O tenente-coronel Ângelo Bertoncini comanda o 5º Batalhão da Polícia Militar de Tubarão desde o ano passado. Ele possui 27 anos de serviço na corporação. Trabalhou em Florianópolis e Joinville, mas o maior tempo foi na Cidade Azul. Concluiu o curso de formação de oficiais em 1986, na Academia da Polícia Militar, em Florianópolis. É formado em administração pela Unisul e pós-graduado em teoria e análise econômica na mesma universidade. Fez o curso de aperfeiçoamento de oficiais na PMSC e vários em administração de segurança pública.

 

 

Mirna Graciela
Tubarão
 
 
Notisul – Como o senhor avalia a segurança hoje em Tubarão?
Bertoncini – A segurança tem sido o maior desafio para a polícia. A criminalidade cresce. Os criminosos se aperfeiçoam e usam todos os tipos de meios, como armas, celulares e rádios transmissores que pegam a frequência da polícia. Os menores envolvidos em crimes também são uma grande preocupação, inclusive porque os bandidos os usam  para cometer os crimes mais bárbaros, como homicídios. E sabemos que os menores não ficam presos por muito tempo, por isso, torna-se uma dificuldade muito grande. 
 
Notisul – Por que existem tantos menores envolvidos na criminalidade?
Bertoncini – Pelo fato de grande parte deles ser de famílias sem estrutura e envolvidas no crime. Então, é uma situação complexa, pois não permite que a polícia atue diretamente na família. Nós temos feito ações para retirar estes infratores da sociedade com a apreensão de armas e drogas. Essa é a principal função da polícia. Mas, além disto, temos o Proerd, que ajuda na formação do caráter da criança, com ações educativas e preventivas. Este ano, vamos atingir 100% dos alunos de Tubarão. 
 
Notisul – Teria uma solução para esta problemática (menores no crime)? 
Bertoncini – Infelizmente, estas famílias passam essa herança aos filhos. Deveria existir um órgão do estado que agisse com mais rigor, que controlasse esse tipo de situação. Se os pais são criminosos, seria o caso de perder a guarda dos filhos, pois não se preocupam se eles estão nas ruas cometendo crimes e armados. Por isto tudo, é uma questão que ultrapassa o serviço policial. Existem casos em que já apreendemos 14 vezes o mesmo adolescente. Não há vagas nas instituições, eles voltam às ruas. Tem muito glamour, o menor se orgulha dos crimes que comete, se acha um herói.  
 
Notisul – Como estas armas entram na cidade?
Bertoncini – Por todos os lados, pelas áreas de fronteiras. Este ano, foram 25 armas apreendidas pela PM, fora as que a Polícia Civil também retirou. Até um menor que apreendemos disse que a coisa mais fácil é ter uma arma. O cidadão de bem tem dificuldade para adquirir uma arma, mas o criminoso consegue facilmente no mercado negro, no mundo criminal. 
 
Notisul – Não é novidade que faltam policiais nas ruas e a criminalidade só aumenta…
Bertoncini – Temos viaturas, armamentos, equipamentos… Estamos bem nisto. O efetivo é uma dificuldade, talvez uma das maiores. Antigamente, tínhamos o policiamento ostensivo a pé, de bicicleta, de motocicleta, a rádio patrulha e os grupos especiais,  hoje PPT. A cobertura era maior. Este tipo de policiamento não há mais condições, a demanda é muito grande. O efetivo diminui gradativamente e, claro, precisamos de mais, para retornar ao que fazíamos antes. 
 
Notisul – Que tipos de ações são realizadas pela PM?
Bertoncini – Policiamentos de escoltas, no trânsito, nas áreas de risco, nas ações de inteligência para identificar e localizar os grupos criminosos, e os públicos, como em futebol, grandes eventos, shows e festas. Ainda temos os colégios, que não conseguimos atender.
 
Notisul – Qual é a abrangência do 5º batalhão? 
Bertoncini – Nós atuamos, além de Tubarão, em Capivari de Baixo, Treze de Maio, Jaguaruna, Pedras Grandes e Sangão. Isto dá uma área de 1.098 quilômetros quadrados, para uma população de 157.647 habitantes. Equivale a um policial militar para 613 habitantes.
 
Notisul – Tubarão tem hoje 14 homicídios. É a décima cidade no estado no ranking. Quando a situação começou a ficar caótica? 
Bertoncini – Acho que ano passado foi o divisor de águas, nós tivemos 17, fato que não ocorria; 2010 foi o ápice do crime. Este ano já são 14. A maioria é por disputa pelo tráfico de drogas, quando uma facção quer vingar a morte de um deles e daí vem uma série.
 
Notisul – A que o senhor atribui este aumento da criminalidade em Tubarão?
Bertoncini – São vários fatores. O aumento no consumo da droga. Antes, você via maconha e cocaína. Hoje, tem o crack, o óxi e muito mais, drogas fortes que viciam muito. Os efeitos são rápidos. O usuário precisa novamente de mais uma dose. Outro ponto: a facilidade de obter dinheiro com o tráfico, são pessoas que não trabalham por um salário mínimo, não têm qualificação e educação para isto, e desejam vida fácil. Eles querem ascenção rápida e o tráfico dá isso, mas com muitos riscos. A Lei do usuário, em 2006, também colaborou, pois ele é pego e não é preso. Então, acaba traficando pra sustentar o vício e ganhar dinheiro. 
 
Notisul – E a questão social? O aumento da violência também é motivado por isso?
Bertoncini – Sim. A família é a base para a formação de pessoas do bem, de verdadeiros cidadãos. E não é porque a pessoa é pobre que vai virar criminosa. Existem muitas famílias com condição financeira ruim que conseguem educar seus filhos de forma correta. 
 
Notisul – Você a favor ou contra as mudanças no Código Penal?
Bertoncini – Em princípio, fiquei preocupado. Vai dificultar o trabalho policial, mas é a regra do jogo, a polícia faz o que a lei permite. A população nos cobra resultados, prendemos o criminoso, mas, às vezes, ele é solto. Paga a fiança e é liberado. Isto passa uma sensação de impunidade muito grande. Os valores estão invertidos. Acho que a médio prazo vai favorecer o crescimento da criminalidade. 
 
Notisul – Qual a sua visão sobre os últimos fatos envolvendo as Polícias Civil e Militar?
Bertoncini – O fato foi isolado, começou com o episódio em Jaraguá do Sul, aí foi aproveitado como um fato político por um delegado que tomou as dores e tornou isso público. O caso está sendo resolvido. O mais importante é que aqui as duas polícias trabalham juntas, a gente tem demonstrado isso através dos resultados de operações conjuntas, apreensões de vários criminosos com armamentos, com metralhadores. A troca de informações entre as duas tem sido essencial, sempre tivermos este entrosamento.
 
Bertoncini por Bertoncini
Deus: É o criador de tudo, é o que nos faz estar aqui.
Família: O centro, teu porto seguro.
Trabalho: Fundamental, a realização do ser humano.
Passado: Passou, é só recordações.
Presente: As ações, o trabalho, buscar ser melhor a cada dia.
Futuro: Humanidade, que o homem se desenvolva melhor e se espiritualize mais.
 
"Esta semana, estivemos reunidos com o delegado Renato Poeta. Foi uma visita de cortesia no sentido de fazermos operações conjuntas entre a civil e militar. Teremos muito trabalho para combater a violência, o tráfico de drogas e o porte ilegal de armas. Aguardem".