Valter Alves Schmitz Neto é pró-reitor de desenvolvimento e inovação institucional da Unisul desde 2008. Ingressou na universidade em 1976, como estagiário. Passou por todos os cargos de auxiliar, de administração, foi professor e coordenador de cursos. Também foi diretor dos campi de Tubarão e Florianópolis. Hoje, Valter faz parte do Conselho Científico-Tecnológico do parque tecnológico Sapiens, de Florianópolis. Também participa do projeto de estruturação de um parque em Tubarão.

Karen Novochadlo
Tubarão

Notisul – No que consiste o projeto do parque tecnológico Sapiens, em Florianópolis?
Valter –
A concepção do projeto é instalar, em uma área física, a cidade do conhecimento. A criação da infraestrutura atrai empresas, projetos, ideias e pensamentos relacionados com a inovação. Só que a ciência a partir da tecnologia e inovação transforma esses conceitos em empreendimentos que geram trabalho, emprego e renda. Na época da Revolução Industrial, as chamadas indústrias das chaminés geravam riquezas. Na época medieval, a riqueza era a agricultura. Hoje, o que gera riqueza, agrega valor, impulsiona o trabalho, o emprego e a renda é o conhecimento voltado à inovação. A ideia do Sapiens é criar um espaço físico com condições de infraestrutura, de política, condições ambientais que estimule a instalação de empresas que associem ciência, tecnologia e inovação na geração de conhecimento.

Notisul – Neste ano, começou uma nova etapa. Tem alguma data para determinar a consolidação do projeto?
Valter
– Vamos separar em três momentos históricos do parque. O primeiro momento foi chamado de marco zero, onde foi feita a concepção do projeto, a regularização das áreas, os projetos urbanísticos e arquitetônicos, a instalação da infraestrutura de gestão. Na segunda fase, os projetos de infraestrutura estão em execução. Ou seja, fazer as ruas, as quadras, definir o plano diretor. Nós falamos de empreendimentos de inovação, mas também imobiliários. Afinal, onde essas pessoas vão morar? Onde as pessoas vão se divertir nos intervalos de almoço? Também se instalam as primeiras empresas. Uma delas é o Instituto do Petróleo, Gás e Energia (Inpetro), em uma área de pesquisa da Petrobras. São investidos R$ 35 milhões no empreendimento, que deve ficar pronto no começo do próximo ano. Também se instala a Farmos, um laboratório de pesquisa do Ministério da Saúde e outras parcerias. Na Farmos, são investidos entre R$ 15 e 20 milhões, também fica pronta no início do próximo ano. Está instalado o Inova lab, que é uma incubadora de projetos de tecnologia. Foi investido R$ 5 milhões. Junto à instalação do nosso conselho, foi aprovada também a Softplan, onde será investido R$ 23 milhões. Para ter uma ideia, estas empresas, só de funcionários, terá mais duas mil pessoas, que terão que morar lá ou próximo.

Notisul – Para Tubarão, também é estudada a criação de um parque tecnológico?
Valter –
Para Tubarão, estudamos junto à prefeitura, a Associação Comercial e Industrial de Tubarão (Acit) e da Unisul, a criação de um parque de inovação tecnológica, mas de uma dimensão menor. Primeiro, porque não há inovação tão grande para tanto espaço (risos). Para se ter ideia, no estado, existem 18 parques no porte do de Tubarão sendo instalados. O sapiens é o pai e a mãe destes parques. Alguns irão vingar e outros não. O de Tubarão, nós temos o cuidado de dimensioná-lo, ao pensar 30 anos no futuro. Se levamos 20 anos para consolidar o Sapiens, devemos pensar em Tubarão em 2050. Também devemos pensar na localização. Não posso antecipar o local, porque isso faz parte de uma política pública. A ideia é ocupar uma área de 20 a 30 hectares. Com os projetos imobiliários e arquitetônicos, urbanísticos e de lazer, se estenderá por 100 hectares.

