O padre Edison de Souza Müller, 45 anos, é natural de Grão-Pará. Aos 20 anos, descobriu a vocação para o seminário. Foi pároco em Oficinas por 14 anos. Ajudou a criar a Paróquia de Santa Teresinha do Menino Jesus, na Passagem. O padre conta que muitas pessoas voltaram a participar da rotina da igreja depois que a paróquia foi fundada. “Faço batismo de crianças já grandinhas, com 4 anos, e até jovens, primeira comunhão e crisma de adultos também. São pessoas que não participavam da igreja”, explica.

Karen Novochadlo
Tubarão

Notisul – O senhor atuou durante muito tempo na Paróquia de São José Operário. Como foi a sua vinda para a paróquia Santa Teresinha do Menino Jesus, no bairro Passagem?
Padre Edison –
Foi bem difícil, porque saí de um lugar onde estava há mais de uma década. Em um primeiro momento, me senti como um filho que deixa a casa da mãe pela primeira vez. Muito da paróquia de Oficinas tinha minha cara e a do padre Antônio Damiani. Foi um desafio grande em vários sentidos. Uma aula maravilhosa que Deus preparou para mim porque aprendi a me desprender das coisas materiais, daquilo que é físico. Aprendi que Deus é fiel e apenas me confiou uma nova missão.

Notisul – A Paróquia Santa Teresinha do Menino Jesus foi criada em 2009.  É bastante nova em comparação a Oficinas. Foi complicado ir para a Passagem?
Padre Edison –
Depende o ângulo que você olha. Em Oficinas, o trabalho era mais cômodo, estava tudo organizado, estruturado. Uma igreja belíssima com aquelas obras inigualáveis de Willy Zumblick, um espaço rico culturalmente. Aí, me vi no começo de uma nova estrada. Aqui, encontrei uma comunidade real, sedenta de Deus. Do ponto de vista pessoal, foi um desafio que exigiu bastante em várias dimensões: espiritual, intelectual, fisicamente, emocionalmente. Foi uma transição um pouco difícil. Mas estas mudanças fazem parte do trabalho sacerdotal. Um padre precisa estar disposto a isso. Caso contrário, está na profissão errada. Senti que Deus me desafiou ao extremo com esta mudança. Sinto-me altamente feliz.

Notisul – Como foi a receptividade na nova paróquia?
Padre Edison –
O povo da Passagem tem muita sede de Deus e é muito participativo. Acredito que em parte seja pela realidade em que vivem. O bairro tem um foco de violência e não podemos fechar os olhos para isso. Mas a maioria absoluta dos moradores quer construir um espaço diferente, quer fazer outra história, quer mudar a estampa do rosto da comunidade.

Notisul – O senhor disse que os moradores do bairro sofrem bastante preconceito…
Padre Edison –
As pessoas aqui são muito solidárias e voluntárias, cheias de valores. Pena que isso não aparece tanto quanto o crime, o assassinato. Temos associações de moradores e de saúde onde existem verdadeiros guerreiros em atuação. É uma comunidade preocupada com a questão da educação. Prova disso são os professores e professoras, verdadeiros heróis e heroínas. Na Escola Manoel Rufino, que funciona na comunidade do Jardim Floresta, por exemplo, os professores criaram inúmeros projetos, até uma rádio escola existe lá. Formamos uma parceria com a Manoel Rufino e o Rotary com o intuito de abrir a oportunidade para crianças fazerem vários tipos de esportes do Clube 29. Hoje, 25 meninos têm aulas de futebol, natação, tênis. É um projeto lindo, que reforça os valores, os bons costumes, que tira estas crianças da rua, do mundo das drogas.

