Mário Sérgio Bortolatto
Mário Sérgio Bortolatto

Tatiana Dornelles
Tubarão

Notisul – Como é o mundo do mercado de ações? Muitas pessoas não conhecem e até temem investir em ações justamente por desconhecerem? Como você explica esse mundo meio ‘distante’ da população?
Mário Sérgio Bortolatto
– Muita gente acha que, pelo fato de a Bovespa ter sede em São Paulo, é distante. Mas hoje não. Hoje, quem quer investir vai em um banco comercial e tem acesso à compra de ações, como a Vale do Rio Doce, Petrobras, Gerdau. Muitas vezes, têm medo por escutarem outras pessoas que aplicaram e perderam. Mas perderam, por quê? Perderam justamente em uma hora em que não era para sair. Ao contrário, era para ter investido mais capital. O custo da ação torna-se menor.

Notisul – Muitos têm esse medo de perder dinheiro. Mas o mercado de ações é algo a longo prazo, certo?
Mário Sérgio
– Tem muita gente que aplica hoje e tira daqui a dois meses. Atua no mercado com esse intuito. Em alguns casos, o especulador entra em um dia e sai no mesmo. Não precisa nem pagar a ação que comprou. Ou somente paga o prejuízo ou recebe os lucros. Por ser em São Paulo a sede da Bovespa, muita gente acha que é longe territorialmente. Mas, um exemplo que podemos dar é que a pessoa cadastra-se em uma corretora. A partir disso, do banco da sua cidade faz o depósito da conta cadastrada na corretora e compra a ação que quiser. Terá uma pequena parte de uma Petrobras, Gerdau, Siderúrgica Nacional, uma Vale do Rio Doce. Terá uma pequena parcela da empresa e ação é isso.

Notisul – E à medida que a empresa dá lucro, reflete na ação?
Mário Sérgio
– Justamente. Tem muita gente que acha que só ganhará dinheiro com a valorização da ação. É isso, mas também tem os dividendos e os lucros sobre o capital. A empresa vende a ação para o investidor. Ele ganha se a ação valorizar, vende o ativo e vai ter lucro. Ou, se ficar com a ação, uma vez por ano, a empresa é obrigada por lei a distribuir dividendos e juros sobre o capital. Ou seja, 25% do lucro líquido da empresa tem que ser distribuído aos acionistas. Isso é lei. Todo mundo que tem ação ganha, é acionista, e consegue mais essa rentabilidade. Tem empresas que dão 10%, 15% sobre o capital que a pessoa investiu, só de juros e dividendos.

Notisul – Há vários tipos de ações, clubes de investimentos. Quais as diferenças de cada segmento?
Mário Sérgio
– Há duas maneiras de a pessoa investir: ou por conta própria ou através de clubes de investimentos. São as formas mais difundidas no mercado. Em uma carteira própria, se a pessoa for fazer a gestão da sua carteira, tem que ter, para não cometer erros grosseiros, uma experiência de dois a três anos de acompanhamento do mercado. Ter um pouco de base técnica e fundamentalista. Ou passa o dinheiro para um profissional da área para fazer a gestão da carteira. Aí pode opinar e o gestor comprar. O que muitas vezes não acontece. A pessoa contrata um gestor, que cobra uma porcentagem sobre o ganho, geralmente 10%, e mais as taxas de transação, que é o Bovespa que cobra. Já no clube de investimento, consegue entrar com capital menor e diversificar o risco. Entra hoje com R$ 1 mil e comprará uma quantidade ‘x’ de cotas. O dinheiro que comprou as cotas cai no caixa do clube, que já tem uma carteira formada, com dez, 15 e até 20 empresas. Com R$ 1 mil, consegue participar da lucratividade das 20 empresas e o teu risco, por ser uma carteira maior, é menor. Consegue diversificar com apenas R$ 1 mil. Já em uma carteira própria, com o mesmo valor, compra a ação de uma empresa só. O risco que corre é enorme. Mesmo sendo uma Vale do Rio Doce ou uma Petrobras.

