Amanda Menger
Tubarão

Notisul – Constantemente, você diz aos seus amigos que vai dar um drap do Tedboy Marino. O que é afinal o drape do Ted Boy Marino?
Chimia
– (Aos risos) Nós estávamos em uma conversa bem informal na última semana. E o assunto girava em torno da conversa dos namoros das filhas, e eu disse que, quando o namorado chegasse chamando de ‘sogrão’ e com o boné virado, que eu ia dar um drape do Tedboy Marino (risos). Quem tem menos de 40 anos não deve lembrar. Há uns bons 30 anos, passava na TV o Telecat Run Montilla, uma espetáculo de luta livre, onde tinham vários personagens que eram ídolos naquela época, como hoje são os atores de novela, de cinema. O Ted Boy Marino era o bonitão. Ele depois trabalhou um tempo com os Trapalhões. Tinha o Famtomas, o Verdugo, e tinha o Ted Boy Marino, que era o que sempre ganhava, era o queridinho da galera e tal. E ele tinha um gol que era esse, ele corria contra as cordas, saltava na horizontal e dava um chute com os dois pés no peito do outro lutador e o derrubada. Chamava-se de drape, do Ted Boy Marino. E isso ficou famoso. E aí conversando sobre namoro de filha falei essa brincadeira. A conversa então virou sobre TV, programas antigos, outros filmes que passavam naquela época.

Notisul – O que você lembra dos primeiros programas de TV, ainda na década de 1960?
Chimia
– Eu lembro, quando criança, em 1965, eu morava na Getúlio Vargas, bem perto do Rio Tubarão, e o meu avô comprou uma televisão e a vizinhança toda vinha para assistir TV. A gente via chuvisco e nada mais. Depois, melhorou e pegávamos as imagens da TV Piratini, de Porto Alegre. E depois começaram a surgir os programas, o Bonanza, o Rin-tin-tin, o Zorro de Capa e Espada, e a TV tinha um horário para encerrar. Acho que era 20 horas, 20h30min, e saía do ar. Tinha uma musiquinha que ficou famosa, era uma propaganda dos cobertores Paraíba: “Cobertores Paraíba, não espere a mamãe mandar, um bom sonho para você”. Tocou por vários anos e ficou conhecida por muita gente. Era um bonequinho com uma vela, e ele a apagava.

Notisul – Então, quando aparecia o bonequinho com a vela, tinha que ir dormir logo em seguida?
Chimia
– É porque a gente sabia que a programação da TV ia acabar. E na conversa nós lembramos destas histórias que marcaram a nossa infância. Um apresentador tão famoso no estado como Cacau Menezes, que fazia o mesmo estilo, era o que a gente assistia, e talvez o próprio Cacau tenha se inspirado, era José Fogaça, que hoje é prefeito de Porto Alegre, pelo PMDB, já foi senador também. Fogaça tinha um quadro dentro de um jornal da TV Piratini, que ele apresentava dicas de música, tudo que a juventude gostava, as festas, os grupos que surgiram, como os Almôndegas, de Porto Alegre.

Notisul – O grupo que depois virou a dupla Kleyton e Kledir…
Chimia
– Isso mesmo. Eram todos daquela época, da década de 1970. As informações da juventude daquela época vinham do Rio Grande do Sul. Vários apresentadores que hoje o pessoal com mais de 40 anos lembra bem eram oriundos do Rio Grande do Sul. Carlos Prates era daquela época. Tinha um cara do esporte, nossa, Lauro Quadros era muito bom! Era torcedor fanático do Grêmio, de dar soco em cima da mesa. Ele era um apresentador de esporte muito bom, e Fogaça da área jovem. Tinha Lenita Cauduro, foi apresentadora muito tempo, era uma moça muito bonita. A TV para nós era uma referência com o Rio Grande do Sul.

