Formado em engenharia civil (Ufsc/1993), com especialização em engenharia de segurança do trabalho (Ufsc/1997), atua desde 1994 como responsável técnico na elaboração e execução de projetos na Construtora Zita, onde coordena o Sistema de Qualidade (ISO 9001 e PBQP-H, nível A) e gerencia o Serviço Especializado de Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (Seesmet). Já foi presidente, por dois mandatos, da Associação Catarinense de Engenharia de Segurança do Trabalho (Acest), bem como primeiro vice-presidente e diretor da região sul da Associação Nacional de Engenharia de Segurança do Trabalho (Anest). Foi vice-presidente do Crea-SC em 2006 e 2007 e diretor geral da Mútua Caixa de Assistência dos Profissionais de 2009 a 2011. Em 2012, assumiu a presidência do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia com mandato até 31 de dezembro de 2014. Natural de Erechim (RS), Carlos Alberto Kita Xavier gosta de esportes, gastronomia e valoriza a família. Tem dois filhos, Gabriela de 10 anos e Carlos de 15. É casado com a engenheira civil e professora da Univali, Silvia Santos. Aprecia o litoral catarinense e é residente de Balneário Camboriú.
 
 
Fernando Silva
Florianópolis
 
Notisul – O CREA é a sigla de conselho regional de engenharia e agronomia. Atualmente a área de engenharia dividiu-se em um sem número de especialidades. Engenharia ambiental, química, industrial, de produção, etc. Qual a avaliação em relação a esta questão? 
Carlos – A engenharia é uma área bastante abrangente que está inserida nos mais diferentes campos de atuação profissional. A segmentação sempre existiu ao longo da história tendo em vista o modelo de desenvolvimento da ciência, da educação e, sobretudo, da economia, que valoriza cada vez mais o profissional especializado. Trata-se de um ciclo onde as novas descobertas científicas impulsionam o desenvolvimento tecnológico gerando novas demandas por profissionais e novos campos de atuação.  O CREA-SC sempre trabalha pela valorização dos profissionais, incentivando-os a buscarem novos conhecimentos. 
 
Notisul – Um fator que tem preocupado os setores produtivos da economia é a questão ambiental. Há muitas amarras. Como o conselho avalia o impacto da proteção ambiental no desenvolvimento econômico do país?
Carlos – Praticamente todos os elementos que formam o ambiente de uma cidade estão vinculados ao trabalho dos profissionais do CREA: construções, sistema viário, saneamento, iluminação, transporte, produção e distribuição de alimentos, entre outros. O Conselho tem como constante desafio mostrar aos órgãos públicos municipais e estaduais e à sociedade a importância de se contratar profissionais registrados para a realização de todos estes serviços e, ainda, de conscientizar os profissionais para que trabalhem sempre pelo desenvolvimento sustentável no meio urbano e rural. 
As questões ambientais e de desenvolvimento sempre geram debates. Além do conhecimento técnico é preciso imperar o bom senso. É preciso encontrar o equilíbrio entre a preservação e o bem estar social. Um exemplo são as obras do trecho Sul da BR 101, onde as questões ambientais, entre outros fatores, geraram atrasos nas obras. Dessa forma, percebemos o Norte do estado beneficiado pela expansão econômica devido a duplicação da BR e a região Sul ainda travada e sofrendo com os problemas de mobilidade, escoamento da produção, segurança e violência nas estradas. 
O que o Conselho realiza é a fiscalização das atividades necessárias para a obtenção dos licenciamentos ambientais, verificando a existência de profissionais responsáveis e das Anotações de Responsabilidade Técnica (ARTs). Há também um convênio de cooperação técnica entre o CREA-SC e a Fatma para aprimoramento da fiscalização da legislação ambiental. O objetivo é a reciprocidade de informações sobre as atividades, empresas e profissionais da área de meio ambiente, bem como a formalização da intenção dos dois órgãos em colaborarem, dentro de suas atribuições, na fiscalização do exercício profissional pertinente à legislação ambiental, fiscalização na área de agronomia, coibindo o uso indiscriminado de agrotóxicos, entre outros. 
 
