Mário Kazuo Goto, de 61 anos, nasceu em Presidente Prudente, no estado de São Paulo, onde passou a sua infância e juventude. Filho de japoneses – seus pais vieram para o Brasil quando crianças -, o professor chegou em Tubarão no fim da década de 70 e adotou a cidade para morar. Ele tem três filhas e um neto. É formado em educação física. Além de professor, possui uma vasta experiência como árbitro, treinador e técnico, com participação em diversos campeonatos. Como educador, na Cidade Azul, passou pelo Colégio Galotti, Escolas Fábio Silva, Martinho Ghizzo, e Escola Técnica. Nesta última está a sua maior fatia de dedicação e leciona até hoje. Também faz parte da coordenação da instituição e é técnico de voleibol da fundação de esportes da prefeitura.  

 

Mirna Graciela
Tubarão
 
Notisul – Como surgiu a educação física em sua vida?
Kazuo – Esta pergunta é interessante porque, desde pequeno, não largava do meu professor de educação física, lembro até hoje quem foram. Onde eles estavam, lá eu também me encontrava. Então fui fazer a faculdade. No ensino fundamental, eu não era um bom aluno porque vivia com a cabeça em educação física. Passou esta fase, não tive mais nenhuma reprovação. Quando cursava a faculdade já era árbitro, me deram a oportunidade e aproveitei. E sempre pensava: quero ser professor, dar aula.  Mas também ser árbitro e técnico de voleibol. Tudo isso alcancei. Conheço todo o estado de Santa Catarina. Apitei muitos jogos de campeonatos. 
 
Notisul – O senhor já pensou em parar de trabalhar, já cogitou isso?
Kazuo – Não. Se isso acontecer e eu ficar em casa, acho que não vai dar certo. Gosto muito de estar envolvido com a educação, com os meus alunos. Brinco bastante, converso com eles, esse é o meu divertimento. Dar aula, muito treinamento e, quando estou de folga, pratico a pescaria, que é o meu lazer. Não é por estar com 61 anos que está na hora de encerrar meu trabalho. Não penso na idade. Meus alunos até me questionam: professor, por que o senhor não senta? Jamais faço isso, só se eu estiver passando muito mal. Tenho que dar conhecimento, explicar, dizer o que está errado e o que está certo. E não gosto de fazer a chamada se já conheço os alunos, para não perder tempo. No início, para adiantar, pergunto quem faltou.   
 
Notisul – Como o professor faz para não perder este ânimo e estar sempre renovado?
Kazuo – Acho que uma das coisas é tirar um tempinho, todos os dias, geralmente à noite, uns 10 minutos. Analiso o meu dia de trabalho e sobre o que errei. Pergunto-me: será que fui meio grosseiro com aquele aluno, muito áspero? Amanhã sou obrigado a falar com ele e pedir desculpas. Isso é importante, conversa e orientar. Também avalio o rendimento do conteúdo que passo. Hoje andou bem, com aquela turma não foi tanto, analiso no que falhei e assim vai. Paro, sento e penso. São duas linhas. Não é somente passar o conhecimento, mas também educar. Outra atitude que tenho é de jamais perante um aluno demonstrar cansaço, tenho que ser sempre forte. Porque o professor é o espelho, se você é um educador parado, o aluno repete a mesma posição e não tem estímulo.
 