Notisul – E como é crescer junto com a TV, porque os jovens de hoje estão acostumados desde ‘sempre’ com ela?
Chimia
– É uma coisa engraçada. Na minha casa, eu ficava sentado embaixo da mesa, no chão, e a gente dava lugar para os vizinhos. Era uma festa. Não era novela, eram seriados, e tinha os televizinhos. Nós morávamos perto na antiga delegacia, onde hoje é o Mercado Público, e duas, três janelas, pessoas encostadas para ver TV, fora as que já estavam em casa. Isso em 1965. Foi em novembro de 1965 que o meu avô foi a Porto Alegre comprar uma TV, porque nem se vendia esse aparelho em Tubarão. Isso me fascinou. Eu faço uma ligação com a minha mais nova, que hoje tem 15 anos, com o advento do computador. Quando ela tinha 8, 9 anos, e ela perguntou para mim: ‘Pai, como a gente escreve uma carta’. Se eu tivesse que mandar uma carta para a Dinda – a minha mãe, que mora no Rio Grande do Sul – como eu faria?’. Aí eu disse: ‘Carta é algo natural, você escreve e posta no Correio’. Aí ela disse: ‘Como é isso?’. E aí eu me dei conta de que ela nasceu com o computador. Aos 3 anos, já brincava de digitar no computador. A mesma familiaridade que eu tive com a TV quando criança ela tem hoje com o computador. Ela nunca mandou uma carta, só e-mail, MSN, Orkut, agora o Twitter, e por aí vai. Eu comecei com aquilo ali e isso fez parte do meu contexto. Meus pais, meus avôs estranharam a TV. A primeira vez que eu mexi no computador foi em 1979, que era um terminal que recebia de uma CPU no meio da empresa e era preciso enviar os dados de relatórios; à noite, ficava gerando as informações e tu recebia os relatórios para analisar no outro dia. Uma propaganda que me marcou muito, com essa passagem do estágio analógico para o digital da tecnologia, faz uns dez a 12 anos, foi feita pelo Itaú, e dizia: ‘Imagina que quando você nasceu não existia e-mail, imagina que quando você nasceu não existia TV, e tal’. E aí alguém com o dedo fazia o símbolo do arroba (@) e finalizava: ‘Itaú, um banco totalmente digital’. As pessoas hoje vivem dependentes da tecnologia. Se faltar luz, é um caos. Se não tiver sinal de celular, de internet, ninguém trabalha. No Notisul mesmo (aos risos), vocês ficariam loucos. São tantas novidades e as pessoas nem se dão conta disso. Essa é a relação que eu faço. Eu cresci com a TV e isso se tornou algo que faz parte de mim. Eu não sei viver sem TV. E a minha filha não sabe viver sem computador.

Notisul – Você fala muito de propagandas marcantes, filmes, esportes… O que você assiste na TV?
Chimia
– Eu tenho TV por assinatura, com mais de 150, 200 canais, mas tem uns 15 que são preferenciais. Eu procuro as coisas que me interessam. A minha mulher me chama de louco. Porque eu consigo ver cinco canais ao mesmo tempo. Eu gosto de filmes, documentários, sou fanático por documentário, tanto que nas minhas produções eu sempre procuro fazer um making off, porque mostra os bastidores; gosto de perfis de alguma pessoa importante; esporte e jornalismo são as minhas preferências. Às vezes, eu estou vendo um filme, um documentário, é legal, e dá um intervalo – na TV por assinatura não tem muita propaganda comercial – então, eu troco de canal, fico zapeando. Se está passando uma entrevista no outro canal, eu paro, assisto e, no próximo intervalo, troco novamente, mas consigo ao mesmo tempo acompanhar várias coisas e, ainda assim, entender tudo o que está ocorrendo em cada programa, inclusive nos filmes.

Notisul – E para produzir, o que você prefere?
Chimia
– Se tivesse condições e o mercado possibilitasse, eu só faria curtas. O meu objetivo era produzir vídeos ou documentários, sobre qualquer tema. Porque hoje nós temos uma disposição tão grande de coisas, mas, às vezes, nenhuma informação sobre elas. Chamou-me a atenção e nós até fizemos um trabalho há alguns anos. Uma coisa é tu andares de carro pela cidade e outra é a pé. Então, às vezes, quando vou para a academia jogar padel, eu vou a pé. Em Tubarão temos vários monumentos. E eu pensei que isso era algo interessante, tem monumentos em praças que as pessoas nem sabem por que aquilo está ali. Por exemplo, na Marechal Deodoro, perto da funerária, tem um monumento dos ferroviários em homenagem a Altamiro Guimarães, perto do Notisul tem uma praça com o monumento da enchente, tem a Torre da Gratidão ao lado da Catedral. Será que as pessoas sabem o que são esses monumentos? Nós produzimos um documentário sobre os monumentos da cidade e isso me surpreendeu. Elencamos mais de 30 monumentos. E aí, em um convênio com a prefeitura, esse documentário foi apresentado no estande do município na Produsul. A gente produziu também um documentário sobre a enchente. E agora em março, quando completou 35 anos da enchente, o pessoal da Epagri pediu o documentário para apresentar em um seminário sobre as novas cheias. Isso é algo que me fascina. Só que eu tenho que sobreviver, tenho que pagar as minhas contas e os meus funcionários. Então, eu sou obrigado a viver comercialmente. O nosso trabalho é na área de audiovisual, em vídeos para a TV, programas de TV. E fazemos também esses trabalhos em eventos grandes como a Produsul, a República em Laguna e os documentários.

