura e a administração por uma Organização Não Governamental, o que observou? A realidade do menor infrator na região é muito diferente da Grande Florianópolis?
Celso
– Muito. Os adolescentes aqui são mais tranquilos, mais educados. Eles têm mais respeito, têm mais medo. O adolescente aqui chora dentro do quarto. Em Florianópolis, meu Deus, se um adolescente chora, vira motivo de chacota para os outros. Dos 16 adolescentes que estavam no CIP (quatro deles fugiram no fim da tarde de quinta-feira), infelizmente, eu tenho que falar isso, se fizer um trabalho mais efetivo com dez deles, tranquilamente, tirava desta vida. Claro que é importante trabalhar todos, mas não é possível recuperar todos. Há muitos fatores envolvidos, principalmente fora da instituição.

Notisul – O que leva os jovens a infringirem a lei?
Celso
– Todo adolescente tem vontade de ter as coisas. Tênis de marca, roupas. Ele acha bonito o traficante que anda de arma. Ele vê o filho do fulano que tem dinheiro bem vestido, ele quer ter aquilo. Mas o pai dele não tem condições de dar, isso quando tem pai. A mãe sabe-se lá se está presente, se trabalha. Muitos apanham, saem de casa. E na rua, para ele ter os bens, tem que roubar. Para ter coragem de roubar, ele vai usar drogas. Porque na maioria dos assaltos, furtos, os adolescentes estão drogados, com crack, com o mesclado, que é a mistura do crack com a maconha. Aí eles vão e fazem. É para andar bem vestido. Muitas vezes, é também porque o traficante manda, para pagar o crack que ele estava usando. Ele rouba até dentro de casa para sustentar vício. Porque, se ele comprar fiado e não pagar para o traficante, ele sabe que vai morrer.

Notisul – A violência e a vida estão banalizadas para estes adolescentes?
Celso
– Não só para eles, para todo mundo. É mais fácil ser preso por roubar um carro do que por tirar a vida de alguém. A vida hoje não tem valor. Por causa de R$ 5,00, um mata o outro. No trânsito, a pessoa mata a outra. E parece que não acontece nada. Agora, se roubar um carro, uma galinha, como se diz, uma bolacha no supermercado, ele vai preso na hora. Agora, se matar, o advogado vem e tira. Está banalizado para todos. E para eles ainda mais. Para eles, matar, amanhã ou depois eles esquecem. Para grande parte, matar é uma brincadeira. Andar com a arma é brincadeira. Muitos dizem ‘ah, matei para um traficante, agora sou homem’.

Notisul – Para muitos deles, matar é um rito de passagem?
Celso
– É um rito. Porque eles vão passar do guri pequeno para homem. “Eu sou o cara”, como muitos falam. “Eu sou bom, eu matei”. Mas está muito banalizado, para todos.

Notisul – Vamos falar um pouco sobre esta experiência de ser interventor do estado. Este modelo que Santa Catarina adota de administração com ONGs está dando certo?
Celso
– Na maioria dos casos, está dando certo. Sempre terá e, em todos os lugares, profissionais bons e maus. Mas tem dado bons resultados. A ONG vem com outra visão. O estado vem com a visão de prender, porque é isso que a sociedade quer. Ela quer que prenda. Não quer saber o que ocorre na instituição. Quer livrar-se do problema. A ONG não. Ela já trabalhou ou trabalha com outros projetos nesta área com adolescentes. Ela vem realmente com a visão de ressocialização. De oferecer atividades. De manter o adolescente ocupado. Nesta parte, eu penso que o estado acertou.

Notisul – Como é a vida dos adolescentes que estão no CIP? O que é feito com eles?
Celso
– Um dos pontos é oferecer limites. Quando ele chega lá dentro, ele já não frequentava mais a escola, não fazia nada a não ser drogas. E lá no centro ele terá horário para tudo, para estudar, para comer. Nesta transição, que é pouco tempo, não deu para irmos atrás de outras atividades. Tem o pessoal do Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja) que atende lá, da Unisul e faz atividades com eles. No momento, é isso, é aula. Mas eu já conversei com o presidente da ONG, Oficina das Artes, que assume neste sábado o CIP, e tem muitas atividades legais. Eles vão oferecer oficinas de música, de arte, de desenho, pintura, aula e outras ações. Nós mudamos neste período de transição algumas coisas relativas aos horários, à disciplina, porque precisavam mudar. Se precisa de atendimento médico, nós levamos. O jovem que quer estudar fora precisa de parecer técnico e autorização judicial. E o pessoal que vai assumir já sabe que precisa oferecer muitas atividades, porque, enquanto eles não estiverem dormindo, precisam estar envolvidos, não podem ficar ociosos.

