A área da filosofia me acompanha ao longo da vida e por isso a minha empresa é diferente, valoriza o ser humano, a equipe, respeita bastante a singularidade das pessoas, sabe como é cada um. Foto: Priscila Loch/Notisul
A área da filosofia me acompanha ao longo da vida e por isso a minha empresa é diferente, valoriza o ser humano, a equipe, respeita bastante a singularidade das pessoas, sabe como é cada um. Foto: Priscila Loch/Notisul
Priscila Loch
Criciúma
 
 
Notisul – Como foi a decisão de deixar a presidência da Anjo?
Beto Colombo – Uma empresa profissionaliza-se e os donos conseguem ver ela de longe, não precisam se preocupar com as coisas operacionais. É o mesmo que observar uma montanha. Se vivermos dentro da montanha, não vemos o espaço. Se estivermos afastados, é possível ver a montanha mais fácil. E a empresa não é diferente. Quando se afasta dela, do dia a dia, da rotina de tomar de decisões, começa a ver o mundo estratégico, que é muito maior. Tu deixas de construir a estrada e passa a dar a direção para onde ir. Tem muitos empresários que se preocupam com a construção, pavimentação da estrada. E há outros que se preocupam em dizer para onde a estrada tem que ir, não estão preocupados com o tipo de asfalto que será colocado. A primeira vez que me afastei foi em 2004, quando eu mergulhei no mundo da música, da arte, fui estudar em Barcelona. E em 2006 tivemos o primeiro incêndio na Anjo. Aí nesta época retornei para a empresa em caráter emergencial. E fiquei durante sete anos, voltei a fazer parte do operacional e toda a questão da sucessão, que tinha sido programada, foi deixada de lado.
 
Notisul – E como ocorreu a sucessão?
Beto – Meu filho não estava nos planos da sucessão. Eu acho o mundo empresarial muito pesado para colocar um filho, sempre tentei afastar. Filipe é um baita de um músico, achei que ele ia seguir carreira nesta área. O mais novo achei que iria para o mundo do esporte, por ser um esportista. Mas não teve jeito. Quando eu vi, estavam os dois na faculdade de administração. Foi por livre escolha. Talvez eles sejam mais empreendedores do que eu. 
 
Notisul – E como é a sua participação na empresa hoje?
Beto – O Conselho de Administração, o qual sou presidente, faz uma reunião mensal para analisar resultados e para ver se está sendo cumprido o planejamento estratégico. Tem mais cinco conselheiros comigo. E sou convocado pelo presidente da empresa se preciso for. 
 
Notisul – Como empreendedor, que orientações você daria a quem planeja abrir o próprio negócio?
Beto – Eu posso falar por mim. Isso não é receita para ninguém, nem conselho. Imagina o dia que eu levei um computador para dentro da empresa, o pessoal se assustou. Eram outros tempos. A Anjo surgiu de uma ideia, uma necessidade que o mercado tinha de massa plástica. Este produto era perecível, vinha de São Paulo e quando chegava aqui estragava. Por que não fabricar isso aqui? Em vez de estocar na loja de tinta, o estoque era nosso, e não estragava mais o produto. Então, começamos a trabalhar com logística rápida. Na mercearia do meu sogro, os caras tinham um sistema de logística muito grande, principalmente com relação ao iogurte, que tinha prazo de validade de três dias. E o prazo da massa era de 60 dias. Foi onde começamos a fabricar aqui e ter estoques semanais. Produzir a massa não era tão difícil assim, comprei uma fábrica de massa desativada, e a ideia de trabalhar com a logística rápida era inovadora. Chegava na loja de tinta, colocava dez caixas de massa plástica e dizia: ‘olha, segunda-feira que vem eu passo aqui. O que vender você me paga e o que não vender você devolve e eu ponho um produto novo’. Era como consignação. Então, a minha dica é que o empreendedor tem que enxergar aquilo que não estão enxergando. 
 
Notisul – Como foi apostar em logística em uma região tão carente em infraestrutura quanto a nossa? 
Beto – Iniciamos em um ponto em Criciúma e depois expandimos para o restante do estado de Santa Catarina e o sul do Rio Grande do Sul, e fomos crescendo. As grandes cidades nós fomos deixando pra trás e fomos pegando as cidades de interior. Fomos desbravando este país. Costumo dizer que eu visitei todos os municípios brasileiros com mais de 25 mil habitantes. Na época, foram 4,3 mil municípios. Foram quase 20 anos fazendo este trabalho. Procurava arrumar um cliente em cada município. Eu conheço bastante da geografia brasileira e fiz tudo de carro, nada de avião. 
 