Notisul – Atualmente, como funciona a atuação do Conselho no estado?
Carlos – O CREA-SC reúne a maior comunidade profissional do estado entre engenheiros, agrônomos, geólogos, geógrafos, meteorologistas, tecnólogos, técnicos industriais e agrícolas com 54.847 profissionais registrados e 13.260 empresas. Possui uma estrutura descentralizada com 23 inspetorias, sete escritórios e três postos de atendimento, além de 262 funcionários, 30 diretores regionais e 79 conselheiros representantes das entidades de classe e instituições de ensino do setor tecnológico. A nossa principal função é a fiscalização do exercício profissional que atua de forma preventiva e orientativa com objetivo de defender a sociedade e garantir o exercício profissional a quem possui habilitação coibindo a atuação de leigos. O Crea está subordinado ao Confea que é a instância máxima a qual o profissional pode recorrer e representa atualmente o maior conselho profissional do mundo com mais de um milhão de profissionais. Conta ainda com a Mútua Caixa de Assistência dos Profissionais, uma sociedade civil sem fins lucrativos que tem o objetivo de oferecer a seus associados planos de benefícios sociais, previdenciários e assistenciais.
 
Notisul – Que avaliação é possível se fazer do mercado atual de engenharia e agronomia no estado? Quais os principais pontos de desenvolvimento do Conselho em Santa Catarina?
Carlos – A economia de Santa Catarina caracteriza-se por uma enorme diversidade com um PIB girando em torno de R$ 160 bilhões, o sétimo maior do país, e um ambiente de negócios inversamente proporcional ao seu tamanho territorial. O setor secundário participa com 34,1%, o terciário com 59,2% e o primário com 6,7%, segundo a 23ª edição da publicação Santa Catarina em Dados da Fiesc. 
A engenharia está inserida direta e indiretamente nos diversos setores da economia. O desenvolvimento econômico do estado é equilibrado nas diferentes regiões com a concentração de inúmeros polos: cerâmico, carvão, vestuário e plásticos no Sul; alimentar e móveis no Oeste; têxtil, vestuário, naval e cristal no Vale do Itajaí; metalurgia, máquinas e equipamentos, material elétrico, autopeças, plástico, confecções e mobiliário no Norte; madeireiro na região Serrana e tecnológico na Capital. 
A indústria de base tecnológica está presente não só na Grande Florianópolis, mas em Blumenau, Chapecó, Criciúma e Joinville. O estado é o maior produtor nacional de maçã e cebola, o segundo de arroz, alho e fumo e o terceiro de trigo; é o maior produtor nacional de carne suína e de pescados e o segundo em abate de frangos do país. Possui ainda a sexta maior frota de automóveis e a quinta de caminhões do país. 
A construção civil é alavancada pelo turismo. O estado foi o quinto do Brasil com maior entrada de turistas internacionais em 2012 e é o quinto do país com maior número de estabelecimentos no setor de construção civil. Além disso, a participação da Construção Civil no PIB catarinense gira em torno de 6%. Em 2013, segundo dados da FIESC, o setor gerou 20 mil vagas em Santa Catarina, enquanto que em São Paulo foram 13 mil.
 
Notisul – As universidades e faculdades estão preparando adequadamente os profissionais que são lançados no mercado? Quais as principais dificuldades de um profissional recém-graduado? Há vagas para todos?
Carlos – Temos ótimas instituições de ensino no estado e também cursos de referência no país nas diferentes áreas da engenharia. A procura por profissionais continua em alta, entretanto existe um déficit resultado de inúmeros fatores, entre eles, o alto índice de engenheiros desviados de sua função, o número significativo de desistência dos cursos e, consequentemente, a diminuição no número de profissionais formados. Santa Catarina tem em torno de 50 escolas de engenharia, com aproximadamente 20 mil estudantes. São cerca de quatro mil formandos ao ano, enquanto só a construção civil admite, por semestre, mais de 50 mil profissionais, contratando em um mês aproximadamente seis mil trabalhadores, entre todos os da cadeia da produção, incluindo os engenheiros, que são a maioria. 
Isso estimula a busca por cursos das áreas tecnológicas nas universidades. A principal dificuldade é que o mercado procura por profissionais com experiência, prontos para atuar. Muitas empresas percebem a oportunidade para investir nos estudantes, contratando estagiários, capacitando-os para as demandas da empresa e do mercado de trabalho.
Isso estimula a busca por cursos das áreas tecnológicas nas universidades. A principal dificuldade é que o mercado procura por profissionais com experiência, prontos para atuar. Muitas empresas percebem a oportunidade para investir nos estudantes, contratando estagiários, capacitando-os para as demandas da empresa e do mercado de trabalho.
 
