Valdemar Fernandes Braga, conhecido como Braga, tem 68 anos de idade, e 50 anos de profissão como barbeiro e cabeleireiro. Natural de Tubarão, nasceu no bairro Campestre. Estudou até o quarto ano e se profissionalizou como barbeiro aos 17. Iniciou a sua carreira cortando o cabelo de parentes e amigos em casa. Aproveitou as oportunidades que teve e seguiu à sua vocação. Consciente de que precisava de uma base forte como profissional, realizou diversos cursos em São Paulo e na região. Casado há 46 anos é pai de cinco filhos. Em meio a dificuldades da profissão, abriu o próprio salão na cidade. Acompanhou as mudanças de tendência de meio século em sua carreira. Ensinou a profissão aos filhos, aos netos e a um afilhado. Hoje, nem todos trabalham com ele. Considera-se realizado no que faz e encara a vida com grande otimismo. “Não há nada mais gratificante do que trabalhar ao lado de quem a gente ama. Sinto muito orgulho de todos”, revela emocionado.
 
 
Fernando Silva
Tubarão
 
 
Notisul – Como o senhor iniciou na vida de barbeiro?
Braga – Comecei como barbeiro em 1962, quando tinha 17 anos. Comecei porque trabalhava na roça, todos eram da lavoura, mas eu queria sair da lavoura e comecei a cortar cabelo em casa. Já gostava da profissão e comecei a cortar o cabelo dos amigos, dos parentes, e vi que era algo que gostaria de fazer para a minha vida. Aí falei com o meu pai, que disse que tudo bem e que me apoiou. Vim, naquela época, para a barbearia Cruzeiro, onde tinha o senhor Antônio Cristina. Ele me ensinou muito. Deu-me uma vaga para começar na profissão. Fiquei um ano, mais ou menos, aprendendo, e havia outro rapaz que trabalhava lá, mas que foi servir ao exército. Foi quando o senhor Antônio me disse que a cadeira vaga seria ocupada por mim, e eu aceitei. Trabalhei lá dez anos como profissional. Depois pensei em botar um salão. Aluguei uma sala aqui na Lauro Müller, coloquei um salãozinho já com o nome: Braga Cabeleireiro.
 
Notisul – Além desse aprendizado, o senhor fez algum curso de especialização ou algo do tipo?
Braga – Sim, nessa época fui para São Paulo fazer um curso. Da década de 70 a 80 veio uma moda de cabelo comprido. Aprendi a cortar curto e, como a moda e os clientes passaram a exigir, tive que aprender essa nova tendência também. Foi na época dos Beattles. Tinha irmãos em São Paulo, falei com eles e fui para lá fazer o curso do Senac. Fiquei lá um mês – o tempo do curso – e trabalhei em um salão de um japonês que estava precisando de alguém. Aproveitei para aprender mais algumas coisas. Quando voltei, ele pediu para que eu ficasse, mas eu era casado e minha esposa estava aqui, além do mais, São Paulo era muito complicada de morar na época. Juntei minhas coisas e voltei para casa. Quando vim, já tinha a técnica. Desde então deu tudo certo, foi onde deslanchei. Comecei a trabalhar. Ensinei um irmão, meus filhos – dois filhos trabalham comigo e um neto, além de um afilhado também.
 
Notisul – E durante esses anos todos, o senhor cortou o cabelo de alguma grande personalidade da região?
Braga – Sim! Desde 1962, cortei cabelo de muita gente. O prefeito de Tubarão Dilney Chaves Cabral foi meu cliente, outros prefeitos também: Carlos Regi, por exemplo e Irmoto Feuerschuette. Hoje, temos também alguns clientes bem conhecidos. O Carlinhos, por exemplo, o ex-prefeito Carlos Stüpp, entre outros. 
 
Notisul – Esse contato faz parte da profissão. Do seu ponto de vista, cria-se muitos amigos?
Braga – Ah! Sim. É uma profissão que faz muita amizade, de cabeleireiro. Isso foi o que eu aprendi no Senac, era um curso muito bom. O cliente chega e senta na cadeira. Tem aqueles que gostam de conversar, tem cliente que não gosta. O que gosta, temos que descobrir do o que falar, política ou esportes, por exemplo, para entrar na conversa dele. Tem que ser esperto, aí não fica chato e eles acabam voltando depois.
 
Notisul – Além dos cursos, de que outra forma o senhor aprende novidades?
Braga – Hoje, por exemplo, aprendo com meu neto. É importante esse aprendizado. Nunca podemos dizer que sabemos tudo, estamos sempre aprendendo. Hoje, chega eu lá, profissional velho. No curso é apresenta da uma técnica. O penteado muda muito, segue a moda e, então, tem muita diferenciação, muito rápido. Tem que seguir as tendências porque os clientes seguem tendências também. Hoje, por exemplo, se usa muito cabelo arrepiado com cera.
 
