A vida dele é salvar vidas. José Nixon Batista, o chefe do setor de emergência do Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Tubarão, é potiguar de Mossoró, mas desde 2004 está na Cidade Azul. Formado em medicina pela Unisul, ele mesmo descreve-se como uma prata da casa no HNSC, já que utilizou o seu atual local de trabalho como um lugar de aprendizado. Após fazer residência no hospital regional de São José e estar com o diploma na mão, Nixon estava pronto para voltar ao Rio Grande do Norte, mas aceitou o convite com o hospital tubaronense, em 2008, onde este até hoje. Pai do Guilherme, que também quer ser médico, e da Alana, Nixon não se imagina longe da emergência.

 

 
Thiago Oliveira
Tubarão
 
 
Notisul – Como é trabalhar na emergência de um hospital do porte do Nossa Senhora da Conceição?
Nixon – Digo sempre o seguinte: para trabalhar em emergência, tem que ter perfil e um olho de águia. Toda hora você recebe pacientes com os mais distintos tipos de queixas. Uma dor no peito, por exemplo, pode não ser nada, mas também pode indicar o começo de um infarto. É a única profissão que não admite erros. Você tem que olhar cada paciente detalhadamente. Não deixar passar nada. Porque se você perder um detalhe, você perde uma vida. E isso ninguém perdoa. O médico que trabalha na emergência é cobrado do colega, de si próprio, de toda a equipe, da sociedade… Por exemplo: você atende quatro mil pessoas no ano. Se deu tudo certo, você fez a sua obrigação. Mas se tiver um pequeno erro, acabou a sua carreira. E outra coisa: às vezes você está com um paciente grave e chega outro. Não é todo profissional que tem perfil para isso. Boa parte dos médicos que se formam hoje, querem a medicina clínica ou a cirurgia plástica. Tanto que a carência de profissionais para emergência é absurda.
 
Notisul – E como é lidar com essa pressão?
Nixon – Particularmente gosto e não acho pressão. Depois que você cria uma certa experiência, torna-se mais fácil. Mas lógico: você nunca pode mandar um paciente para casa quando tem dúvida. É preciso reavaliar, reexaminar, pedir novos exames, uma segunda opinião. Assim não tem como errar, a não ser que seja relapso. O médico que olha, não investiga e manda embora vai ter problemas. Estou desde agosto de 2008 aqui e nunca tive nenhum tipo de problema. 
 
Notisul – Entre tantas áreas na medicina, porque a emergência?
Nixon – A emergência tem uma coisa muito boa, que é não ter a rotina. Todo dia você enfrenta coisas novas. Às vezes a gente nem decora o nome do paciente, mas eles lembram de nós. Um dia eu salvei uma senhora que me trouxe uma camisa. Eu nem lembrava dela, mas ela lembrava de mim. A gratidão para o médico não tem dinheiro nenhum no mundo que pague.
 
Notisul – Como está essa questão dos casos mandados para os postos de saúde?
Nixon – Em janeiro, a direção instituiu em fazer a triagem. A maioria dos atendimentos eram coisas banais, que podiam ser feitos nos postos de saúde, mas transferia-se esta responsabilidade para o hospital. Cabe ao município prover atendimento ambulatorial, consultas. O responsável pela saúde da população é o município e não o hospital, que é uma instituição privada e que tem convênios, entre eles com o SUS. Temos o hospital com o maior numero de atendimentos pelo SUS em Santa Catarina. Mas isso não dá direito de fazer qualquer consulta lá. Por isso fizemos essa triagem. Mas se chega um paciente na sexta-feira, às 18 horas, não temos para onde mandar e o atendemos. Cada caso é um caso. O cara não pode esperar até segunda-feira. Espero que com o Pronto Atendimento 24 horas, isso mude. Temos 32 postos de saúde em Tubarão. Acredito que pelo menos dez devem estar sem médico. Abrir unidade básica é simples. O difícil é fazer funcionar. Não adianta ter 32 postos e mandar fazer exame de urina na emergência do hospital. Um posto de saúde tem que ter médico qualificado, raios-x e laboratório. Caso contrário o médico vai lá só para repassar à emergência do hospital. Espero que com o Pronto Atendimento estas questões sejam solucionadas. Que o município consiga fazer o básico. Os médicos que estão na emergência são para atender os casos graves. Tenho inúmeros encaminhamentos à emergência, feitos por enfermeiros. Ou seja: a pessoa vai no posto de saúde, não tem médico, a enfermeira faz uma cartinha e manda para o hospital. E nós mandamos esse cidadão para onde? O correto era ter um médico no posto. 
 
Notisul – Então acredita que o poder público não está dando a atenção necessária para a saúde?
Nixon – Com certeza. A área de saúde, principalmente a assistência básica, é algo muito precária em Tubarão. Vai em um posto de saúde para conferir. Com sorte, você acha o médico lá. E tomara que não precise de exame. Se precisar vai esperar dias. O cidadão vai no posto com infecção urinária e tem que esperar dias para fazer o exame. Não pode. Isso tem que ser rápido. E acredito que o município tem verba para isso. Estão colocando onde o dinheiro que vem para a saúde? Esta situação não é de hoje. E o reflexo direto é na emergência do hospital, que tem que resolver tudo.
 
Notisul – E o que precisa ser feito para melhorar?
Nixon – Precisa cuidar da assistência básica de saúde. Como Tubarão, que todo ano contrata de 60 a 80 médicos, tem falta deste profissional? Alguma coisa está errada. Se existisse condições de trabalho e um salário digno, não faltaria. Médico tem. Falta interesse em trabalhar em posto de saúde. Os médicos de unidade municipal fazem bico, porque o salário é de bico.
 