Notisul – Você produzia outras coisas além dos shows na Produsul?
Chimia
– A primeira Produsul eu não trabalhei diretamente para os organizadores. Eu fui contratado por uma empresa que, por sua vez, tinha sido contratada pela Produsul para fazer o evento. Nos outros, participamos de tudo, vídeo, transmissão de shows e a produção do vídeo da feira-festa propriamente dita. Pudemos acompanhar a evolução da Produsul. E eu valorizo muito o fato da Associação Empresarial de Tubarão (Acit), Câmara de Dirigentes Lojistas de Tubarão (CDL) e a prefeitura terem encampando a ideia e não deixarem a Produsul morrer. Porque várias empresas que até depois se instalaram em Tubarão, várias tecnologias que temos acesso hoje foram mostradas, divulgadas primeiro na Produsul. E tenho certeza absoluta que a maioria das pessoas de Tubarão só conseguiu assistir shows de grandes artistas nacionais e internacionais por causa da Produsul. Roberto Carlos, por exemplo, que todos dizem que só faz shows em local fechado, tivemos ele aqui, cantando em uma lona de circo na Produsul. O maior público que eu vi até hoje em Tubarão, em shows, foram 36 mil pessoas, na primeira vez que Zezé de Camargo e Luciano estiveram na cidade. No início da década de 1990. A Produsul era no antigo aeroporto. Tinha público na rua e as pessoas só conseguiram ver porque colocamos telões espalhados pela área toda, as pessoas não conseguiam chegar dentro do espaço do show. Tiveram que abrir todos os portões e derrubar os tapumes que tinham.

Notisul – O que você acha que ocorreu com a Produsul? No ano passado, o organizador Evaldo Marcos disse que Tubarão deixou de gostar da festa. Foi isso mesmo?
Chimia
– Eu sempre falei para Evaldo e chegamos a discutir isso várias vezes. Tem dois pontos que acho importantes. Um deles é que os shows passaram a se repetir. Cidade Negra a gente fez mais de cinco vezes. Lulu Santos outros três, Zezé de Camargo e Luciano acho que foram outras seis ou sete vezes. São artistas que se acompanha as músicas e elas não mudaram muito, então, tu vais a um, dois shows e eles também não mudam. Além disso, o horário também. Eu estou lá trabalhando com a equipe, deixo tudo organizado e 23 horas vou embora. Aí o pessoal diz: ‘não vais olhar o show?’, e eu digo: ‘a gente já fez esse show seis vezes e eu não vou esperar até 1 hora da manhã para ver de novo’. O horário fugiu muito. Quem fica para ver uma apresentação neste horário? É a gurizada, que tem no máximo a escola no outro dia, ou aquele que trabalha e não tem muita ‘responsabilidade’ com o serviço e, se chegar atrasado, inventa uma desculpa, diferente de outras pessoas, que têm outras responsabilidades e sabem que estarão quebrados no outro dia se chegarem às 3 horas em casa. O máximo que um show deveria começar era 23 horas, e ainda é tarde. Um show tem, em média, duas horas de duração, vai até 1 hora, ou então começa às 22 horas, vai até a meia-noite, aí tu sai, vai fazer um lanche, chega em casa a 1 e ainda consegue ficar mais ou menos para o outro dia (risos). Um show que começa a 1 hora e vai até as 3 horas tem que ir direto para o trabalho e ainda fica ruim no outro dia.