Notisul – O custo de montar um salão é muito elevado?
Braga – Sim. Hoje, para iniciar é difícil. Graças a Deus montei, devagarinho, levei 50 anos para ter o que temos hoje. Comecei cedo. Comprando uma coisinha e outra. É tudo caro. Material, cadeira, secador, escova… . Para se montar um salão no bairro é mais fácil. No centro, para atender a elite, é mais difícil, tem que ter um conforto maior. Tem que ter os produtos mais procurados. Quando comecei, cheguei a trabalhar no bairro. Trabalhava no seu Antônio de dia e, à noite, no Campestre, então tinha diferença no cliente. O mercado, hoje, é bem disputado. É gostoso de trabalhar, de ganhar o cliente, mas não é fácil. Tem que ter sempre um diferencial e estar sempre atualizado, na moda. É muito importante.
 
Notisul – Na época em que o senhor começou era barbeiro, hoje chama-se cabeleireiro, por que mudou?
Braga – O cabeleireiro aprendeu a trabalhar no cabelo comprido masculino e feminino. Hoje, ainda existem barbeiros, que trabalham somente com homens. O cabeleireiro tem que investir na linha masculina e feminina.
 
Notisul – Além do nome da profissão, a procura dos homens e das mulheres mudou?
Braga – Hoje mudou. O homem vem para depilar o corpo, faz pé, mão, limpeza de pele, sobrancelha, se maquia para casamento, temos clientes que fazem isso aqui. Antigamente, não era bem visto, mas foi quebrado este tabu. A procura masculina cresceu muito. O homem tem que tratar da aparência, da higiene. Tem que sair caprichado, sempre apresentável e, assim, as mulheres gostam. 
 
Notisul – Aqui em Tubarão, a classe tem representatividade?
Braga – Fui professor do Senac e também fui o fundador da associação da classe. Mas acabou há mais de 20 anos. Tudo quanto é associação tem que ter dinheiro. E era difícil cobrar pelo banco, o pessoal era todo autônomo. Aí começaram a não pagar, falando que não tinham dinheiro, o que, muitas vezes, era verdade. E a associação não podia oferecer muito. O pessoal queria médico, dentista, tentamos buscar, mas não dava. Patinou e acabamos fechando as portas. Hoje, se não me engano, no estado só tem em Florianópolis. Seria até legal se voltasse por aqui. Para a classe é muito bom, mas é complicado pela questão financeira. A ‘barbeirada’ tem que pagar, e cerca de R$ 100,00. Isso é que fica complicado.
 
Notisul – Mesmo sem sindicato, como está a profissão hoje?
Braga – Hoje, por exemplo, a nossa classe está boa. Daqui para frente a tendência é melhorar. Tem poucos profissionais. Os meninos querem estudar, tem menos gente com curso técnico e a maioria já não quer vir para o salão, quer a mecânica, a elétrica. Hoje, o mais novo aqui no salão é o meu neto, que tem 20 anos e já está dentro da casa. Pode correr Tubarão inteiro e ver. Ele já se interessou. Hoje, se o filho de alguém de outra profissão quer aprender, é difícil, os pais, muitas vezes, não aceitam também. Querem que os filhos estudem, entrem na faculdade, virem médicos, advogados. Além do mais, para ser barbeiro tem que ter dom, vocação.
 
Notisul – Isso não resulta em uma carência de mão de obra no mercado?
Braga – Sim. Se eu parar não tem como me substituir. Mas, por um lado, é bom porque os poucos que tem ganham bastante dinheiro. O lado ruim é sim a carência no mercado, principalmente para os salões. No caso, tem que treinar. Para se tornar profissional é preciso dois, três anos de prática, diariamente, para ficar bom. E isso é aqui em nosso salão. Além de ter que ser uma pessoa atenciosa. O bom atendimento é tudo. Em qualquer negócio, se não tiver um bom atendimento, ele fracassa. Mantemos um padrão, fazemos reuniões incentivando esse diferencial com frequência e, mesmo assim, muitas vezes não conseguimos agradar. Não dá para agradar a todos e sabemos disso. Algo que me marcou muito foi o professor Silvestre, um dos fundadores da Unisul, ele e a família dele, o Salésio, figuras importantes que estão aqui conosco e se tornarem clientes nossos. Isso é a valorização do nosso trabalho. 
 
