Zahyra Matta
Tubarão

Notisul – O que mais o fascina na história de Tubarão?
Amadio
– Nada em particular, mas o conjunto. A forma como a cidade iniciou foi totalmente diferente da maioria. Uma estrada de ferro era aberta para ligar o litoral ao planalto e uma cidade desenvolveu-se na beira de um rio e transforma-se em um centro de convergência de todas as vias. Quer mais interessante do que isso?

Notisul – Quem fundou Tubarão?
Amadio
– Capitão João da Costa Moreira.

Notisul – João Teixeira Nunes deve estar se revirando no túmulo. A história diz que foi ele. Não foi?
Amadio
– (risos) Pois é, deve estar (se revirando na cova). Com o tempo, esta parte da história vai ser modificada. Não tem cabimento João Teixeira Nunes ter fundado Tubarão porque tinha 6 anos quando o outro João, o da Costa Moreira, chegou aqui. As terras que ele, mais tarde, doou por afloramento à igreja, foram adquiridas em 1812, quando toda a margem do rio já estava ocupada. Na verdade, ele foi o quarto proprietário destas terras.

Notisul – Então por que ensinam errado?
Amadio
– Vai saber! Teixeira Nunes foi um cidadão benemérito. Ele doou terras onde hoje é a Catedral, para justamente criarem uma igreja. Nesta época, o centro de Tubarão era ali, na região do bairro São João-MD. Era o chamado Poço Grande do Rio Tubarão. Nesta época, a margem do rio era bem povoada. A doação por afloramento diz que qualquer cidade poderia usar a terra, desde que pagasse o laudênio para a igreja. Imagina se daria algo de graça né!? Mas não era só gente de bem que podia pagar. E esse ‘bem’ significa dim-dim e não o outro bem, de bondade. A pobretada ficava na margem do rio, em situação deplorável.

Notisul – Credo. Que ‘miserê’. Até os ricos eram pobres então!?
Amadio
– Uma verdade: olhando para trás, o rico da época era o miserável de hoje. Na verdade, todo mundo era miserável, alguns mais, outros menos. Se você olhar os inventários das pessoas mais abastadas do século 19, vai ver que eles praticamente viviam na miséria se comparar com hoje. Quem era miserável já nascia com o pé praticamente na cova. Quem tinha qualquer coisa, às vezes, chegava aos 40 anos.

Notisul – Nossa! Mas voltando à fundação. Daí João chegou…
Amadio
– Então, João da Costa Moreira chegou para receber as sesmarias (instituto jurídico português que normatizava a distribuição de terras) junto com o sargento-mor Jacinto Jaques. A carta de sesmaria exigia que o dono deveria, em dois anos, demarcar e beneficiar a terra. Caso contrário, perdia a posse. Foi o que fizeram. Na verdade, foi o que João da Costa Nunes fez, porque Jacinto nunca saiu de Florianópolis, onde morreu em mil oitocentos e pedrinhas. O filho dele era padre, morreu novo e não deixou herdeiros, ainda que na época era muito comum padre ter filho. Então, a mãe recebe a terra, como herdeira ascendente. Anos depois, Teixeira Nunes compra esta terra. Daí a confusão a respeito da fundação de Tubarão. Como os descendentes de Teixeira Nunes mandaram em Tubarão e doaram terras à poderosa igreja, ele foi aceito como fundador, mas não é. Levo pau até hoje por dizer isso, mas é a verdade.

Notisul – Leva pau?
Amadio
– Quando você muda algo tido como verdadeiro sempre gera polêmica. Mas, como não devo nada para ninguém e não tenho compromisso com esta sociedade vinda de United States Of Lageado (gargalhada – ele refere-se à serra), coloquei tudo em pratos limpos. A história é essa.

Notisul – O nome de Tubarão é por causa do índio ou por causa do rio?
Amadio
– Do rio. No começo, eu também achei que era e escrevi esta injustiça. Nem sempre a gente acerta. Mas um dia, curioso, saí em campo e fui pesquisar. E descobri que o nome é por causa do rio e não do índio. Mais uma (história) para me darem pau. Conforme os relatos da época, os jesuítas encontraram este dito cujo lá para as bandas de Arroio do Silva e o denominaram, por 13 vezes, com o nome de Tubarão. Literalmente Tubarão. Ele não era um cacique por delegação indígena, mas sim por delegação do branco. Ele era um negociante. Fazia suas guerrinhas, aprisionava os índios e os vendia para os brancos. Na visão europeia, ele era um serzinho ordinário. Em uma das citações, os jesuítas contam que chegaram, com suas roupas no melhor estilo urubu, e pediram que ele mudasse, parasse de aprisionar os indígenas. Pois o ordinário não gostou, puxou a mangueira e mijou no pé do padre (gargalhadas). Os jesuítas ficaram loucos, descreveram sua petulância e arrogância. Isso foi em 1605.

Notisul – Mas o rio tem o mesmo nome do índio.
Amadio
– Espera. Vou chegar lá. Em 1605, quando os jesuítas chegaram, todos os acidentes geográficos já tinham denominação. Porque foram dar um nome indígena a um rio? Imbituba, Itapirubá, Imaruí, tudo já tinha nome. Como que o hoje Rio Tubarão não tinha? Impossível, né? Tubanharô realmente vem do idioma indígena. Tuba significa pai. Nharô quer dizer feroz. Então: pai feroz. Mas essa denominação era dada ao rio pelos índios. Não era o nome do índio.

Notisul – Mas como o senhor concluiu isso?
Amadio
– Pela lógica. Em épocas normais, o rio tinha água potável, era navegável, tinha caça em suas margens – o que facilitava a vida do índio -, era calmo e tranquilo. Era um verdadeiro Tuba, um verdadeiro pai. Mas, quando vinha o vento leste, como ocorreu em 1974, ele ficava feroz, dava enchente. Então, os índios chamavam o rio de Tubanharô. Com isso, cheguei à seguinte conclusão: do índio era impossível. Primeiro, porque ele não estava aqui; segundo, porque os jesuítas, europeus não dariam um nome indígena para um rio que já tinha nome. Vão encher o meu saco por causa disso. Fazer o quê. Todos têm direito de errar na história, menos eu.

Notisul – Por quê?
Amadio
– Caem de pau em cima. Até porque já fui logrado na história.

Notisul – Como?
Amadio
– É o seguinte. Em Treze de Maio, onde nasci, vivia na roça, o que tinha eram um livretos de contos bíblicos. Lá estava escrito que o povo judeu começou o mundo, aquela mentalidade medieval, típica da igreja. Mas era o que eu conhecia, era o que tinha acesso, então, era a minha verdade. Bom, aos 13 anos me desmamei da família e fui para o seminário. Bom, então verifiquei que existia uma civilização inteira antes dos judeus. Fiquei indignado. Me senti logrado.