Notisul – Como funcionará o parque?
Valter –
O parque será multifocal. Para isso, projetamos as características e vocações regionais para instalar como inovação. É um parque de inovação que trará empresas nas áreas: fármacos, porque a nossa área de farmacoterápico é bastante forte; tecnologias de informação e comunicação; química em geral, na nossa região há muita concentração na área de estudos de polímeros, da própria cerâmica; outra área importante é a do vestuário, mas nós não falamos em vestuário, mas na questão da moda. Agregaremos conhecimento pela questão de estética e design. Temos que pensar em algo que agregue valor pelas nossas características regionais e empresas existentes. Também terá uma área transversal a tudo isso, que é a questão de gestão de processos de logística.

Notisul – A questão de logística envolve toda a região?
Valter
– Nós estamos em uma região que irá crescer por conta da instalação do Porto de Imbituba, do futuro Aeroporto Regional em Jaguaruna, da duplicação da BR-101, que, apesar de lenta, acontece. Parece que o nosso trechinho tem uma cabeça de burro enterrada ali (risos). O aeroporto tem uma forte vocação para cargas, apesar de ser construído para passageiros. Daqui a pouco, teremos uma BR-101 duplicada que conectará o Mercosul a todo o norte do país. Também temos a ferrovia litorânea.

Notisul – Com tudo isso, Tubarão e região irão crescer.
Valter
– Vamos adotar Imbituba como exemplo. Hoje, o município, de acordo com o último censo, tem 42 mil habitantes. Se tudo ocorrer como o previsto para o porto, vamos imaginar em 2020, Imbituba terá 95 mil habitantes. Essa Imbituba de 2010 tem um orçamento público de mais ou menos R$ 50 milhões por ano. Em 2020, terá cerca de R$ 180 milhões. Quando toda infraestrutura planejada estiver concretizada, poderemos olhar para a cidade como uma nova São Francisco do Sul. Você olha para o norte do estado, é como será o sul no futuro. Mas a nossa vantagem é que estamos planejando. Tudo isso é o planejamento. Por isso, em Imbituba, está se fazendo o Plano de Desenvolvimento e Zoneamento Portuário (PDZ), que auxiliará na confecção do Plano de Desenvolvimento Urbano Municipal. O Porto impacta mais do que Imbituba. Não podemos focar em uma única região, porque todas serão influenciadas. Por exemplo, não há necessidade que Imbituba brigue pela instalação das grandes indústrias na cidade. Porque precisam ser destinados espaços para os terminais de contêiner. As indústrias pesadas podem ficar em Jaguaruna, por exemplo. De frente para a BR-101, de costas para o Aeroporto e passando pelo trilho.

Notisul – É interessante, porque o secretário de planejamento Filipe Mello veio a Tubarão na semana passada e o secretário de desenvolvimento regional em Laguna, Christiano Lopes de Oliveira, disse que não estávamos muito preparados para recepcionar as empresas que queriam se instalar aqui. No caso, ele referia-se à BMW.
Valter
– Eu não conheço o secretário Christiano Lopes de Oliveira, mas, por exemplo, se ele tivesse procurado a universidade, antes da entrevista, poderia ter obtido mais subsídios. Isto foi o que o prefeito Manoel Bertoncini fez. Ele pediu ajuda para pensar junto um parque de inovação tecnológica. O prefeito Beto Martins de Imbituba fez a mesma coisa.

Valter por Valter

Deus: Grande arquiteto do universo.
Família: Tudo.
Trabalho: Muito importante e precisa ser motivador.
Passado: Nosso passado foi de desintegração e sem uma visão de futuro.
Presente: É um fator de aglutinação e de reflexão sobre o futuro.
Futuro: Vejo a região sul de Santa Catarina como uma das mais promissores do sul do Brasil.

"Não podemos esquecer que o Porto de Imbituba é um dos melhores do Brasil, por conta da baía e do calado. É um dos mais viáveis graças às condições naturais."

"Se eu fosse mais jovem, investiria muito no sul de Santa Catarina. Mas, por causa do presente que estamos refletindo de forma integrada, como ações estruturantes. Se não fizermos isso, a BR-101 estará aí, mas o caminhão do Rio Grande do Sul passará a 100km/h porque a estrada estará boa para o norte. Tem criar condicionantes para a pessoa continuar aqui."