Notisul – Hoje, os profissionais têm registro?
Braga – Sim, o cabeleireiro tem registro. Em nosso salão todos são registrados. Infelizmente, a maioria não tem o documento. Registramos com um salário e ele ganha uma porcentagem por tudo o que faz, para ele ganhar mais. O salário é bom e, com a porcentagem, ganha-se muito mais. E é regulamentado pelo governo. O certo é registrar para o bem dele, do profissional. Porque se ele sai… Por exemplo, ficou cinco anos comigo e quer sair… Vai simplesmente pegar a ferramenta e sair? Não! De jeito nenhum. Ele tem o FGTS, os direitos dele. Isso é muito importante para a classe. Além do mais, deixar isso ocorrer é prejudicar um amigo profissional, que é casado, tem família, tem tudo. Tem que registrar! É uma luta que todos precisam aderir. Hoje, aqui, falta valorizar os profissionais dessa forma.
 
Notisul – Nesses 50 anos de trabalho, o que mudou em relação às ferramentas usadas?
Braga – Ah! Mudou muito de 50 anos para cá! Eu trabalhava com navalha mesmo, hoje tem gilete descartável. Trabalhava na máquina de mão, hoje é tudo elétrica. E sempre inovam mais. Mudou que é uma barbaridade. Shampoo, condicionador, isso mudou muito. Antes usava-se brilhantina, não tem? Sabe aquela frase que dizem: isso é lá do tempo da brilhantina? Vivi essa época. Depois virou o gel. Hoje se usa cera, pomada. Esses novos produtos cuidam mais. Não deixam cair. O cabelo fica forte, bem cuidado.
 
Notisul – Além do corte, há a pintura também. Para um salão, o que compensa mais?
Braga – O corte dá mais dinheiro. A química nem tanto. Temos para ajudar, mas o corte é 60% da arrecadação do salão. Hoje, mesmo ganhando pouco, tem que ter. É o diferencial fazer o que o cliente pede. Por exemplo, hoje fazemos em média 12 ou 15 cortes por dia. Então esse corte demora na faixa de 40 minutos a uma hora, mas dá todo um tratamento especial para quem busca o serviço.
 
Notisul – Quantos profissionais atuam com o senhor aqui no salão?
Braga – Hoje, temos sete profissionais. Três da família e outros três contratados. E estamos trabalhando com poucos, precisamos de mais gente. O ideal hoje é no mínimo nove. Já tivemos isso, mas depois o pessoal sai. Tem rotatividade grande, principalmente das profissionais femininas. Elas não são de ficar muito tempo. Por exemplo, hoje pegamos bastante meninas do Senac. Gosto muito, elas têm uma base boa, aí ficam aqui e passam dois anos conosco, aprendem o máximo que podem e ficam profissionais mesmo. Daí saem e montam o próprio salão. Às vezes dá certo, incentivamos bastante, mas às vezes não dá e acabam voltando.
 
Notisul – Em uma retrospectiva, qual foi a época mais difícil de trabalhar como barbeiro?
Braga – Foi na década de 70 e 80. Foi difícil porque houve a transição do cabelo comprido para o curto. Eu trabalhava com cinco pessoas. Ficaram somente eu e outro. O resto correu. Foram trabalhar com mulheres em salão. Perdemos grande parte da clientela. Chegou gente de fora com a técnica do cabelo comprido e levaram os clientes todos. Equipei-me diferente para poder sobreviver. Vi que era aprender ou desistir. Meus amigos desistiram. Graças a Deus deu certo para mim. Eu não tinha escolha, precisava eu fazer isso. Como amo o que faço, aprendi. 
 
Notisul – O senhor superou 50 anos de profissão com sucesso, como acha que serão os próximos 50? 
Braga – A evolução será muito grande. A profissão vai crescer ainda mais daqui para frente. As pessoas mudam de ideia e de conceito. Meu filho foi para São Paulo em um curso e viu as tendências, são fantásticas as mudanças que ocorrem em tão pouco tempo. Na moda, nas pessoas, torna tudo mais interessante e isso é muito enriquecedor.
 
Braga por Braga
Deus – Sem ele não se faz nada.
Família – É tudo para mim, é o principal.
Trabalho – Um homem sem trabalho não é nada. Trabalhei 50 anos sem férias.
Passado – Muito gratificante.
Presente – O melhor tempo.
Futuro – Cada vez melhorar mais.
 
"O cabeleireiro vira amigo, conselheiro e confidente. Se der certo o conselho, para nós é muito bom.”
 
“O cabeleireiro também tem um pouco de psicólogo. Tem gente que fala de separação de mulher, pede conselho devido a problema na família”…