Notisul – Acha que o hospital comporta toda essa demanda de pacientes?
Nixon – A demanda é grande e aumenta a cada dia. Quando comecei a trabalhar lá, não via macas pelo corredor. Hoje isso é comum. Os hospitais de pequeno porte da região estão cada dia piores. Estão endividados ou a um passo de fecharem as portas. Pacientes de Laguna e Jaguaruna, por exemplo, nem passam pelo hospital nas cidades deles. Não confiam. Preferem vir para Tubarão e esperar horas na fila.  Isso é ruim. Capivari de Baixo tem um Pronto Atendimento maravilhoso, com todas as condições de atender um paciente. E mesmo assim muitos cidadãos saem de lá para virem para a emergência do HNSC. Se cada hospital da região tivesse boas condições, leitos, o nosso teria mais vagas. No Brasil, nos últimos dez anos, quantos hospitais foram construídos? Mas vamos fazer uma Copa do Mundo, construir estádios. Enquanto isso a saúde continua a mesma porcaria. O Brasil é como pobre metido: anda de roupa de marca, carrão, deve até as calças e dentro de casa não tem nem o que comer. Quem está fora acha que é uma maravilha, mas dentro a coisa está feia.
 
Notisul – Como o senhor avalia o SUS hoje?
Nixon – No papel é muito bom. Para a alta complexidade temos o melhor plano de saúde do mundo. Por exemplo: você precisa de um transplante ou um marcapasso. O SUS faz tudo certinho. E é caríssimo isso. Neste ponto, tiro o chapéu para o SUS. Por outro lado o programa deixa a desejar no numero de leitos, na saúde básica, na valorização dos profissionais, sejam médicos ou enfermeiros. Não adianta ter um médico que fez especialidade nos Estados Unidos e ganha muito, e um funcionário mal remunerado, que não tem estímulo para estar ali. E já passou o tempo em que médico ganhava bem. A alta complexidade paga bem. A baixa, para todos, é lastimável. Por uma cirurgia de apendicite, o SUS paga menos de R$ 200,00. Mas para fazer uma cirurgia dessas, o médico faz seis anos de faculdade, dois de cirurgia e mais dois de especialização. São dez anos de investimento para depois receber R$ 200,00. O hospital paga um valor relativamente bom, mas se pagasse o previsto na tabela do SUS, o médico ganharia R$ 6,00 por atendimento. A política de valorização profissional precisa ser ainda mais intensificada. E não só na saúde. Você acha que um policial vai sair de casa, trocar tiro com bandido por R$ 1,5 mil por mês? Tem que ser louco. Como esperar uma educação boa se o professor não pode se especializar porque ganha uma ninharia… E o incentivo de um professor é uma vergonha, assim como para a saúde. O SUS poderia melhorar muito. Dinheiro tem. O problema é que pagamos o imposto e ele não retorna para nós. 
 
Notisul – Tem algum caso especial que marcou a sua carreira?
Nixon – Tem coisas boas e outras que nos deixam tristes. Tem o caso de uma senhora de 80 anos que teve uma parada cardíaca. Reanimei-a e o familiar disse que queria um cardiologista. Eu tinha acabado de salvar a mãe dele, e ele pediu outro médico. Ingratidão. Mas a maioria dos casos rendem histórias bonitas, de vida. São lembranças boas.
 
Notisul – Você se imagina em outra profissão?
Nixon – Não. Não pretendo deixar a emergência nunca. E torço para que tenhamos este reconhecimento como especialidade. É uma das áreas mais vastas da medicina, porque tem que saber de tudo um pouco.
 
Nixon por Nixon
Deus – É algo superior, que nos rege.
Família – Tudo. O pilar.
Trabalho – É a minha vida. Vivo e sobrevivo do meu trabalho.
Passado – Serve como experiência e aprendizado.
Presente – Cautela.
Futuro – É algo incerto. 
 
"Às vezes, quem está lá fora reclama. Mas a minha responsabilidade é com quem está na minha mão no momento. Quando a pessoa chega na emergência, quer ter uma consulta de particular. Quer que o médico fique meia hora examinando. Mas quem espera esse tempo, reclama. Todo mundo quer ser bem atendido. Mas não quer que os outros sejam. Se os outros forem atendidos em cinco minutos, para quem está esperando é uma maravilha. Mas para quem está no consultório é o contrário. Ele considera que não teve um atendimento digno. Todos têm que ter um tratamento igual, com atenção. E isso demora. 
 
Tem dias que eu chego na emergência e tem 50 pacientes esperando. E muita gente nem devia estar ali. Deveriam estar em um posto de saúde. Às vezes estou com um paciente grave, e não posso deixar de cuidar dele para atender alguém que tem uma febre ou uma dor de garganta. Eu sei que a dor é uma emergência. Mas eu não posso largar quem está em estado gravíssimo porque a fila lá fora está grande. 
 
Mas as pessoas que estão na sala de espera xingam o médico, as enfermeiras. Muitos vão até a emergência com queixas urinárias, porque o posto de saúde não disponibiliza um simples exame. Se o município fizesse sua lição de casa direito, o movimento na emergência do HNSC cairia 80%. Isto daria condições de trabalho para o médico, para os enfermeiros, para toda a equipe, e acabar com a reclamação das pessoas".
 
“Atendo uma média de 30 pessoas por dia, pois na maioria das vezes fico com os pacientes graves. Quem fica no consultório atende mais.”
 
“A remuneração do SUS é ultrapassada. Está há dez anos sem nenhuma atualização”.