Notisul – Foram 12 anos no Japão. Por que a decisão de morar lá? 
Kazuo – Fui para o Japão para trabalhar e conhecer a cultura dos meus pais. Naquela época minhas duas filhas cursavam a faculdade e outra estava quase. A situação como professor era um pouco difícil. E, naquele tempo, se ganhava até bem no Japão. Foram 12 anos que eu passava uma remessa de dinheiro para cá e mantinha minhas filhas nos estudos. Além de eu trabalhar em empresas, fiquei envolvido em atividades esportivas. Atuei em três indústrias e, modéstia a parte, sempre fui um líder, onde tinha a responsabilidade de comandar grupos brasileiros. Trabalhava em linhas de montagens de computadores. Também tinha vontade de conhecer minhas origens e aprender muito, buscar novas experiências. E foi o que ocorreu. O sistema, como se trabalha, o comportamento, a disciplina no que diz respeito a horário, tudo. As professoras de História e Geografia aqui na escola me convidam para dar as aulas quando é a parte do Japão. Tenho transmitido os meus conhecimentos, nas palestras. Como funciona a educação no país, como são os meios de transporte, então tenho repassado tudo isso; o respeito, a disciplina. Voltei em 2006 e logo em seguida a Escola Técnica me contratou e a prefeitura também para que eu assumisse o voleibol.   
 
Notisul – O que mudou na sua vida, em termos gerais, depois de ter morado no Japão?
Kazuo – Quando você chega lá, entra no ritmo de trabalho e de horário, de tudo determinado, as coisas muito corretas, se aprende muito. No Japão, se algo é marcado para as 8 horas, por exemplo, um minuto depois, você está atrasado. A parte escolar, o comportamento, tudo isso tenho aplicado. Onde não tem disciplina, nada funciona. Seja no trabalho, na escola, então aprendi muito. Outro ponto é o trânsito, há um respeito muito grande. Jamais alguém estaciona em local proibido, as leis são obedecidas. Como professor, levo a disciplina muito a sério. Para sentar, tem que ter postura, para entrar tem que pedir licença, cobro tudo isso. E tem me dado resultados positivos. Não tenho dificuldades de trabalhar com meus alunos, sou muito amigo deles, mas na hora de cobrar sou linha dura. E também ajudo muito, eles têm coragem de falar sobre os problemas de família comigo. Quando adquirem confiança, abrem o jogo e eu oriento sobre os mais variados assuntos. Caso ocorra algum problema e o aluno está nervoso, com raiva, revoltado com um professor ou outro estudante, em uma discussão, tento tranquilizá-lo e dizer que ele tem que ter calma, paciência. Professor que guarda raiva e rancor de aluno não é um bom educador. Tudo isso aprendi no Japão. Sobre o respeito, o comportamento, a ética, enfim a cultura do povo japonês. Um exemplo é o de não jogar um papel na rua, lixo é no lixo. Hoje, em nossa escola, se você chegar aqui após o recreio, não precisa varrer o pátio. Mas foi com muito trabalho. Eu e o professor Antônio implantamos um sistema na escola. Estamos sempre cobrando e questionando. Por que você jogou? Por favor, vai lá e pega. Eles reconhecem e dizem que estamos certo, que devemos manter o pátio limpo, assim como também não devem estragar as coisas, afinal são os pais que pagam. Tenho conversado muito. Não admito fazer a aula de boné, mascar chiclete. Cobro essas coisas, sim. Acho que é o certo.  
 
Notisul – E o aluno de hoje? Ele é diferente dos mais antigos?
Kazuo – A disciplina antigamente era melhor, tudo com mais cobrança, havia mais respeito. Existem inúmeros fatores que contribuíram ao longo do tempo que, para enumerarmos, ficaríamos horas aqui. Mas você, como professor, tem que cobrar. Se desejar de fato que as coisas andem, com vontade profissional de verdade, é necessário tomar uma postura. Não entro em uma sala se os alunos não estiverem todos sentados na posição correta. Jamais começo uma aula com eles em pé e na bagunça. Quando estou perto da porta, eles já gritam: o professor Kazuo chegou! Na chamada de presença, para mim ‘aqui’ não é resposta. O certo é presente (com força). Depois, nas atividades, a gente brinca, conversa, há momento para tudo. Isso tudo os alunos vão aplicar para o resto de suas vidas. Tem professor que diz: não consigo dar aula naquela sala. Será que não é o instante de fazer uma análise? Não falta um certo domínio, uma imposição? De avaliar a forma que você trabalha? Tem turmas que você vai encontrar mais dificuldades, mas com alunos de ensino fundamental ocorrer isso? Acho estranho.
 