Notisul – E qual o segundo ponto?
Chimia
– É que, na área da feira, e essa é uma avaliação minha – não quero polemizar com ninguém, em vez de trazer empresas que tivessem algo de diferente, varejou muito. Trouxe o cara que vende chocolate deste jeito, o biscoitinho, a roupa de lã, o casaco de couro. Nada contra essas pessoas. Mas isso não é feira, é uma quermesse. Agora vem uma empresa de veículos para mostrar as novidades; vem uma Tractebel para mostrar sua tecnologia; uma Itagres para mostrar a produção. Isso cresce o nome da feira. Porque tem pessoas que gostam de ir ao show e ver a feira. Tem gente que só gosta do show e tem outras que só gostam da feira. Aqueles que vão para ver a feira querem algo com conteúdo. O espaço para o biscoito, o brinco não era para estar em uma feira como a Produsul, e sim em uma festa junina de comunidade, em uma feira menor, uma exposição específica. Na Produsul, tem que ser empresa com tecnologia ou serviços muito bons. Eu lembro de quando os estandes eram lindos, de encher os olhos.

Notisul – E sobre a Tomada em Laguna, hoje a República em Laguna, é o maior evento que você já produziu? Envolve muitos atores, detalhes, cenários, efeitos especiais…
Chimia
– Sim. No ano passado, teve um senhor do Ministério do Turismo que assistiu aos espetáculos nos camarotes. E, quando terminou, nós ficamos conversando um pouco e ele colocou o seguinte, que tinha dado uma avaliação de 8,5 para o espetáculo A Paixão de Cristo, lá de Nova Jerusalém. E é um espetáculo de teatro ao ar livre também, mas que tem uma cobertura de mídia nacional e internacional muito grande, praticamente todo mundo já ouviu falar desta encenação. E ele falou que voltaria a Brasília e que a nota que ia aplicar para o espetáculo A República em Laguna ficaria entre 9,3 e 9,5. Não existe no Brasil um evento assim. Eu tenho um amigo, que é tenor e participou da Tomada em Laguna. Ele morou cinco anos na Itália e disse que não conhecia na Europa algo deste tipo. É um espetáculo que contempla teatro ao ar livre, multimídia, cenografia, iluminação, efeitos especiais.

Notisul – E uma produção que cuida dos mínimos detalhes…
Chimia
– Com certeza. E a pessoa que vem fazer os efeitos, José Farjalla, que faz também os efeitos da Globo, também fez os efeitos do filme que o Sylvester Stallone veio gravar no Brasil. Nesta última gravação que fizemos, tiveram explosões de bombas que reproduziam tiros de canhões. E o que não é ao vivo tem os vídeos que complementam a história. Nós ficamos uma semana gravando com Erick Marmo e Juliana Knust e, em cada set, tinha em média de 20 a 30 pessoas por dia. Simulamos uma batalha campal, uma perseguição a cavalo, um naufrágio de um barco. Neste naufrágio, tinham dois caminhões de bombeiros para simular a chuva, tínhamos uma voadeira – barcos que andam em pântanos, que têm hélices em cima para impulsionar -, foi usado um destes para simular a ventania, além de barcos, botes e os efeitos para simular as explosões de canhões, as bombas. E isso envolve um grupo de 50 pessoas para trabalhar com dez, 12 atores. E eles penaram. Tomaram água, banho de chuva, gravado à noite e num frio! (risos). Quando vê tudo ali, no dia, é fantástico.

Notisul – Às vezes, uma técnica tão simples, um truque, no vídeo, fica outra coisa e as pessoas nem imaginam como foi feito…
Chimia
– É uma das coisas que me fascinam. No jargão nosso, quando temos que improvisar algo, não chamamos de gambiarra. Chamamos de traquitana. E muitas vezes a gente está gravando, com câmera de alta tecnologia, com uma grua, seis, cinco metros de altura, e aí tem que inventar uma traquitana. Uma das cenas para A República em Laguna deste ano era da fuga, e a Anita está correndo a cavalo, no meio de um descampado e muitos aclives e declives, e nós usamos uma moto.

Notisul – O Notisul publicou esta foto. O cinegrafista estava de costas para o condutor da moto. Qual foi a traquitana que fizeram para ele não cair?
Chimia
– (Risos) Ele ficou com medo e foi amarrado na moto… Teve outra cena que gravamos e foi fantástica. Estávamos no meio do mato, em uma carroça, com uma câmera, um microfone boom e um notebook para captar o áudio deles, e estávamos escondidos dentro da carroça (risos). É isso que me fascina. E agora estamos tratando as imagens, e vamos começar a finalizar as cenas. Hoje, a tecnologia permite muitas coisas. Temos uma biblioteca de sons, que só de ranger de porta são mais de 20, de telefone outros 15. Mas, muitas vezes, temos que improvisar, amarra daqui, dali.