Notisul – Então, pode-se dizer que a precariedade de infraestrutura não é tão vilã quanto se fala?
Beto – É ruim. Mas não atrapalhou tanto porque criamos o nosso sistema de entrega. Hoje, temos transportadoras, parceiros que fazem as nossas entregas, porque crescemos muito e não deu mais para prosseguir com o sistema que tínhamos. Temos um centro de distribuição em São Paulo, um em Brasília, um no nordeste. Cada local faz a distribuição regional e é muito rápido. Este é um dos fatores decisivos para o nosso negócio. 
 
Notisul – Você também ministra palestras. Quais temas abordas?
Beto – Geralmente, eu falo sobre empreendedorismo, criatividade e inovação. Tenho falado bastante de filosofia nas organizações. Tenho estudado bastante sobre isso, atendo em consultório e geralmente englobo esses pontos de singularidade, principalmente sucessão empresarial, como fazer essa divisão entre os papéis de empresário, de pai, de marido, filho, professor… Eu tenho um filho que é diretor da empresa onde ‘ontem’ eu era presidente e chefe dele. Como saber a hora de ser pai e a hora de ser patrão? 
 
Notisul – Qual a importância da filosofia e da teologia na sua vida e de onde surgiu o interesse por essas áreas?
Beto – Eu tenho um fato muito determinante na minha vida, que chama epistemologia. Epistemologia é a busca por saber. Minha busca epistemológica começou escrevendo poesias no colégio, lendo livros nesta área. Sempre me interessei pelo time das artes, pelo sentimento. Tentei estudar em seminário na época no ginásio, mas não consegui entrar. E quando estava terminando de fazer contabilidade surgiu o convite para fazer teologia. 
 
Notisul – Mas, quando tentou ingressar no seminário, a intenção era ser padre ou só estudar teologia?
Beto – Eu só queria estudar. A busca era pela epistemologia, pelo saber. Eu leio bastante, geralmente os livros que não são técnicos eu faço leitura dinâmica. Tenho facilidade de ler, leio até dois livros por semana. 
 
Notisul – Como você conseguia dedicar-se a tanta coisa ao mesmo tempo?
Beto – Não é muita coisa não. O que se faz à noite? Alguns veem novela, alguns vão no bar tomar um traguinho, outros veem filme… Às 18 horas, por exemplo, eu faço academia e caminhadas, depois vou para a universidade dar aula. E a pós-graduação que dou aula é uma vez por semana, uma por mês, é tranquilo. Só tem que preparar aula. É trocar a televisão duas noites por mês. E claro que hoje a minha vida é bem diferente. Eu trabalho de manhã na rádio, onde é meu QG, e à tarde trabalho em consultório, principalmente com terapia para empresários. 
 
Notisul – Hoje, pode-se dizer que és realizado?
Beto – Eu gosto muito do meu estilo de vida. Tem uns conceitos meio errados de felicidade, nem sempre somos felizes. O ser humano é de altos e baixos. Hora está lá em cima, alegre, hora está triste. Mas essa tristeza não quer dizer que é triste. Contentamento e alegria não querem dizer felicidade, nem tristeza significa que se está infeliz. Tem épocas que fico mais triste, com a logística, com a pobreza, com a corrupção, mas eu também me alegro com as pessoas boas, políticos honestos, empresários que fazem. Fico decepcionado com a natureza destruída, mas me alegro com o que está sendo feito para reformar isso tudo. Se focarmos nas coisas ruins, possivelmente vamos cair em estado melancólico. Tenho aprendido que o mundo é esse contraste, hora triste, hora feliz. E assim caminha a humanidade. 
 
Notisul – Qual a sua visão da fé nos dias de hoje?
Beto – Existe a espiritualidade e a religiosidade. Acho que espiritualidade tem muito ainda, mas a religiosidade tem se perdido. Tem muita gente decepcionada com religiões. Muita gente tem percebido esse comércio da fé que tem por aí e isso tem desanimado, tem diminuído pessoas em igrejas sérias. E muita gente troca religiões sérias por causa e efeito: vou para lá porque eu estou tendo um problema de saúde e vou melhorar; vou para lá porque estou tendo um problema financeiro. E sabemos que isso não combina com espiritualidade. Esses mundos não se conversam. Parece que a fé virou um escambo. Não é esse tipo de fé que eu acredito. A minha filosofia não é me apegar a nada e nem rejeitar nada. Eu sou cristão, gosto da filosofia cristã e tenho frequentado de vez em quando as igrejas, quando dá. Mas nós estamos em um momento de crise religiosa. Se isso é bom ou ruim não sei dizer. 
 