 
Notisul – Como o senhor vê a importância do esporte na formação das crianças e adolescentes?
Kazuo – Nesse tempo em que trabalho, não há nada melhor do que colocar um aluno no esporte. É o caminho certo. Todos os que passaram por mim nas atividades estão bem hoje. Dificilmente um que saiu trilhou um caminho errado. Mas o esporte com trabalho, orientação e com respeito, ao companheiro e ao adversário. Jamais colocar que aquele atleta é o melhor, nunca. Não admito isso nas minhas aulas e nos treinamentos. Temos que dar oportunidade para todos. Sempre com muita conversa e dizer para o aluno que hoje ele não está tão bem, mas amanhã estará melhor. Jamais dizer que um adolescente é fraco e não tem aptidão para aquilo. Eles participam de competições, em contato com os demais colegas. O esporte é fundamental não somente pela parte física e de saúde, mas para se tornar um bom cidadão, uma pessoa honesta. O esporte ensina isso e também para ser mais esperto e ativo em tudo. E se a pessoa tem uma boa orientação, não vai trilhar um caminho errado. Sempre digo: não vá para o outro lado porque é cadeia ou um caminho pior.  
 
Notisul – Dos alunos que o tiveram como professor, existe algum que se destacou?  
Kazuo – Sim, com certeza. Tem alunos que tivemos o prazer de mandar para a seleção catarinense, um menino no ano passado foi campeão dos jogos escolares de Santa Catarina, outro que foi aos jogos escolares brasileiros, sempre tem os destaques. Isso é um orgulho, uma felicidade, mas o mérito é daquela pessoa. A gente transmite o conhecimento, no entanto a dedicação é dele. Mas também temos que ter em mente que aula de educação física não é para formar atletas, mas sim formar pessoas participativas e atuantes e, principalmente, cidadãos de verdade. Também existem estudantes que hoje estão bem posicionados. São médicos, empresários e outras profissões e nos encontram. Aqui na Escola Técnica, por exemplo, tenho o orgulho de trabalhar com seis professores que foram meus alunos.     
 
Notisul – Qual sua avaliação sobre os Jogos Escolares de Tubarão (Jetuba), que ocorre atualmente na cidade, quanto à participação?
Kazuo – A Escola Técnica participa com 20 modalidades e mais de 100 estudantes. Se não me falha a memória, somente não estamos no skate de rua e no tênis de mesa. Não entendo porque a participação no Jetuba ainda é pouca. Em instituições escolares grandes com 800 a mil alunos, o número de competidores é pequeno. Por exemplo, no basquetebol apenas uma equipe se inscreveu, que é a da Escola Técnica. Não tivemos competição, ficamos sem jogar.  É triste, lamentável. Não sei os motivos desta falta de interesse. Uma coisa é certa: o aluno quer. Quando os jogos escolares iniciaram, nós estamos na trigésima primeira edição, durante um bom tempo os ginásios eram lotados. Hoje, tem vezes que somente as equipes estão no local.
 
Notisul – E sobre a violência no esporte, como por exemplo, nas torcidas de futebol e também entre os jogadores?
Kazuo – Acho isso um absurdo. A pessoa que vai para um estádio para brigar deve ficar afastado dessas atividades. Não é possível onde tem crianças, famílias, o pessoal não vai para assistir, mas sim com intenção de criar atrito e brigas. O esporte não é para isso, essa não é sua função. Estas pessoas não têm como objetivo ver seu time. 
 
 
Kazuo por Kazuo
Deus – Amor.
Família – Realização.
Trabalho – É tudo.
Passado – Aprendizado.
Presente – Momentos
Futuro – Novas realizações.
 
 
"Jamais admito que um aluno chame outro de burro ou besta. Eu paro a aula e converso individualmente".
 
"Muitos dizem que o aluno tem que vir educado de casa. Concordo, mas o professor também tem que ajudar”