Foto:Fiesc/Notisul
Foto:Fiesc/Notisul

Glauco José Côrte é presidente do sistema Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc), empresário e bacharel em direito pela Ufsc, com diversas especializações por instituições como Ufsc, FGV (RJ), American Graduate School of International Management (Arizona, EUA) e IMD (Lausanne, Suíça). É membro do conselho de administração da Portobello e acionista-fundador da Inplac Indústria de Plásticos. Também é diretor da Confederação Nacional da Indústria (CNI), presidente do Conselho Temático Permanente de Política Industrial e Desenvolvimento Tecnológico da entidade, além de membro de seu Conselho Superior Legislativo. Integra ainda o conselho da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial, do Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio; e os conselhos de administração das empresas Multilog e Pedra Branca Empreendimentos Imobiliários. Sua trajetória inclui passagens pela vice-presidência executiva da Portobello e diretoria da Portobello América (EUA), além da presidência do conselho de administração da Celesc, no período de 2005 a 2010.

Fernando Silva
Tubarão

Notisul –  Como é a atuação da Fiesc hoje?
Glauco José Côrte –
Além de cumprir o papel de fazer a representação institucional da indústria, a Fiesc, por meio de suas entidades Sesi, Senai, Instituto Euvaldo Lodi (IEL) e Centro das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Ciesc), promove a competitividade do setor. Assim, elegeu como focos estratégicos o ambiente favorável à produção, à tecnologia e à inovação, à educação e à qualidade de vida do trabalhador. A indústria necessita de um ambiente econômico favorável nas questões tributária, trabalhista, de infraestrutura, etc. Precisa ainda de tecnologias avançadas e deter uma cultura inovadora para oferecer produtos atraentes ao mercado. Ela também precisa de trabalhadores produtivos, capacitados e motivados. A Fiesc atua direta ou indiretamente sobre esses eixos. 

Notisul – Hoje, quantas empresas são filiadas à federação?
Glauco –
A Fiesc congrega 139 sindicatos, aos quais as indústrias são filiadas. Em Santa Catarina, o setor é composto por 50 mil indústrias, que geram mais de 800 mil empregos diretos e respondem por cerca de um terço do Produto Interno Bruto (PIB).

Notisul – Entre as ações da atual diretoria, quais foram as maiores conquistas?
Glauco –
Orientamos as ações da Fiesc sob dois olhares: um para fora e outro para dentro. Para as indústrias, as entidades da Fiesc passaram a focar sua ação na promoção da competitividade. Também constatamos que nossas entidades deveriam apresentar nível de excelência compatível com o que desejamos para o setor industrial. Por isso, adotamos medidas de modernização da estrutura interna. Integramos as atividades-meio, unificando a política de ações em cada área e racionalizando a estrutura e gerando ganhos de produtividade. Agora, todas as entidades focam seus esforços unicamente nas respectivas atividades-fim. Também unificamos o atendimento às indústrias. Antes, cada casa da Fiesc realizava seu programa de atendimento e visitas, oferecendo as soluções específicas de sua atuação. Agora, fazemos uma abordagem corporativa e oferecemos serviços integrados. 

Notisul – O incentivo de formação e capacitação dos profissionais das empresas no estado é uma realidade? Quais os setores mais investem? E no país, como é essa questão com o atual governo?
Glauco –
O baixo índice de escolaridade é um ponto crítico para a indústria. Em torno de 47% dos trabalhadores do setor em Santa Catarina não possuem a educação básica completa. Os que levaram os estudos adiante enfrentam os problemas da qualidade da educação. Resultado é que, em média, o trabalhador brasileiro tem produtividade inferior à de outros países com os quais a nossa indústria compete, como Estados Unidos ou mesmo Argentina. Não é um problema que podemos enfrentar sozinhos. É preciso mobilizar a sociedade, o poder público e as indústrias. Por isso, criamos o movimento A Indústria Pela Educação. Mais de 1,5 mil indústrias aderiram à iniciativa, além de entidades representativas de segmentos da sociedade civil e públicos. Ao aderirem à causa, as indústrias se propõem a apoiar e estimular seus colaboradores a buscarem o desenvolvimento profissional e pessoal. 