Notisul – Esses profissionais são remunerados de forma compatível com suas áreas e responsabilidades no país? 
Carlos – Este é um dos principais entraves para o crescimento ainda maior da área da engenharia no estado e no país. As empresas e órgãos governamentais não remuneram os profissionais adequadamente, muitas não cumprem a Lei 4.950A, do salário mínimo profissional que determina 8,5 salários mínimos para 8 horas de trabalho e 6 salários mínimos para 6 horas. Este é outro fator que contribui para o déficit de profissionais no mercado, sem falar do apagão de investimentos por parte do governo nas últimas décadas, situação que começou a ser revertida nos últimos anos. 
A verdade é que temos profissionais desvalorizados, um alto índice de engenheiros desviados de suas funções, profissionais qualificados que saem do Brasil buscando melhores oportunidades no exterior.
 
Notisul  – Quais os principais objetivos da atual gestão da presidência do CREA?
Carlos – O CREA-SC tem a função de fiscalizar o exercício ilegal das profissões coibindo a atuação de leigos. Como instituição representativa e social, tem o dever de participar dos debates dos grandes problemas sociais, utilizando o conhecimento técnico científico como ferramenta para propor soluções viáveis que ofereçam segurança à sociedade. Um dos caminhos é trabalhar em parceria com outros órgãos representativos e governamentais por meio de ações e campanhas em prol da acessibilidade, prevenção de catástrofes e incêndios, manutenção predial, fiscalização de obras públicas, entre outras.
Defendemos a criação de uma legislação específica para a manutenção predial, contribuindo para aperfeiçoar as Normas de Segurança Contra Incêndio em Santa Catarina. A fiscalização de obras públicas e a ocupação de cargos técnicos por profissionais legalmente habilitados, além do cumprimento do salário mínimo profissional, são ações importantes desta gestão em busca da valorização profissional. Criamos um GT Empresarial visando estreitar as relações com as grandes empresas da área tecnológica. Lançamos a cartilha de Acessibilidade e o Manual do Síndico com objetivo de orientar os profissionais e a sociedade sobre estas questões. 
Transformamos o Conselho numa instituição de excelência no estado e no país. Para isso, implantamos o Programa de Gestão da Qualidade ISO 9001 e o Projeto de Sustentabilidade, priorizamos a valorização dos profissionais e dos nossos colaboradores. Consolidamos e ampliamos os investimentos no Programa CREAjr visando à formação de novas lideranças e a aproximação com as instituições de ensino. Mudamos a filosofia do PEC – Programa de Educação Continuada priorizando os investimentos e a qualidade dos eventos ao invés da quantidade. Aumentamos o percentual de repasse das ARTs para as entidades de 10% para 14% e queremos chegar aos 16% até o final de 2014. Iniciamos o projeto de informatização dos processos nas câmaras especializadas e implantamos a votação eletrônica durante as plenárias. 
Além disso, implantamos melhorias na gestão financeira, apesar da redução das taxas de ARTs e da saída dos arquitetos do Sistema, reduzimos a inadimplência e a análise orçamentária e a aplicação dos recursos garantindo superávit. Temos o compromisso de manter as parcerias com a CREDCREA – Cooperativa de Crédito dos Profissionais, com o CONFEA e a MÚTUA visando o apoio institucional e financeiro aos projetos executados pelas entidades de classe e instituições de ensino da área tecnológica. 
 
Notisul – O que podemos esperar para o ano de 2014 nas áreas de Engenharia e Agronomia? 
Carlos – A Engenharia estará novamente em alta no Brasil em 2014 conforme matéria veiculada pela Revista Época Negócios, no início do ano, que destacou as 10 profissões que estarão no topo em 2014. Entre as principais estão Engenharia de Orçamentos, Engenharia de Segurança do Trabalho e Geociências (Geólogo). A engenharia foi apontada novamente como uma das profissões estratégicas para o crescimento das empresas e da economia do país neste ano. 
A área de infraestrutura será relevante tendo em vista o contexto do país com a realização do carnaval em março, Copa do Mundo em junho e eleições em outubro, que aquecem ainda mais o mercado de obras, gerando demanda por profissionais do Sistema. 
 
"A principal dificuldade é que o mercado procura por profissionais com experiência, prontos para atuar. Muitas empresas percebem a oportunidade para investir nos estudantes, contratando estagiários, capacitando-os para as demandas da empresa e do mercado de trabalho".
 
"A verdade é que temos profissionais desvalorizados, um alto índice de engenheiros desviados de suas funções e profissionais qualificados que saem do Brasil buscando melhores oportunidades no exterior. Isso precisa mudar".