Amanda Menger
Tubarão

Notisul – Qual é a visão que se tem hoje do trabalho? Ele é ainda uma forma de propiciar a dor ou ele dignifica o homem?
Carlos Ghisland
– Ainda temos estes dois conceitos de trabalho muito impregnados. São questões culturais e que têm a ver também com um posicionamento religioso. A visão mais antiga é a da purificação pela dor, e daí a origem das palavras trabalho e trabalhador em latim, que fazem referência a um instrumento de tortura. Este é o conceito judaico-cristão de que trabalho é dor. E isso é referência ainda a sociedades com perfil escravocata.

Notisul – O que significa exatamente isto?
Carlos Ghisland
– Significa que a acumulação de riqueza é feita a partir da exploração do trabalho do outro. Com isto, temos a classificação de que alguns trabalhos são melhores do que outros e, por isso, merecem um pagamento melhor.

Notisul – Este é um conceito que vem dos gregos clássicos. Para eles, o cidadão deveria ser livre para pensar e o trabalho seria destinado aos escravos. Esta é uma herança deles?
Carlos Ghisland
– É sim. Para eles, o trabalho pesado, que exigia o uso da força era algo inferior, portanto, deveria ser feito por escravos. Já o trabalho intelectual, o pensar, era algo nobre, que deveria ser exercido por aqueles que eram livres. Por isso que, até hoje, há um preconceito com as profissões que usam mais da força física do que do intelecto, apesar de que isto é relativo também, porque o pedreiro precisa de vários conhecimentos para poder exercer o seu trabalho, por exemplo. O agricultor também, é um trabalho pesado, arar a terra… mas ele precisa de conhecimento para saber o que plantar e quando plantar.

Notisul – E a outra visão, a de que o trabalho dignifica o homem?
Carlos Ghisland
– Este é um conceito que surgiu no fim da Idade Média, no século 15, com a Reforma Religiosa e o surgimento da fé protestante, luterana, calvinista e anglicana, em princípio. Estas pessoas dedicavam-se ao comércio e conseguiram acumular muitos bens e riqueza. Porém, para a igreja católica, esta riqueza era algo impuro, porque vinha da usura, ou seja, do lucro, dos juros. Era preciso encontrar algo que justificasse este acúmulo e até mesmo glorificasse este trabalho. Claro que outros fatores também contaram para que Martinho Lutero desse início ao movimento da Reforma que se espalhou pela Europa. Para os protestantes, se a riqueza fosse fruto do trabalho digno, era um sinal de que você era um escolhido por Deus e que iria conseguir a salvação, além disso, você tinha por obrigação ao empreender um negócio de dar trabalho a outras pessoas e que elas pudessem assim conseguir a salvação também. Por isso a idéia de que o trabalho dignifica o homem.

Notisul – Esta é a percepção que foi analisada pelo sociólogo Max Webber, no fim do século 19, no livro A ética protestante e o espírito do capitalismo?
Carlos Ghisland
– Exatamente. Webber resolveu pesquisar se esta idéia dos protestantes em relação ao trabalho tinha a ver com o desenvolvimento do capitalismo e com a riqueza de alguns países que tinham tradição protestante, como é o caso da Alemanha, da Inglaterra e dos Estados Unidos. E ele observou que essa ética protestante possibilitou o desenvolvimento do sistema capitalista nestes países. Isso porque era necessário mudar esta idéia de que o trabalho físico era algo inferior. O liberalismo econômico prevê que haja uma sociedade de consumo. Portanto, para alguém comprar, precisa de dinheiro, de capital, e isso é feito por meio do pagamento dos salários decorrente do trabalho. Assim, o trabalho passa a ser algo digno e que faz parte do cotidiano.

Notisul – E como começam as lutas trabalhistas? O correto é Dia do Trabalho ou do Trabalhador? Pelo IBGE, na listagem oficial dos dias que são feriados, consta como dia do Trabalho…
Carlos Ghisland
– É que depois, com o presidente Getúlio Vargas, ganhou oficialmente este nome. A luta dos trabalhadores por condições mais dignas e humanas de trabalho começaram ainda no século 18, com a quebra das máquinas porque elas substituíam o trabalho dos homens e depois no século 19 nos Estados Unidos, naquele episódio em Chicago que vários trabalhadores foram mortos por reivindicar a redução da jornada de trabalho. Este caso ocorreu no dia 1º de maio. A data passou a ser lembrada na França, depois na Rússia e no Brasil também. No país, esta luta trabalhista começou com o movimento anarquista, em São Paulo, nas décadas de 10 e 20, quando foram promovidas greves que pararam a capital paulista, em 1913 e 1917. Nos anos seguintes, os partidários do comunismo, do socialismo unem-se nesta luta pelos direitos trabalhistas. Com a revolução de 1930, com Getúlio Vargas, a situação vai mudar com a implantação das leis que regem o trabalho. Portanto, antes de 1930, a data era lembrada mesmo com o Dia do Trabalhador; com Vargas, passou a ser do Trabalho, com a filosofia dos partidos trabalhistas.

Notisul – Há uma mudança na forma das empresas, patrões, de tratarem os funcionários? Oferecer benefícios faz com que os negócios se tornem lucrativos?
Carlos Ghisland
– Eu acredito nisto, e as pesquisas feitas por teóricos no mundo todo apontam para esta mudança. Um trabalhador feliz, saudável, produz mais em menos tempo. As empresas contemporâneas, que perceberam esta possibilidade e investiram, têm um ótimo retorno por parte dos funcionários com produtividade e, conseqüentemente, lucro. Mas eu acredito que, para que isto também ocorra de fato, é preciso uma mudança na mentalidade dos nossos sindicalistas, que é ainda muito ligado a um período histórico em que a exploração do trabalhador era muitíssimo maior, com jornadas de mais de 12 horas por dia de trabalho.
Notisul – O senhor por duas vezes fez referências ao sindicalismo no Brasil. Seria melhor para o movimento social se os sindicatos não precisassem ser autorizados a funcionar pelo congresso nacional?
Carlos Ghisland – Eu não tenho dúvida que a política trabalhista do governo Vargas trouxe benefícios para os trabalhadores; também, infelizmente, errou ao atrelar os sindicatos ao governo. Isso trouxe uma deformação ao sindicalismo e prejudica as relações entre a sociedade civil e o estado, na luta pela democratização da sociedade. Esta foi, de certa forma, uma maneira de diminuir o poder de pressão do sindicato sobre o governo. Exatamente por isso, eu acredito que a democracia no Brasil é capenga e é uma questão cultural secular. Fortaleceu-se durante muito tempo a necessidade de esperar tudo do estado, e para mudar este pensamento ainda vamos precisar de muito tempo.

Notisul – Então, pode-se dizer que hoje vivemos um período de transição nas relações trabalhistas? Será que não corremos o risco de, ao flexibilizar certas leis, voltarmos a situações tão ruins quanto às do início da Revolução Industrial, com jornadas de mais 12 horas, sem salário mínimo, férias, 13º salário, licença maternidade, entre outros?
Carlos Ghisland
– Acredito que vivemos, sim, um período de transição, mas não acredito que isso possa indicar um retrocesso, de voltarem atrás nestes direitos que foram conquistados pelos trabalhadores. Temos hoje muito mais acesso às informações, com os meios de comunicação, com uma grande diferencial que é a internet. A história nunca andou para trás. A humanidade caminha para frente, com certeza. Até os mais críticos, se perguntados em que período da história gostariam de viver, diriam que é hoje, pelos recursos que temos e pela perspectiva de um futuro melhor.