Notisul – E como está esta negociação com a ONG? Eles são de Tubarão, da região?
Celso
– A ONG Oficina de Artes Comunitárias é de Florianópolis. Eles já atuam em outros locais, inclusive são responsáveis pela Casa de Semiliberdade de Capivari de Baixo e desenvolvem ainda outros projetos com adolescentes. O presidente da ONG Oficina das Artes já trabalhou no Centro Educacional São Lucas, em São José. Ele era instrutor lá, dava as atividades aos adolescentes. A transição começou na sexta e segue até segunda. O pessoal já está indo lá, conhecendo. Na terça-feira, quarta, eu retorno, fico mais alguns dias. O departamento também enviará técnicos para dar treinamento. Eles terão o suporte do estado.

Notisul – Qual o próximo trabalho você assumirá, alguma nova intervenção?
Celso
– Não. Eu volto para a minha função administrativa no departamento, até surgir outra situação. O estado intervém quando a ONG não está atuando como devia, não dá conta do trabalho, ou quando acaba um contrato. Esse foi o caso de Tubarão. O convênio com a prefeitura venceu no fim de maio.

Notisul – Pela sua experiência, é possível ressocializar os adolescentes?
Celso
– Não todos. Alguns não querem, gostam da ‘vida de bandido’, de ser bandido, de ser traficante. De correr o perigo. Mas tem uma parte que dá, basta trabalhar.

Notisul – Eles têm consciência de que esta vida de crime é curta?
Celso
– Sim. Porque eles mesmos falam: “essa vida nossa ou é cadeia ou é caixa”. Sabem que é curta, que não vivem mais do que os 20, 25 anos, principalmente em Florianópolis. Eles sabem que ou vão morrer ou vão parar na cadeia.

Notisul – Qual é o tempo médio de permanência de um adolescente no CIP?
Celso
– O adolescente, quando pega o CIP, ele fica até 45 dias, porque é internação provisória. Quando ele pega a internação, fica de seis meses a três anos. A equipe técnica tem que fazer um relatório a cada seis meses, que é analisado pelo juiz. Ele é que decide se o adolescente pode sair ou se deve permanecer por mais algum tempo. Dificilmente sai, é em torno de um ano e meio.

Notisul – Em Tubarão, os adolescentes ficam um pouco mais do que os 45 dias?
Celso
– Tem aqueles que ficam mais. Porque o número de adolescentes infratores cresce a cada dia. E, no estado, temos três centros educacionais, mais dois devem ser construídos, mas só para o fim do ano ou no próximo. Como o número de vagas nos centros educacionais é menor do que o de adolescentes, aqueles que têm bom comportamento participam das atividades propostas e vão ficando no CIP. Se abrir vaga, ele vai para o centro, senão fica no CIP. Em Tubarão, tem adolescentes internados, com medidas de três meses e de seis meses a três anos. E isso não é o ideal. O CIP deveria ser mesmo só os 45 dias.

Notisul – Qual a diferença no trabalho feito pelo centro educacional e pelo CIP?
Celso
– O centro educacional dá para você fazer um trabalho de longo prazo, em média um ano e meio. Você consegue fazer um atendimento psicológico bom, o adolescente forma-se, pode concluir os estudos lá dentro. O trabalho é melhor, porque tem sequência. Muitas vezes, ele fica os 45 dias e é liberado. Não tem como fazer um grande trabalho. Você faz o básico, diferentemente do centro educacional, que tem tempo para atendê-los.

Notisul – O fato do adolescente que cometeu infrações chegar aos 18 anos e ter a ficha ‘limpa’ é um problema?
Celso
– Eu acho que o maior problema é deixar o adolescente chegar até esse ponto. Porque tem muita gente que não faz ideia do que é um CIP, um centro educacional, não pensa porque esse adolescente rouba, furta, mata. Eu tenho a minha casa, ela tem paredes, tem televisão, tem cama, tem comida na geladeira e a casa deste adolescente? A maioria não tem nem casa. O problema é a sociedade fechar os olhos e só se preocupar quando é vítima, quando lhe roubam algo.

Notisul – A maioria dos adolescentes que chegam ao CIP são de baixa renda?
Celso
– São de baixíssima renda, de pessoas que moram em barracas de lona. Tem casos também de famílias de classe média que não conseguem mais controlar o filho. Já internaram em clínicas para se livrar das drogas, e ele apronta novamente, e o juizado dá a chance para a família, para o adolescente e chega em um ponto que não mais como e interna. Tem classe média, mas são poucos.

Notisul – A redução da maioria penal é a solução?
Celso
– Aí sim será um problema para a sociedade. Porque, se hoje é difícil ressocializar em um CIP como o de Tubarão, com 16 adolescentes, imagina se jogar este adolescente em um presídio com 100, 200, 300 detentos? Tratar ele como um preso? Ele sairá de lá muito pior. Eu sou favorável a terminar com o internamento dos 18 anos 21. Porque o adolescente que tem passagens, se ele tem 18 anos e comete um crime, é levado para a cadeia, mas retorna ao CIP ou ao centro educativo. Se aos 18 anos ele é adulto, que responda como adulto.

Notisul – Sobre a fuga dos menores nesta quinta-feira, você tem algo a falar?
Celso
– No momento, não. (Leia mais sobre o caso, na página 23 desta edição).