Notisul – Como é o trabalho desenvolvido na paróquia?
Padre Edison –
Temos ainda a pastoral social da paróquia, que atende entre 30 e 40 famílias todos meses com cesta básica e outras questões de emergência, como consulta médica, gás, água, luz, remédios. Este trabalho é desenvolvido com parte do dízimo, pago pelos fiéis. Algumas pessoas conseguiram reformar casas, construir suas casinhas. As necessidades são muitas, mas cada um que conseguimos ajudar é um vitória imensurável. Também reservo um tempo para atender as pessoas na secretaria da paróquia. Fiz cursos de parapsicologia com o Padre Quevedo, e especialização em psicologia. No futuro, pretendo desenvolver um projeto para atender com psicólogo, psicoterapeuta, advogados para auxiliar em questões de como e onde buscarem seus direitos, como conseguir um remédio, para regularizar sua casa. Estas questões do direito que garantem cidadania. Mas isso é algo para o futuro.

Notisul – Existe algum trabalho específico para os jovens?
Padre Edison –
No domingo passado, tinha tantos jovens na missa que fiquei até espantado. Aos poucos, a igreja tem resgatado este público. Aqui, temos o projeto Kairos, que significa anúncio em grego. Uma vez por mês, temos uma vigília, das 22 horas à meia-noite. O horário foi escolhido porque é quando eles saem da faculdade, do trabalho. Mas em termos gerais a juventude nos desafia muitíssimo. Não conseguimos responder aos apelos, aos anseios da juventude. Por mais que tentemos, não temos mais métodos eficazes de atraí-los à igreja. Temos muitos jovens que estão nas drogas. Aqui na comunidade, conheço muitos que levam uma vida desregrada. Mas a droga está tirando nossos jovens e não conseguimos trazê-los de volta, infelizmente. É um grande desafio para a igreja em todo o mundo. Não é porque se trata desta ou daquela comunidade.

Notisul – A polícia sugeriu ao senhor que não fosse mais na Área Verde. Como foi isso?
Padre Edison –
Pois é. Muito triste isso. Existem pessoas dignas e maravilhosas que moram nesta comunidade. Isso ocorreu porque teve um dia que coincidiu que eu atendia a alguns doentes e houve um tiroteio um dia antes. Aí orientaram que não seria interessante circular por ali. Mas não tenho medo. Como disse, a comunidade tem um carinho e respeito enormes por mim. Seguirei com meu trabalho.

Notisul – A comunidade, na sua opinião, tem preocupação em relação à situação atual? Infelizmente, a Área Verde é a primeira lembrada quando o assunto é criminalidade.
Padre Edison
– Os pais querem ajuda para reeducar seus filhos. Eu faço o que posso. Não adianta querer achar que eu, um simples padre, serei o salvador. Não é assim. A comunidade do Jardim Floresta é formada por famílias dignas, trabalhadoras, valorosas. Mas as coisas ruins se sobressaem e todos são vistos como criminosos. Não são não. Além disso, tem um outro lado que não é falado. Existem muitas pessoas, jovens principalmente, que pedem socorro para sair do vício. Mas ajudar como? O poder público não tem clínica disponível para ajudar as pessoas que querem sair do vício. A igreja tem o Movimento Porta Aberta, mas é um espaço pequeno, limitado. Aqui em Tubarão, tem a iniciativa do Caps-AD, mas daqui vai para onde?

Padre Edison por Padre Edison

Deus: É tudo. É amor, misericórdia, perdão, pé aquele que acolhe e ama como pai.

Família: É o meu berço. Uma espécie de porto seguro. Foi na família que aprendi valores e bons costumes. É minha primeira referência de vida.

Trabalho: Realização.

Passado: Bonito. Foi uma época de bastante trabalho, engajamento e crescimento para poder chegar onde estou hoje, o meu presente.

Futuro: Um mundo melhor, uma vida mais valorizada, uma igreja mais acolhedora, mais amiga, mais aberta.

"O número de jovens que participam nas missas é grande, mas a maioria ainda está afastada. Surgiram bandas e grupos de jovens que cantam nas missas, mas é pouco".

"Até a polícia me orientou para evitar ir em algumas comunidades da Passagem, como no Jardim Floresta, por conta dos constantes tiroteios. Mas não tenho medo, porque sou muito bem aceito e respeitado por absolutamente todos. Por isso, jamais deixarei de atendê-los".