Zahyra Mattar
Tubarão

Notisul – Com quantos anos o senhor sentiu que tinha a vocação sacerdotal?
Padre Raimundo
– Acho que aos pouquinhos Deus foi plantando esta sementinha no meu coração. Começou desde criança. Quando completei 11 anos, manifestei à mãe que queria ser padre. Adorada ver o padre da cidade, na época o saudoso padre Geraldo Spettmann, trabalhar e achava lindo. No ano seguinte, quando eu iria concluir o ensino complementar, manifestei a mesma vontade para as irmãs também (padre Raimundo estudou no Colégio São José). Elas não acreditaram e diziam: “Raimundinho vai ficar no seminário um ou dois meses e volta”. No fim das contas, fui para o seminário e completo neste dia 4 (sexta-feira) 60 anos de sacerdócio. As irmãs se enganaram redondamente, graças a Deus.

Notisul – O senhor nunca sentiu vontade de largar a batina e formar uma família ou até mesmo seguir outra profissão?
Padre Raimundo
– Vou ser bem franco: eu fui para o seminário de Azambuja com 12 anos. Naquele tempo, íamos para lá e tinha o chamado internato. Então, a gente ficava lá o ano todo. Só voltava para casa nas férias. Fui e chorei muito de saudades da minha família. Sabe como são os italianos da época: família enorme, comilança de domingo. Éramos felizes e muito apegados uns aos outros. Mas, com o tempo, a saudades foi passando. Tive ótimos professores e amigos. A cada ano, sentia que Deus me empurrava para a vida sacerdotal. Teve momentos que fiquei balançado, sim. Cheguei a pensar em voltar. Anos depois, recebi a batina e me preparei para ingressar na filosofia. Foi quando me mandaram para Mariana, em Minas Gerais. Eu e minha malinha. Sozinho, nunca tinha viajado assim. Depois, fui para São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, onde fiz a faculdade de teologia e, nesta mudança, balancei. Eu tinha 21 anos e sentia vontade de ser mais independente. Tinha decidido: não queria mais ser padre. Dois grandes amigos seminaristas ficaram perplexos e disseram que antes eu deveria conversar com o padre Luiz Müller, o diretor vocacional. Ele era uma figura. Olhou para mim e disse: “Ô Ghizoni, tu podes dar um bom pai de família ou um bom padre. Pronto, podes escolher, as duas coisas são boas para ti”. Eu respondi: “Certo. Escolho ser padre então. Já estou aqui mesmo (risos)”. A partir daí, nunca mais tive nenhuma dúvida quando ao sacerdócio.

Notisul – E como foi a ordenação?
Padre Raimundo
– Passei os quatro anos da faculdade e depois me ordenei padre, em 4 de dezembro de 1949, em Florianópolis, na Catedral Metropolitana. Foi uma das maiores emoções da minha vida. Chorei de emoção. Quatro dias depois, cheguei em Tubarão para rezar minha primeira missa na igreja Nossa Senhora da Piedade. Na época, não tinha a catedral. Minha família morava ali onde hoje é a Ases e, antes de eu vir para a igreja, meus pais me levaram para o oratório da casa e me deram a bênção. Foi um momento de muita emoção (o padre Ghizoni emociona-se neste momento e algumas lágrimas rolam. Ele continua, com a voz embargada). Foi um momento muito bonito, e muito real.

Notisul – O senhor foi literalmente o mestre de obras na construção da Catedral. Como foi?
Padre Raimundo
– O meu trabalho principal é o apostólico, o sacerdotal. Passei por São Ludgero, Araranguá, Criciúma e somente depois é que vim para Tubarão, em 1955, quando se criou a Diocese de Tubarão. Naquele ano, tinha somente a igrejinha velha e antiga de Nossa Senhora da Piedade, a Casa Paroquial, o edifício Dom Joaquim e as capelas de Mato Alto, Madre, Congonhas, São Martinho e Rio do Pouso. Fui chamado de Criciúma para cá pelo padre Monsenhor Bernardo Peters, que era o vigário geral, e pelo Dom Anselmo Pietrulha, o primeiro bispo de Tubarão, e fiquei como vigário paroquial. Quando chegaram os padres Urbano Mendes e Osni Rosembrock formamos um trio e começamos a trabalhar. Reunimos o pessoal mais graduado da cidade e formamos uma comissão para alavancar a Diocese de Tubarão. E foi daí que surgiu a ideia de construir a Catedral. E adivinha quem apontaram para ficar à frente da obra? Eu mesmo.