Notisul –  De uma forma geral, que panorama pode ser feito do crescimento das indústrias em Santa Catarina em comparação ao país nos últimos anos?
Glauco –
A indústria vem perdendo participação no PIB do país há alguns anos. Mas o desenvolvimento industrial é fundamental, indispensável, para que os demais setores possam se desenvolver. A importação de produtos estrangeiros que, ocasionalmente, pode ser benéfica para o fortalecimento do comércio e da própria indústria, pode causar uma dependência que nos torna vulneráveis. Importar produtos que não sejam máquinas e equipamentos necessários ao processo produtivo fortalece a indústria estrangeira e desaquece a nacional. O próximo governo precisa tratar o setor industrial como estratégico. Não se pode negligenciar a importância de um desenvolvimento industrial coerente com as necessidades de mercado que projetam, cada vez mais, a integração entre os setores industrial e de serviços. Nos últimos três anos, a indústria de Santa Catarina decresceu 5,3% em 2011, 2,4% em 2012 e cresceu 1,7% no ano passado. No mesmo período, a indústria do Brasil registrou crescimento de 0,4%, queda de 2,3% e acréscimo de 2,2%, respectivamente. Ou seja, o panorama da indústria, tanto catarinense como brasileira, tem ficado muito aquém do que seria ideal. 

Notisul – Como está o ambiente para o desenvolvimento da indústria catarinense?
Glauco –
Burocracia, carga tributária elevada, legislação trabalhista ultrapassada e insegurança jurídica são velhos problemas com os quais o empresário brasileiro precisa lidar todos os dias. Junto com tudo isso, temos outros problemas sérios que inibem os investimentos, como a insegurança jurídica e os gargalos de infraestrutura. O industrial vive hoje num ambiente hostil à produção. No caso catarinense, a questão da infraestrutura é muito grave e nos diferencia negativamente em relação aos vizinhos e outras regiões do país. O oeste do estado é um exemplo emblemático. A região desenvolveu uma agroindústria de excelência, mas os novos investimentos do setor, cada vez mais, migram para o centro-oeste do país. A grande dificuldade é o transporte, antes e depois da produção. Antes, para trazer grãos para alimentar os animais. Depois, para escoar o produto. É mais caro levar uma tonelada de Chapecó a Itajaí do que de Itajaí para um porto europeu. O sul de Santa Catarina é outro exemplo do impacto da falta de infraestrutura, com prejuízos bilionários com o atraso da duplicação da BR-101.

Notisul – O que os empresários enfrentam, atualmente, sobre a questão de impostos e tributos? Existe retorno das taxas pagas ao governo?
Glauco –
Nos últimos 30 anos, o PIB cresceu menos que a inflação, exceção feita aos anos de 2006, 2007 e 2010. É indispensável reduzir gastos de custeio do setor público e efetuar as reformas adiadas como a política, a tributária, a trabalhista e a previdenciária. Nas três décadas, o PIB do Brasil cresceu 10,5 vezes, enquanto a carga tributária saltou de 24% do PIB, em 1984, para os atuais 36%. Em 1964, portanto, há 50 anos, a carga tributária era 17% do PIB. O ônus tributário é pesado e injusto. Os próximos governos precisam iniciar programas de redução da carga tributária.

Notisul – Em termos de crescimento, o que se espera de Santa Catarina para os próximos cinco anos?
Glauco –
A indústria catarinense dá mostras de que possui visão de longo prazo e, mais do que isso, de que tem fé em um futuro promissor. Os dados de investimento industrial no estado revelam aumento, no ano passado, de 13% e, na projeção para o triênio que vai deste ano até 2016, de 21%. A maior parte dos recursos previstos será alocada na melhoria tecnológica, o que é fundamental para aumentar nossa competitividade. Afinal, focando em estratégias de preço não temos condições de competir, em função das questões já expostas nas questões anteriores.