Notisul – Quando você fez o Caminho de Santiago de Compostela, qual foi a motivação?
Beto – O caminho entrou na minha vida quando eu disse assim: ‘vai ser o meu batismo para deixar de ser empresário e virar filósofo’. Foi em 2007. Esse foi o meu batismo, como um ritual de passagem. Foi uma experiência ímpar, recomendo. Eu nunca na minha vida tinha tirado 40 dias para ficar comigo. Eu fiquei 40 dias com meus demônios, com meus deuses. Quando é que tiramos um dia para ficar com nós mesmos? E no caminho tu não tem como fugir de ti, tens que ficar contigo. Porque tens oito ou dez horas caminhando, e não tens o que fazer além de caminhar, sentir o teu corpo. Nos primeiros dias, dói, morde a sola do sapato, mas tem um momento que tu não sente mais o corpo e aí vai para os pensamentos. E, no meu caso, os pensamentos começaram a dizer ‘o que tu tá fazendo aqui? Vai embora’. Fui aprendendo a meditar. Foi um marco de passagem na minha vida, ritual fantástico. Algumas pessoas me procuram para saber a experiência e as dicas. Esse ano, farei de novo e aí vou levar alguns pacientes meus para fazer terapia no caminho. 
 
Notisul – Você já fez outros caminhos deste tipo?
Beto – A gente fala muito do caminho de Santiago, mas aqui perto tem muitos caminhos. Nós temos um que sai de Orleans ou de Criciúma e vai a Santa Paulina. Um que eu recomendo é a volta à ilha de Santa Catarina, são 180 quilômetros, se faz em oito dias. É espetacular, a melhor vista que já vi na vida. 
 
Notisul – A família aceita o seu estilo de vida?
Beto – Eles participam, gostam desse estilo de vida. A gente foi se moldando. A minha companheira é uma companheira mesmo, divide o pão. Estamos há quase 30 anos juntos, temos dois filhos que são nossos amigos, onde vão nos convidam. Vivemos muito bem!
 
Notisul – “Não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho”, defendia o líder e pacifista indiano Mahatma Gandhi. Você concorda?
Beto – Claro, não existe fórmula. Algumas pessoas colocam metas para serem felizes: ‘quando eu me casar’, ‘quando eu me formar’, ‘quando eu tiver um filho’, ‘quando eu me aposentar’… E às vezes esquecem de ver o caminho para chegar até lá. Cada época é uma época, é o mesmo que começar o caminho de Santiago e ficar pensando no dia que vai terminar. A felicidade não é chegar a Santiago, é o percurso em si.

"Eu tenho uma paixão para a área das ciências humanas: relações.”

"A minha vida profissional, antes de ser na área de empreendedorismo, já se dirigia para a gestão de pessoas.”

"Fazíamos a nossa logística, não dependíamos de ninguém. Começamos com automóveis próprios."

"Se o empreendedor conseguir uma ideia nova, essa ideia pode revolucionar e transformar-se em uma empresa."


Perfil

Formado em contabilidade, Beto Colombo quase seguiu carreira bancária. Quando tinha 18 anos, decidiu mudar de rumo e trabalhar com vendas. Quatro anos depois, com apenas 22 anos, fundou a promissora Colombo Indústria e Comércio de Massas Plásticas, em Criciúma, em um pequeno galpão alugado, que mais tarde viria a se chamar Anjo Tintas. Paralelamente, sempre focou também nos estudos de teologia e filosofia. Hoje aos 50 anos, não é mais o diretor presidente – o cargo é ocupado pelo filho Filipe R. Colombo -, mas nunca deixou de trabalhar pela empresa, inclusive preside o Conselho de Administração. Entre as ‘mil e uma’ funções que exerce atualmente, é filósofo clínico, teólogo, escritor (está no sexto livro), professor e coordenador do curso de filosofia clínica da Unesc, articulista, palestrante e membro da Academia Criciumense de Letras. Quando questionado se é um homem realizado, não hesita em responder que gosta muito do estilo de vida que leva.