Notisul – E como foi que o senhor fez?
Padre Raimundo
– Na época, eu era o pároco da Catedral. Entrei no lugar do Monsenhor Peters, oito anos após minha chegada a Tubarão, em 1963. Organizei uma equipe de construção para ajudar. Naquele tempo, não tinha esta organização de hoje. O padre era um faz tudo. Qualquer coisa que a comunidade precisa sempre tinha um padre no meio (risos). Sabia que não estava sozinho. Começamos a construção da catedral em 1965. Isto porque a parte arquitetônica demorou muito. O trabalho real começou no dia 15 de agosto de 1965. Fizemos uma missa especial do lançamento da pedra fundamental. Ela está assentada bem na frente da Catedral até hoje. Nunca tive dificuldade grande na construção da Catedral. Fizemos rifas e eu buscava nas lojas e nas casas as contribuições. Teve um ano que fizemos uma rifa de 27 Fuscas. Era o carro da moda. Acho que nunca circulou tanto Fusca por Tubarão (risos). Quando faltava alguma coisa, eu subia a serra com o seu Alfredo Moreira Maia, meu ajudante especial, e pedia tábuas. Tinha parentes por lá. Família italiana é bom por causa disso. Sempre tem um primo, um tio em algum lugar (risos). Ia com o caminhão vazio e voltava com o caminhão cheio. No dia 4 de dezembro de 1971, cinco anos e meio depois do início da obra, a Catedral era inaugurada.

Notisul – Como foi para o senhor ver a cidade crescer?
Padre Raimundo
– Lembro muito bem quando cheguei em Tubarão para trabalhar como padre, em 1955. A cidade não tinha 35 mil habitantes. Hoje tem 100 (mil). A transformação, nestes 60 anos, é visível. Na década de 50, isto aqui era um vasto campo de pasto. Hoje, uma cidade enorme. A margem esquerda, lembro, não tinha quase nada. Duas ou três famílias moravam lá. Hoje, parecem duas cidade ligadas pelas pontes. Do lado de cá (margem direita), era mais habitado, especialmente nos arredores do Morro da Capela (hoje, Morro da Catedral). Tubarão mudou. E mudou radicalmente.

Notisul – E as pessoas, padre? Elas também mudaram muito na sua opinião?
Padre Raimundo
– Tínhamos um povo muito mais unido, muito mais fraterno, muito mais irmão. Havia praticamente dois partidos políticos, a UDN e o MDB. E o pessoal se entendia e se ajudava. Na construção da Catedral, por exemplo, nunca senti alguma diferença porque era de um partido ou de outro. Hoje, como tudo é diferente! A cidade está retalhada por partidos políticos que não pensam mais no coletivo. Estes partidos acreditam que, por serem estruturados, têm o poder de governar a cidade só para si, quando na realidade não é isso que tem que ocorrer. O partido político é só uma organização para se chegar ao poder. Depois disso, todas as siglas precisam entender que a cidade é uma só e deve-se trabalhar para o povo. E hoje não vejo mais isso. Eu e ninguém mais. Infelizmente, as autoridades sobem e obedecem somente as siglas partidárias e não a interesse do povo que governam. É triste.

Notisul – Quais as principais mudanças que o senhor observou na igreja nestes 60 anos?
Padre Raimundo
– Assim como a cidade e as pessoas mudaram, a igreja também…

Notisul – O senhor chegou a rezar missa em latim, padre?
Padre Raimundo
– Ô. E muito. Rezei em latim e virado de costas para o povo. A liturgia tem um esquema a ser seguido, um ritual que não muda muito, mas permite que sejam feitas alterações em diversas partes da missa. Seja mais simples ou mais solenes. Avalio que estas mudanças, principalmente o fato da missa ser feita em português, foram muito boas. O povo passou a participar mais. Antes, em latim, as pessoas apenas costumavam-se a ouvir palavras incompreensíveis e misteriosas. Ninguém entendia. Mas que é bonita uma missa em latim, ah é!

Notisul – O senhor já passou por alguma situação pitoresca nestes 60 anos de sacerdócio?
Padre Raimundo
– Ixi, muitas. Quando eu comecei, o padre era um faz tudo na cidade. Qualquer coisa que ocorria diziam: ‘chama o padre’ (risos). Quando eu comecei a trabalhar como padre, o caminho que percorria entre a matriz e as capelas era no lombo do cavalo. Uma vez, eu estava subindo a região da serrinha, ali para frente do Rio do Pouso. Eu e o cavalinho. De repente, vi uma caninana enorme, de mais de dois metros de comprimento. Eu iria levar a comunhão para um doente e cheguei lá tremendo. Sempre fui um cavaleiro atrapalhado (risos). Teve uma vez também, em Araranguá, que eu ia rezar a missa em uma capela afastada. Eu não conhecia o caminho. Disseram-me que não tinha problema. Era só embarcar na charrete que o cavalo sabia onde ficava a capela (risos). Mandaram eu atravessar a balsa e deixar o cavalinho me levar. Eu fui né! E não é que o cavalinho sabia mesmo o caminho!? Tinha mais sabedoria e juízo do que o cavaleiro (risos).