Notisul – Quais são as empresas que dão mais lucro? Há a Vale do Rio Doce, a Petrobras, que às vezes estão com o percentual bem acima dos clubes de investimentos…
Mário Sérgio
– Para ter uma idéia, temos um histórico do mercado, dos últimos dez, cinco anos e do ano passado. Em 2007, teve mais lucro quem investiu na Siderúrgica Nacional, porque beneficia o ferro, mas tem minas próprias. A Vale reajustou contratos, em uma base de 70%, com as maiores siderúrgicas internacionais, mas a Siderúrgica Nacional, por ter minas próprias, beneficiou-se com isso. Não precisa comprar da Vale, mas consegue vender a um preço maior, porque a Vale já reajustou os preços dela. Nos últimos dez anos, quem investiu na Gerdau teve um ganho de 9 mil por cento. Quem investiu R$ 10 mil há dez anos hoje está praticamente com R$ 1 milhão. A Petrobras deu dois mil por cento. A Siderúrgica Nacional 9.500% nos últimos dez anos. No último ano, deu 157%. Quase deu o dobro da Petrobras, que chegou a 87% de rentabilidade.

Notisul – E esses percentuais comparados com a poupança?
Mário Sérgio
– O índice Bovespa rendeu 527% nos últimos anos e a poupança 156%. Praticamente três vezes mais do que deu a poupança. Aí temos, nos últimos cinco anos, 467% contra 53%. No último ano, que é interessante fazer a análise, deu 44% o Ibovespa, e muitos clubes de investimento deram bem acima, como 56% ou 60%. Com uma taxa de 3% para administração, a pessoa teve 50% líquidos. Enquanto a poupança rendeu 8% ao ano. Tirando 4% de inflação do ano passado, ela deu 4% de lucro real.

Notisul – Então, hoje, se fosse investir o dinheiro para ter uma rentabilidade maior, o mercado de ações seria o ideal?
Mário Sérgio
– Sem dúvida. Investir no mercado de ações com visão de longo prazo. Nesse espaço de tempo, já consegue ter o real ganho de capital. Mas o que acontece: muita gente tem medo por achar que é algo que ninguém fiscaliza, ninguém está olhando.

Notisul – E há fiscalização?
Mário Sérgio
– Sim. Há fiscalização da Bovespa, do Banco Central. A pessoa que aplica em ações recebe extratos. Com carteira própria de 15 em 15 dias, se houver transação, e em clube de investimento todo mês. Após o primeiro mês, ao receber o extrato do clube de investimentos, tendo quantidade de cotas, consegue saber o valor diário com um dia de atraso. Por exemplo, fim da tarde de quinta, sabe o valor que fechou na quarta. Consegue ver o que deu, o valor da cota, a rentabilidade do dia, o acumulado do mês, o acumulado do ano e o valor do clube. No extrato, vem o nome da pessoa, o clube que pertence, o produto, o valor da cota e a quantidade, aplicação adicional que fez, valor final. Se quiser saber o valor no dia 20, pega a quantidade de cotas que tem, multiplica pelo valor que consta no site da corretora, e tem o final. No dia que quiser resgatar as cotas, dá a ordem, o gestor da carteira vende no dia seguinte, com o valor do dia anterior e, em três dias, o dinheiro está de volta na conta da pessoa.

Notisul – E quanto aos valores de aplicação, variam de acordo com a empresa ou o clube de investimento? Qual a média?
Mário Sérgio
– Há clubes que têm aplicações de R$ 10 mil, R$ 100 mil, R$ 100,00. Depois da primeira aplicação, valor mínimo exigido pelo estatuto no clube, pode fazer qualquer aplicação adicional em qualquer data. Quem for fazer, tem que saber que, se houver uma notícia ruim no mercado, não deve apavorar-se. É hora de investir. E é onde muitas pessoas querem sair do mercado. Com isso, perdem dinheiro.

Notisul – Como é feita uma operação na bolsa?
Mário Sérgio
– Você cadastra-se na corretora, que passa ordem para a corretora e passa para a Bovespa. É feita a compra, cai a ação no teu nome na Câmara Brasileira de Ação e Custódia e a ação vem no nome da pessoa. Não tem mais aquele certificado que os bancos davam antigamente de compra de ações. A câmara guarda as ações, mas vem um extrato mensal à pessoa que as possui. A Bovespa, hoje, movimenta 70% do volume transacionado na América Latina. Na América Latina inteira, é a Bovespa que movimenta este volume de dinheiro.

Notisul – E, se a pessoa não conhece todo esse mundo, o que fazer?
Mário Sérgio
– Se a pessoa não tem conhecimento, cadastra-se em um clube de investimento, compra a cota e, com isso, contratará um gestor com experiência no mercado para fazer a gestão dos ativos da carteira. Tem profissional habilitado, com experiência, sabendo a hora de comprar, de vender, à tua disponibilidade. Pagando os valores hoje, de 3% ao ano, 0,25% ao mês, um valor baixo para investimento em ações. Se você vai fazer um plano de previdência privada, paga um valor muito mais alto que isso. E a rentabilidade não é tão grande quanto a bolsa.