Notisul – Hoje, as missas são mais ‘agitadas’, os padres tornaram-se quase celebridades. Como o senhor vê esta renovação?
Padre Raimundo
– Admiro muito a liturgia da igreja. Com esta renovação, surgiram mesmo estas missas mais movimentadas, e acho muito bonito. Já participei de missas mais ritualísticas e de outras mais movimentadas. Acho que, se estiver dentro do esquema da igreja, cabem os dois gostos. Mais do que a movimentação da missa, é a participação do povo. Gosto de ver as pessoas cantando, dando as mãos. Aprovo muito esta renovação porque é uma maneira de levar a palavra do Senhor de uma maneira que toca o coração da pessoa. Acho bonito os padres que têm o dom de cantar, de movimentar a população. Só não concordo com estas missas-shows. O padre é um instrumento para levar a palavra de Deus e deve colocar-se no seu lugar. O padre deve apresentar Jesus Cristo ao povo e não a si mesmo. Na nossa região, caminhamos certo. Os padres, especialmente os mais jovem, fazem missas mais movimentadas, mas com muita responsabilidade e integridade.

Notisul – O senhor prefere a igreja como ela era antes, um pouco mais ritualística, ou a de hoje?
Padre Raimundo
– A igreja vai se adaptando conforme as necessidades do povo. Hoje, não podemos mais pensar em uma igreja onde o padre ande de batina ou reze a missa de costas e em latim.

Notisul – O senhor usou a batina por muito tempo?
Padre Raimundo
– Alguns anos sim. Era quente. Depois, veio a licença para usar o clegimam, que é o terno simples com aquela golinha de plástico branco. Agora, o padre veste-se como o povo, o que acho mais correto. Afinal, o padre está no meio do povo, para o povo e vestido como o povo. Não precisa uma veste espetacular para diferenciar: “Olhem, ali está o padre”.

Notisul – Na sua opinião, o conservadorismo da igreja católica é o principal motivo para a perda de tantos fiéis?
Padre Raimundo
– A igreja é conservadora somente no seguinte aspecto: ela guarda a verdade recebida de Deus através da sagrada escritura e da tradição. Então, a igreja conserva esta verdade. Neste sentido, admito que a igreja seja conservadora. Agora, no sentido pejorativo, não. Porque a igreja é muito para frente, está e caminha com a sociedade. A igreja adapta-se às épocas, apenas isso. Na África, por exemplo, o esquema da missa é o mesmo, mas eles cantam, dançam. A igreja absorveu a cultura do povo para poder evangelizar. E isso não tem nada de conversadorismo. Se fosse, não haveria esta adaptação. O que afasta o povo da igreja não é a liturgia, é a falta de educação religiosa. Os pais educam mais seus filhos somente nos valores terrenos. Os filhos não são nem convidados para irem em uma missa. Os pais estão caindo em um erro tão fatal que daqui a 15, 20 anos chorarão amargamente porque seus filhos não terão mais princípios morais comuns, eles serão individualistas. Hoje, o jovem valoriza somente a balada. Que erro. A igreja está de portas abertas, aqui será sempre valorizado, porque são os jovens que darão continuidade. O culpado não é o jovem, mas a má educação de pais e algumas escolas.

Notisul – Alguma pista do novo bispo?
Padre Raimundo
– Só Deus sabe! Lembro de todos os bispos que passaram por aqui e pela minha vida. Aqui em Tubarão, passaram três, mas para mim foram cinco. Primeiro teve o bispo Dom Joaquim Domingues de Oliveira, que era o arcebispo metropolitano de Florinópolis. Ele era muito fino, era tratado como um príncipe da igreja. Uma maravilha de pessoa. Depois, teve o Dom Anselmo Pietrulha, o primeiro bispo de Tubarão. Era um ser amigo, tomava caipirinha com a gente. Era um figuraça. Depois, o terceiro foi o Dom Osório Beber. Ele foi missionário aqui na região. Em seguida veio o Dom Hilário Moser, que foi o segundo bispo de Tubarão, que cuidou mais das vocações e do seminário. O quinto bispo da minha vida e o terceiro de Tubarão foi Dom Jacinto Bergmann. Quem virá agora é um enigma. Mas torcemos que venha logo, porque uma Diocese sem bispo é ruim.